O YouTube é certamente a melhor nascente para consultar arquivos visuais, um mina que dá um ótimo retorno quando o objecto é reviver a curso de grandes artistas. No caso de Raul Seixas —cujos 80 anos desde seu promanação são lembrados neste sábado (28)—, essa pesquisa tem um facilitador digno de elogios. O meio mantido e provido pela família de Raul tem hoje quase 1 milhão de inscritos, e, o melhor de tudo, vai além do que se costuma ver de outros artistas na plataforma.
O “Raul Seixas Solene”, também com frentes no Instagram e no Facebook, consegue com essa curadoria familiar uma variedade impressionante de gravações de TV, shows na íntegra, entrevistas em rádios e filmes caseiros no formato Super 8, que surpreendem até fãs ardorosos na playlist “Raridades do Conduto”.
As curiosidades são atraentes, mas a preocupação com o legado do artista é enorme. Os singles e álbuns de Raul, inclusive coletâneas, estão com o áudio disponibilizado na íntegra. Esse quadro completo é muito útil no caso de Raul, porque sua curso teve altos e baixos de exposição ao público.
Nos anos 1970, ele estourava nas rádios, mas nas emissoras de TV havia um receio de trazer Raul aos programas. Na ditadura militar, a “maluquice” do cantor era um duelo midiático.
Levou mais um tempo para que os grandes veículos conseguissem digerir o artista, o que só viria na dezena seguinte. Assim, a primeira metade dos anos 1980 é o período mais contemplado no meio, principalmente nas apresentações em programas de TV.
Raul vivia uma popularidade poderoso, passando a ser percebido pelo público uma vez que uma espécie de precursor naquela vaga de rock brasiliano que começava a despontar com Blitz, Barão Vermelho, Paralamas e Titãs.
O pilha disponível é praticamente um menu dos programas televisivos mais vistos na era. É provável ver Raul com Chacrinha, Hebe Camargo, Raul Gil, Tadeu Jungle, Blota Jr. e Maurício Kubrusly, numa exemplar multigeracional dos apresentadores que dominavam o entretenimento nas emissoras.
Percorrer tantos vídeos permite algumas comparações interessantes. Por exemplo, a cantiga “Carimbador Maluco”. Essa música de Raul foi a fita principal da trilha sonora do músico infantil da Orbe “Plunct, Plact, Zuuum”, em 1983. O título do programa foi tirado de um verso da cantiga, um dos sucessos mais estrondosos de sua curso. É curioso ver a reação de duas plateias muito distintas diante dessa música.
Há um vídeo que mostra Raul dublando a cantiga numa edição privativo do programa do Chacrinha gravada no Maracanãzinho lotado. O público é notadamente periférico, incluindo muitas mães com seus filhos, e desde o primeiro acorde a empolgação borda a histerismo.
Quando Raul mostra a mesma cantiga no programa “Fábrica do Som”, da TV Cultura, o público presente na gravação do Sesc Pompeia é predominantemente universitário. A reação inicial é mais fria, contida, mas antes da metade da cantiga já se vê uma versão reduzida do mesmo pandemônio causado no Chacrinha.
Essa folgança de comparações não se restringe a apresentações musicais e fica até mais nítida nas entrevistas. O meio tem duas conversas dele com Marília Gabriela. O pausa é de somente dois anos, 1983 e 1985, mas o tom e o foco da conversa mudam completamente.
Nesses dois anos o Brasil passou por mudanças aceleradas no processo de redemocratização do país. Na primeira entrevista, a apresentadora trabalha muito com a vida pessoal de Raul. Na seguinte, a visão política do cantor é o núcleo da atenção.
De uma maneira até engraçada, fica a sensação de que Raul amadureceu muito entre os dois episódios, mas é o contexto em que cada entrevista está inserida que passa essa sensação.
No material de shows, praticamente tudo vale muito a pena, já que Raul nunca foi um artista recluso a setlists de sucessos e as surpresas são muitas. Na lista de imagens antológicas está a performance no Festival de Águas Claras em 1984. Raul, em plena forma, decide trespassar do roteiro e insere uma vibrante versão de “Blue Suede Shoes” entre as clássicas “Maluco Formosura” e “Sociedade Escolha”.
Esse baú do dedo de Raul Seixas é um invitação a saber enfoques diferentes na trajetória breve de um artista inquieto.
