'Remakes' gringos de novelas viram novo front da Globo

‘Remakes’ gringos de novelas viram novo front da Globo – 24/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A madrasta, Nur, abandona a enteada no lixão, depois que o pai da pequena morre. Anos se passam e, já adulta, sem se identificar, Leyla arruma um ocupação na vivenda da vilã e do marido, o ex-jogador de futebol Tufan. A jovem começa logo a tramar a ruína da megera.

Soa familiar? E é mesmo. Essa é a sinopse de “Avenida Brasil”, romance de João Emanuel Carneiro —mas em sua versão na Turquia, batizada de “Leyla” e adaptada pela produtora lugar Ay Yapim. O folhetim estreou ano pretérito e, desde novembro, está disponível na Globoplay.

Indicada ao Emmy em 2013, a romance pátrio já era a campeã de vendas para fora do Brasil da emissora. Enfim, “Avenida Brasil” tinha sido exportada para 140 países e dublada em 19 idiomas. Mas, agora, o folhetim representa o que a Orbe vê porquê uma novidade fronteira de internacionalização de suas produções: a venda de direitos para “remakes” locais.

“São poucos os canais no mundo com fôlego para produzir 100% da sua grade. Mas o teor importado normalmente não vai para o horário superior”, diz Angela Colla, líder de negócios internacionais da Orbe. “Com ‘Avenida Brasil’, isso mudou de patamar, conquistamos o horário superior em mercados que nunca tínhamos conseguido, principalmente esses mercados produtores de novelas.”

As novelas brasileiras começaram a se solidar porquê um resultado de exportação enquanto o país ainda vivia os efeitos do estouro do Cinema Novo, que tinha sido comemorado em diversos festivais internacionais, com diretores porquê Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Em 1962, “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, venceria a Palma de Ouro em Cannes.

Os anos 1970, já depois do movimento, tiveram sucessos porquê “Bye Bye, Brasil”, de Cacá Diegues. Mas, fora desse rotação do cinema de responsável, quem também ganhava o mundo era o prefeito corrupto Odorico Paraguaçu, que ludibriava o povo de Sucupira —a romance “O Muito-Estremecido”, de Dias Gomes, da qual ele era personagem, foi a primeira exportada pela Orbe, em 1976, para o Uruguai.

Nos quase 50 anos desde logo, a Orbe calcula que já vendeu 277 novelas, para 190 territórios, com conteúdos traduzidos para murado de 70 idiomas. São folhetins porquê “Totalmente Demais” (135 países), “A Vida da Gente” (132 países) e “Caminho das Índias” (117 países).

O principal mercado ainda é a América Latina, com mais de 65 parceiros e 110 das novelas vendidas até hoje no totalidade. Mas a emissora vem experimentando novos formatos. Nos países da antiga União Soviética, por exemplo, Odete Roitman escapou da morte anunciada praticamente ao mesmo tempo em que no Brasil: “Vale Tudo” foi exibida quase simultaneamente na região.

“É um mercado muito importante, porque são fãs das novelas brasileiras. Eles fazem uma dublagem muito rápida, que não é muito uma dublagem, é um ‘voice-over’. Fazem em dois dias e já botam no ar”, diz Colla.

“Avenida Brasil” não é o primeiro remake, mas tem sido considerada um símbolo desse novo front. Também porque a adaptação foi feita em um país que, ao lado da Coreia do Sul, despontou porquê um concorrente global dos folhetins latino-americanos; não à toa, a própria Globoplay já abriu seu catálogo às novelas turcas.

“Rentabilizamos muito ‘Avenida Brasil’. Mais de dez anos depois do lançamento, nossa estratégia foi pensar porquê dar uma novidade vida a ela. E pensamos com qual parceiro e qual produtora da Turquia queríamos fazer esse projeto”, afirma Colla.

Enquanto se discute se as produções do Brasil deveriam se adequar a um estilo internacional, as novelas são um exemplo há décadas de teor tipicamente brasílio que, mesmo assim, viaja muito. O apelo vem dos elementos globais desse tipo de narrativa: o melodrama, as tramas de vingança, as narrativas de superação, os amores impossíveis etc.

“O Clone”, de Glória Perez, por exemplo, virou “El Clon”, pelas mãos da Telemundo, que produz teor em espanhol para o público nos Estados Unidos. Isso em 2010, um ano em que já não se falava mais de clonagem e caracterizar atores ocidentais porquê árabes poderia pegar mal. Mesmo assim, a história de um paixão que atravessa culturas ainda parece atual para um público fora do Brasil.

A trama da mulher empoderada que não precisa de varão em “Fina Estampa”, de Aguinaldo Silva, virou “Marido en Alquiler”, também pelas mãos da Telemundo. O famoso personagem Clô, de Marcelo Serrado, virou Rosario Flores, o Ro, interpretado por Ariel Texidó.

Junto com as tramas, a Orbe também presta consultoria artística aos parceiros fora do Brasil, já que às vezes são necessárias adaptações locais —a “Avenida Brasil” turca, por exemplo, era exibida uma vez por semana, com episódios de até duas horas. E a emissora ainda oferece consultoria de negócios, quando há interesse, exportando suas estratégias para rentabilizar os folhetins enquanto estão no ar.

Iniciativas porquê essas são tentativas de prosperar em um mercado cada vez mais competitivo. Não só pela subida dos folhetins turcos e sul-coreanos, mas também pela disputa acirrada pelo tempo do testemunha, que tem cada vez mais opções de entretenimento.

“Com o objetivo de chegar a novos mercados, a gente se abriu para novos modelos de negócios, inclusive o de formatos”, diz Colla. “Não vendíamos romance para a Turquia e continuamos sem vender a romance pronta. Mas todo mercado produtor precisa de ideias. E o ‘remake’ é uma história que já foi testada e teve sucesso comprovado.”

Folha

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