É difícil se lembrar de um ano tão fraco para a música anglófona quanto 2025. Historicamente dominantes na indústria fonográfica, a produção de artistas de Estados Unidos e Reino Unificado que cantam em inglês teve menos peso no que foi massivamente consumido nos últimos 12 meses por cá e lá fora, e também naquilo que gerou impacto cultural e político.
As listas de melhores discos do ano foram dominadas pela cantora espanhola Rosalía, que engendrou catolicismo e música clássica em seu pop no álbum “Lux”. A obra “Debí Tirar Más Fotos”, do porto-riquenho Bad Bunny, também foi prestigiada, angariando indicações ao Grammy americano, show no pausa do Super Bowl e o título de artista mais ouvido do planeta no streaming —além de dois shows no Allianz Parque, em São Paulo, marcados para fevereiro.
Nem um disco novo de Taylor Swift, “The Life of a Showgirl”, foi suficiente para mudar nascente cenário —assim uma vez que os trabalhos de The Weeknd, Miley Cyrus ou Sabrina Carpenter. Lady Gaga foi quem brilhou com “Mayhem”, álbum que marcou o retorno à sua sonoridade clássica e também ao Brasil.
Ela fez um show histórico, gratuito, na praia de Copacabana, que foi ainda maior e mais apoteótico que o de Madonna no ano anterior, reunindo mais de 2 milhões de pessoas, segundo a prefeitura do Rio de Janeiro. Ainda emplacou um dos hits mais ouvidos do ano no planeta, a música “Die With a Smile”, uma parceria com Bruno Mars.
No Brasil, o sertanejo começou o ano descendo para Balneário Camboriú e disputando a trilha sonora do verão, mas dominou os rankings de mais ouvidas com sua vertente romântica e de violões. É essa sonoridade que predomina em “Tubarões”, sofrência de Diego & Victor Hugo que tocou de fora a fora no país, e no álbum “Manifesto Músico 2”, de Henrique & Juliano, a dupla mais bem-sucedida do ano no gênero.
Simone Mendes voltou a figurar entre as mais ouvidas, mas desta com “P do Perversão”, parceria com o grupo Menos é Mais, responsável por levar o pagode de volta às paradas. Puxada pela versão em português de “Corazón Partío”, a filarmónica estourou com “Churrasquinho 3”, lançado no término do ano pretérito.
Foi também um ano de destaque para o forró e o piseiro. Wesley Safadão fez uma irrupção bem-sucedida pelas vaquejadas e Natanzinho Lima se tornou um dos nomes mais populares do gênero, enquanto Leo Foguete levou o acordeon às mais ouvidas com “Transcrição Proibida”. João Gomes fez o mesmo nas listas de melhores de 2025. O pernambucano colecionou prêmios com “Dominguinho”, em que dá verniz acústico e pop aos estilos que defende, ao lado de Jota.pê e Mestrinho.
Poucas músicas foram tão chiclete quanto “Resenha do Arrocha”, em que o baiano J. Eskine fala do jogo do tigrinho em uma colagem estranhamente contagiante de trechos de outras músicas. O mesmo jogo de contratempo online surge também em “Oh Pequena Quero Você só Pra mim”, hit de Oruam em parceria com Zé Felipe, MC Tuto e Rodrigo do CN.
O funk rendeu álbuns conceituais de Hariel, “Eh Noiz Ki Tá”, e Papatinho, “MPC”, além de emplacar outros hits, caso de “Famosinha”, com DJ Caio Vieira, MC Meno K e Rodrigo do CN, mas foi notícia nas páginas policiais. Tanto Oruam quanto Poze do Rodo foram presos —e depois soltos, em casos bastante midiáticos— por acusações relacionadas à apologia de crimes e supostas ligações com o tráfico de drogas.
No ano da COP30 em Belém, foi Gaby Amarantos quem soube captar a atenção em torno da cultura paraense. A cantora, ícone do tecnobrega, encapsulou no álbum “Rock Doido” uma cena que ferve há anos no Setentrião do país através das festas de aparelhagem. Foi no Pará, aliás, que aconteceu uma das cenas mais inusitadas do ano —a gravação de um programa de TV com a americana Mariah Carey cantando em cima de um embarcação em formato de vitória-régia para conscientizar sobre a preservação da Amazônia.
O rap foi marcado pela cisão com disputa judicial milionária entre Emicida e seu irmão, Evandro Fióti, e o término —ainda que temporário— da gravadora Laboratório Fantasma. O rapper também fez seu retorno às raízes com um álbum inspirado pelos Racionais MCs, no que chamou de “tempo Racional”. Matuê lançou um disco pouco festejado e quem brilhou foram as mulheres, entre elas Ebony, Ajuliacosta e Stefani.
Para a sátira especializada, se destacaram os dois trabalhos em que Luedji Luna procura um jazz privado e brasiliano, o “Custoso Vapor II” de Don L, os samples resgatados por BK, o caldeirão de ritmos do BaianaSystem, o pop envolvente e tropical de Marina Sena, o concretismo de Jadsa, a urgência de Arnaldo Antunes e o magnetismo infinito de Djavan, entre outros.
No caso dos shows, nem Lollapalooza, com Alanis Morissette e Olivia Rodrigo, e nem o The Town, com Green Day e Backstreet Boys, conseguiram ofuscar a última grande turnê de Gilberto Gil, “Tempo Rei”. A capital paulista recebeu ainda artistas alternativos, uma vez que Wilco e Air no C6 Fest, e viu uma comoção rara em torno das duas apresentações do Oasis no estádio do Morumbi, no ano em que o Planet Hemp se despediu dos palcos. Dua Lipa, que tocou também no Rio, ficou encantada com o Brasil.
Alguns gigantes da música morreram neste ano. Lá fora, o mundo chorou as perdas de Ozzy Osbourne, voz fundamental na história do rock e do Black Sabbath, Brian Wilson, mente lustroso e perturbada por trás dos Beach Boys, o primeiro planeta do reggae, Jimmy Cliff, e o genial Sly Stone, que fundiu soul, funk, rock e psicodelia sob o Sly & the Family Stone, e o príncipe do neo-soul, D’Angelo, entre muitos outros.
Já no Brasil, a morte de Arlindo Cruz fez o país parar para relembrar seus sambas eternos distribuídos desde os primeiros álbuns do Fundo de Quintal —grupo que perdeu Bira Presidente, seu líder e sumidade no pandeiro. Também nos deixaram o bruxo dos sons universais, Hermeto Pascoal, as melodias oníricas de Lô Borges, uma das cabeças por trás do “Clube da Esquina”, o maldito inquieto Jards Macalé, a voz profunda e esotérica de Nana Caymmi, a boemia blueseira de Ângela Ro Ro, o rock com glitter e atitude de Edy Star, a mito da música paraense Rabino Damasceno e o carismo inexaurível de Preta Gil, para referir alguns.
O empresário e rapper americano Sean “P. Diddy” Combs, mais importante para a indústria do que para a música, vai ver a viradela do ano da cárcere, onde está recluso réprobo por crimes relacionados à prostituição. O caso teve bastante repercussão ao longo dos últimos meses.
O ano de 2025 também vai entrar para a história uma vez que o primeiro em que as músicas feitas por perceptibilidade sintético fizeram qualquer fragor. Uma filarmónica chamada Velvet Sundown, criada com a tecnologia, angariou alguns ouvintes e virou manchete, mas sua música não pegou. Enquanto isso, os brasileiros se divertiram com as novas ferramentas, transformando por exemplo “Estilo Cachorro”, dos Racionais MCs, em um soul da dez de 1970, e “Bang”, de Anitta, em um R&B no estilo Aretha Franklin.
