Reconhecimento do jongo como patrimônio chega a 20 anos com

Reconhecimento do Jongo como patrimônio chega a 20 anos com festas

Brasil

O Jongo foi reconhecido porquê Patrimônio Cultural Incorpóreo do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Vernáculo (Iphan) há 20 anos e permanece uma resistência da cultura negra levada adiante por descendentes de pessoas escravizadas de origem Bantu, principalmente do Congo, Angola e Moçambique, que foram trazidas para trabalhar em lavouras de moca e de cana-de-açúcar, nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo.

A manutenção dessa frase cultural afro-brasileira particularidade da região sudeste do Brasil, que reúne ritmo com a percussão de tambores, dança e os versos dos cantos também conhecidos porquê pontos, se deve, e muito, pela transmissão dos saberes de geração em geração, por meio da notícia vocal ou oralidade, do gestual e da materialidade dos instrumentos musicais.

“Dos mais velhos para os mais novos. Até pouco tempo detrás, garoto não podia dançar. Os mais velhos não permitiam porque muitas coisas eram tratadas nas rodas de Jongo através do esquina, coisas sérias de procura da liberdade. As crianças não participavam, mas hoje em dia, nós trabalhamos com as crianças, justamente para não perder a nossa raiz e a tradição”, revelou à Sucursal Brasil, a Mestra Fatinha, 69 anos, uma das lideranças e matriarcas do Jongo do Pinheiral, que segundo ela foi reconhecido há seis meses foi reconhecido porquê patrimônio intangível do estado do Rio de Janeiro.

“A história preta é vocal. Para ser jongueiro tem que fazer vivência. A gente não aprende o Jongo em livro, por isso a gente fala que as nossas comunidades são tradicionais. A gente aprende no dia a dia. O Jongo faz segmento da nossa vida”, apontou a Mestra.

“É uma frase que tem espiritualidade também, não é religião mas tem uma força místico importante de união dos jongueiros e de homenagem aos seus avós que chegaram [ao Brasil] escravizados no século 19”, acrescentou a professora do Laboratório de História Verbal da Universidade Federalista Fluminense (UFF), Martha Abreu, em entrevista à Sucursal Brasil.

 


Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jonga. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação
Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jonga. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação

Até pouco tempo, as crianças não podiam dançar. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação 

Crianças

Apesar de as crianças não terem permissão para participar das rodas, Mestra Fatinha esteve presente desde cedo por pretexto da sua estatura física. Ela e as irmãs eram muito altas já com dez anos. “A gente foi para o Jongo muito cedo. É uma vida dentro do Jongo. As crianças que conheci garoto, cresceram e hoje me chamam de vovó do Jongo”, contou, acrescentando que a mãe dela, Tenacidade Oliveira Santos, também matriarca está com 92 anos, enquanto Deric, um menino da comunidade, aos 4 anos, já é um jongueirinho. “A família dele é progénito direta dos escravizados da rancho. Ele está vindo aí, a mãe dança, a avó dança, a bisavó dançava e ele está vindo, uma gracinha o Deric”, comentou.

A presença dessa sintoma cultural é poderoso no Vale do Rio Paraíba e se mantém em cinco comunidades centenárias dos municípios de Barra do Piraí, Piraí, Valença, Pinheiral e Vassouras, no sul do Rio de Janeiro, entre elas, o tradicional Jongo do Pinheiral, que surgiu da sintoma das pessoas escravizadas da Herdade São José dos Pinheiros, que pertencia à família Breves. O lugar é considerado porquê a origem do jongo.

Mestra Fatinha contou que o lugar, uma das maiores fazendas de moca do Brasil, teve mais de 3 milénio negros escravizados. “Uma das maiores famílias escravocratas do Vale do Moca”, pontuou.
 


Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jonga. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação
Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jonga. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação

 Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação  

Dia Estadual do Jongo

No Rio de Janeiro, se comemora neste dia 26 de julho o Dia Estadual do Jongo, não por contingência, é também o Dia de Senhora Sant’Ana, mãe de Maria e avó de Jesus Cristo, sincretizada porquê Nanã nas religiões de matriz afro-brasileira. “Uma homenagem à ancestralidade feminina, às pretas velhas jongueiras, avós que souberam gloriar e nutrir as novas gerações com uma forma de frase hoje consagrada porquê patrimônio cultural do Brasil”, informou o site do Núcleo de Referência de Estudo Afro do Sul Fluminense (Creasf) do Jongo de Pinheiral.

Também chamado de congo ou caxambu, o Jongo é uma sintoma particularidade da região sudeste do Brasil, segundo a Mestra Fatinha, que tem mais de 40 anos de militância pela divulgação e preservação da cultura do Jongo, o nome varia conforme o lugar em que se desenvolveu. No Espírito Santo, por exemplo, é jongo ou congo. No Morro do Salgueiro, na zona setentrião do Rio de Janeiro, é Caxambu, nome oferecido também em Minas Gerais e no Morro da Serrinha, em Madureira, também zona setentrião da capital, é Jongo.

Festejos

É justamente no Dia Estadual do Jongo que começam as festividades de 2025. Neste sábado (26), mestres, mestras e jongueiros estarão reunidos no 4º Encontro de Jongos do Vale do Moca, no Parque das Ruínas de Pinheiral, lugar onde o Jongo nasceu, durante a escravidão nos cafezais e dimensão que pertenceu a família de Joaquim de Souza Breves, o maior senhor de escravizados da região. “A gente recebe muita gente cá, pessoas que gostam mesmo da cultura do jongo. É um dia maravilhoso de reencontros e encontros, nossos tambores tocando o tempo todo da lisura até o final”, indicou a Mestra Fatinha.

O 4º Encontro vai reunir muro de 400 lideranças de Jongo e mestres de mais de 18 comunidades e quilombos tradicionais dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.


Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jonga. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação
Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jonga. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação

Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação 

“Primeiramente tem o impacto econômico de gerar serviço, renda e trabalho com o turismo étnico. Fora isso tem o impacto simbólico extremamente importante que foi o povo preto que construiu com seus próprios braços a dimensão do moca e sustentou a economia brasileira no ciclo do moca, foram milhões de escravizados que chegaram no Cais do Valongo [região portuária do Rio de Janeiro] e subiram para os cafezais, que são justamente os avós desses mestres de jongo que vão estar cá”, disse o músico, pesquisador e coordenador do encontro, Marcos André Roble, em entrevista à Sucursal Brasil, acrescentando que a prefeitura de Pinheiral cedeu o Parque para que o jongo do Pinheiral realize ali as suas atividades culturais.

“Isso também é uma viradela histórica de superação. Aquele espaço que escravizou os avós dessas mulheres negras e mestras, hoje é dirigido por elas e ali vai ser construído o parque temático sobre a história do preto no Vale do Moca”, completou.

De harmonia com Marcos André, o planejamento do parque temático está em curso e o projeto executivo para a geração do espaço foi selecionado pelo Programa de Aceleração do Incremento (PAC), do governo federalista.

“Ali vai ter o Museu do Jongo, a Escola de Jongo, um restaurante de comidas étnicas e um núcleo turístico de visitação. A inauguração é para 2027, mas o projeto executivo já está sendo elaborado com recursos do PAC, porque fomos selecionados pelo governo federalista para leste projeto do parque”, informou.

“Está na hora do Brasil entregar para o povo preto do Vale do Moca toda a riqueza que construiu o Brasil através da venda do moca para o mundo inteiro durante o Brasil colônia. Tantos anos depois da Anulação essas comunidades ainda não têm os seus museus, os seus centros de visitação e as suas escolas de jongo. Pinheiral já deu o primeiro passo”, pontuou.


Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jonga. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação
Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jonga. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação

Reconhecimento do Jongo, por Karen Eppinghaus/Divulgação

Samba

A professora Martha Abreu, disse que o Jongo é considerado um dos pais do samba carioca porque as pessoas migraram para a capital do Rio e sem recursos financeiros foram morar em periferias uma vez que “a derrogação não trouxe reparação”.

“Tem grupos importantes na Serrinha em Madureira, no Salgueiro, já teve na Mangueira, no Estácio, diversos morros. Essa bagagem cultural é tão importante que esses que chegaram são fundadores das escolas de samba. Em contato com a modernidade, no Rio de Janeiro todas as escolas mais antigas têm jongueiros na sua instauração. O próprio Predomínio Serrano, a Mangueira, a Portela e o Salgueiro nem se conta, é um Jongo incrível. É Caxambu. Lá grande segmento da comunidade veio de Minas Gerais e lá eles chamam caxambu”, informou a professora da UFF.

Dentro da Semana do Patrimônio Histórico Vernáculo, as festas pelos 20 anos do reconhecimento dessa sintoma cultural, vão continuar entre 14 e 16 de agosto, no Encontro de Jongueiros, que promete transformar a Terreiro Tiradentes, no núcleo do Rio, em um grande quilombo, com a presença de muro de 18 comunidades de Jongo e, aproximadamente, 400 jongueiros.

A programação inclui rodas de Jongo, shows de samba, oficinas com mestres, um seminário no Teatro Carlos Gomes, exposição fotográfica na rossio e o lançamento do projeto Museu do Jongo, que será um portal com mais de 5 milénio fotos e vídeos sobre comunidades de Jongo. Outrossim haverá as estreias de dois curtas-metragens dirigidos por Marcos André: Jongo do Vale do Moca e Mestres do Patrimônio Incorpóreo do Estado do Rio.

“A gente quer lotar a Terreiro Tiradentes. Vai ser o grande momento da celebração desses 20 anos, com as rodas de jongo, no dia 16, de perdão, na Terreiro Tiradentes”, disse Marcos André.

Fonte EBC

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *