Ricardo e galindo falam de linguística na flip 03/08/2025

Ricardo e Galindo falam de linguística na Flip – 03/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Vamos tirar o cabrão da fala. “As piadas de português ficam sempre num envolvente desconfortável”, diz o humorista e plumitivo Ricardo Pereira Araújo, que parece muito confortável em distensionar qualquer tensão no auditório da Flip, a Sarau Literária Internacional de Paraty.

“Vocês sabem o que fizeram, não é?”, devolveu à plateia o português em terras brasileiras, que dividiu a última mesa deste sábado (2) com o linguista Caetano W. Galindo. Nas tão populares piadas do português, afirmou Araújo, que é também colunista da Folha, o protagonista “tem um raciocínio que é fora do geral”.

Dá porquê exemplo “aquela cena célebre em que Jesus Cristo está perante a mulher adultera e diz que quem nunca errou que atire a primeira pedra”. O português vai lá, pega uma pedra e acerta a testa da mulher. “Jesus diz ‘nunca erraste?’, e o português: ‘A esta intervalo, nunca’.”

Em seguida assuntos tão emocionalmente densos porquê feminicídio e monstruosidade, que pautaram debates no dia com escritoras latino-americanas, o papo entre Araújo e Galindo devolveu a leveza e o riso para a Flip. A mediação da linguista Jana Viscardi, bem-humorada, reforçou o que já era um bom match entre convidados.

A mesa tinha porquê proposta “roçar a língua de Camões”, e por vezes parecia encoxá-la tamanho o entrosamento entre o trio. Até mesmo os pontos calvos dele e de Galindo eram os mesmos, reparou Araújo.

Uma diferença não passou despercebida. “Eu sou curitibano, onde o sotaque vai para morrer”, brincou Galindo na sua vez de falar, posteriormente lamentar que nem sequer tem porquê trunfo o “sotaque engraçado” do interlocutor europeu.

Professor universitário, Galindo escreveu “Latim em Pó: Um Passeio pela Formação do nosso Português” e “Na Ponta da Língua: Nosso Português da Cabeça aos Pés”.

“Ninguém está mais muito equipado para mourejar com o mundo das fake news do que a gente na linguística”, defende sua categoria. “Primeiro, porque a gente está afeito desde sempre a ter nossa domínio questionada. Cada companheiro nosso que é médico e diz ‘agora ninguém mais presta atenção, o Google vale tanto quanto eu’, eu digo, ‘bem-vindo’.”

Todo mundo acha que pode opinar na dimensão porque, finalmente, é tão falante da língua quanto quem a estudou por anos a fio.

“Etimologias falsas e fantasiosas”, segundo Galindo, circulam na internet e nos livros a todo momento. Tipo sustentar que a frase “nas coxas” remete a telhas moldadas nas coxas de escravizadas e escravizados, mito pop, mas inverídica.

Galindo disse que poderia dar 20 razões para desmentir esta e outras inverdades. “No entanto, a história falsa é mais crocantinha, ela é mais redondinha, ela é boa de recontar. E é esse o mecanismo de fake news. Eu crio uma narrativa que é mais curta, que é mais interessante, que é boa de reproduzir e que tem esse arzinho de ‘eis a verdade que eles não querem que você conheça’.”

Araújo, que lançou neste ano “Coisa que Não Edifica Nem Destrói”, também nome de um podcast seu, reparou em outro fenômeno dos nossos tempos: os tais influenciadores digitais.

“Acho que há um problema de filosofia da linguagem quando uma pessoa se apresenta porquê influencer”, afirmou. “Qual o primeiro passo necessário para influenciar uma pessoa? É não revelar que estamos a tentar influenciá-la.”

Galindo falou também sobre correntes que defendem diferenciar uma língua portuguesa e outra brasileira. Não detecta “vontade política” para tanto no Brasil, mas gostaria de ver mais valorização de intervenções de povos indígenas e africanos na língua falada no país.

“O que se desenvolveu cá foi uma variedade um da língua portuguesa”, que “para nós é simultaneamente donativo e pena”, disse. “Nós somos definidos, em um sentido muito profundo, porquê os malucos esquisitos da América do Sul que falam português.”

O jeito é usar esse arsenal linguístico para rir de quem nos oprime, afirmou Araújo. Lembrou da conduta do ex-presidente brasílico Jair Bolsonaro na pandemia, minimizando a sisudez da doença. “Recordei aquelas palavras dele sobre Covid, que era sobre ‘meu histórico de desportista’ que o tornaria menos vulnerável ao vírus, que não será mais do que uma gripezinha.”

Agora, disse, talvez esse histórico de desportista faça com que uma provável pena no Supremo Tribunal Federalista “não seja mais do que uma prisãozinha”.

Folha

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