No último domingo à noite, estava eu num avião voando de São Paulo, onde passei o final de semana, para Recife, onde moro. Decolei de Guarulhos porquê um pária, cancelado nas redes sociais, por justificação de uma poste publicada nesta Folha semana passada. Intitulada “Kleber Mendonça não tem amigos, mas bajuladores”, a poste incomodou os que vestiram a carapuça, sempre mais realistas que o rei, mormente em Pernambuco.
Enquanto eu voava para a terreno dos altos coqueiros, temi por minha vida. Será que o voo seria sabotado pela CIA pernambucana? Durante as três horas de viagem, fui recebendo notícias acerca da pequena povaréu que sonhava na frente do Cinema São Luiz, no núcleo de Recife, empolgados com o provável Oscar. Haja vontade de ser estremecido pelos países centrais! Ao cochilar, imaginei-me sequestrado pelo serviço secreto de Pernambuco e levado, sob tortura, a pedir perdão pelo sacrilégio de criticar uma obra sítio.
A poste que escrevi semana passada criticou os roteiros simplórios de Kleber Mendonça, mas reconhecia o valor do pernambucano porquê grande diretor. Não foi suficiente. A cracolândia do dedo, termo cunhado pelo filósofo Eduardo Gianetti para descrever nossas odiosas redes sociais, não se deu por satisfeita. Era preciso se ajoelhar diante do mito, submeter-se completamente ao divo do cinema pátrio, reconhecendo-lhe a genialidade em sua integralidade.
A poste incomodou mormente aqueles que idealizam o estado de Pernambuco e a cultura pernambucana. Trata-se de uma romantização oriunda em universal da turma meio intelectual, meio de esquerda, meio classe média subida, que nutriz detestar quem não comunga de sua fé, suas tradições e seus hábitos. Foram estes que me cancelaram. Para o povão, que tem mais o que fazer, sigo sendo um ilustre incógnito.
Entre nossos “meio intelectuais, meio de esquerda”, feliz termo de Antonio Prata, folcloriza-se Pernambuco porquê um bastião da arte supostamente autêntica e popular no Brasil. Involuntariamente, reativa-se uma mitologia muito datada, de mais de século anos. Zero mais conservador.
Durante as semanas pré-Oscar, os produtores do filme regozijaram-se ao manifestar que “O Agente Secreto” representava o Brasil se reencontrando na tela do cinema. Mas, porquê apontou o colega Rodrigo Cássio cá nesta Folha, trata-se de um Brasil muito muito aceito internacionalmente, muito enfronhado nas malhas do poder cinematográfico que ousa criticar.
Paradoxo interessante, o filme de Kleber Mendonça Fruto foi parcialmente financiado pela Netflix por meio de um consonância de licenciamento e esteio à produção. Permitiu-se mal “O Agente Secreto” chegasse ao streaming pouco tempo posteriormente a sua bem-sucedida passagem pelos cinemas e premiações. Grande préstimo da produção.
O problema é que não combinaram com o oração do diretor, que enxerga na arte popular sempre uma espoliação indevida. Estará Pernambuco sendo espoliado pela Netflix? De minha secção, simples que acho que não. Mas esta deveria ser uma questão levada a sério pelos bajuladores de plantão, que endossam um oração sem pé nem cabeça construído pelo roteiro de Kleber Mendonça.
“O Agente Secreto” abre com a seguinte frase: “Nossa história se passa no Brasil de 1977, uma era enxurro de pirraça…”. Em entrevista à jornalista Natuza Nery, Kleber reclamou que as traduções estrangeiras nunca deram conta da ironia do noção de pirraça: “Adoro essa vocábulo. Tem um ar muito literário, muito pernambucano. Subfatura de maneira gigante tudo o que a sociedade passou. Não queria furar o filme com uma explicação séria ou histórica”, disse o pernambucano.
Mas qual foi a pirraça de Kleber por fim? Se o diretor não quis dar um banho de história em seu público no início do filme, ao longo da obra o que se viu foi uma grande pirraça historiográfica. Kleber inventou uma ditadura sudestina contra o Nordeste, versão histórica que não está em nenhum livro sério de história do Brasil.
Diante da “ditadura sudestina”, romantiza-se Pernambuco e a região. É porquê se o Nordeste fosse uma grande mina de ouro da cultura popular espoliada pelos malvados homens brancos do Sudeste, que assaltam os pobres coitados da região. Em “O Agente Secreto” os sudestinos maléficos da ditadura tolhem o pobre professor universitário interpretado por Wagner Moura, determinando o subdesenvolvimento de Pernambuco.
É uma narrativa terraplanista. Não condiz minimamente com a veras histórica. Em verdade, nem precisaria ser leal à história, por fim todo filme é livre para viajar o quanto quiser. Mas, sem bom humor qualquer, a tese do filme é levada a sério por produtores, diretor e público. Zero mais ingênuo.
O Nordeste, vigoroso e altaneiro, esteve envolvido até a espírito no projeto da ditadura. Tivemos um presidente nordestino, o cearense Castello Branco, um dos articuladores do golpe militar de 1964. Rachel de Queiroz e Gilberto Freyre, cânones da cultura pátrio e nordestina, defenderam a ditadura! E o que manifestar da Odebrecht e da Queiroz Galvão, empreiteiras baiana e pernambucana que cresceram horrores durante a ditadura?
No fundo, a romantização de Pernambuco e do Nordeste não adere à veras dos fatos. Mas cola no imaginário vitimista. Porque idealiza, simplifica e constrói inimigos claros que supostamente espoliaram um Nordeste real e popular. É uma grande pirraça historiográfica.
E contra uma pirraça historiográfica, nascente humilde colunista fez outra pirraça que quase causou-lhe a cassação do visa pernambucano. Ainda muito que os ânimos da internet (quase) nunca se materializam na vida real. Sigo vivendo sossegado nas belas terras de Dominguinhos, Chico Science e João Gomes. E o Oscar tão desejado, que não veio, passou a ser renegado porquê símbolo da incompreensão do mundo branco colonialista dos países centrais.
Aos que desgostaram do texto, cabe lembrar que todo debate é mais rico quanto mais houver dissonâncias. Concordâncias são quase sempre puxa-saquismos e reverências medrosas. Demais, um texto de jornal não deveria ser tão importante assim. Em épocas pré-cracolândia do dedo, os jornais de papel estariam embalando peixe na feira do dia seguinte.
Meu texto da semana passada foi uma pirraça. Finalmente, a era das pirraças não acabou. Relaxa, Pernambuco!
