Rio 461 anos: a história da cidade contada pela música

Rio 461 anos: a história da cidade contada pela música que dela nasceu

Brasil

Das notas de Gilberto Gil que abraçaram a cidade de belezas milénio, passando pela Pequena de Ipanema e a Estrela de Madureira, o Rio de Janeiro completa 461 anos neste domingo, cravada entre mares e montanhas.

E zero melhor do que recontar a história da cidade por meio da música. Finalmente, ela é princípio de muitos gêneros e de múltiplas raízes. Te convidamos a fazer um passeio no tempo e entender melhor a “Cidade Maravilhosa”, através das notas e movimentos musicais.

Cidade Maravilhosa

Fundada em 1º de março de 1565 pelo capitão português Estácio de Sá, e batizada uma vez que São Sebastião do Rio de Janeiro, a história da cidade começa muito antes da chegada dos lusitanos. 

O historiador Rafael Mattoso conta que o Rio possui heranças culturais dos povos originários, principalmente os tupinambás – que predominavam na região durante o início do período colonial.

“Taí os topônimos da cidade, que não mentem. A gente diz que quem nasce dela é karióka. Karióka vem de Carijós oka, ou seja, lar dos Carijós [indígenas]. Esse lugar que é sitiado pela Guaná-pará, pelo encontro das águas. Só que ela começa a ganha essa valimento, essa notoriedade de veste, a partir de 1501, das primeiras expedições, que vieram reconhecer o paraíso que existia no mundo atlântico”.

A partir das primeiras expedições é que um imaginário foi sendo construído.

“Os portugueses, na segunda expedição, em 1503, com Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio, ao chegar no Rio de Janeiro, eles já avistavam a formosura dessa rossio. Não à toa que o próprio Américo Vespúcio disse que, se existia um paraíso na terreno, esse paraíso estava cá, ou muito próximo dele. Portanto existe desde o primícias essa visão idílica do paraíso, dessa maravilha”.

Séculos mais tarde, o navegador e explorador Américo Vespúcio inspirou a geração de um outro nome para a cidade: Cidade Maravilhosa.

A clássica marchinha de Carnaval composta por André Rebento em 1934 se apropria do termo “Cidade Maravilhosa”, até logo sem autoria definida. A música rapidamente se tornou um grande sucesso. Tanto que, em 1960, foi instituída uma vez que hino solene do Rio.

Roupa é que as músicas ajudaram na consolidação desse termo que posteriormente serviria de cartão postal da cidade mundo afora.

Samba e bossa novidade

E o Rio seguiu fazendo história através da música e levou para além de suas fronteiras o ritmo que virou uma marca carioca: a bossa novidade.

 


Estátua em homenagem ao cantor e compositor Tom Jobim na orla da Praia de Ipanema
Estátua em homenagem ao cantor e compositor Tom Jobim na orla da Praia de Ipanema

Estátua em homenagem ao cantor e compositor Tom Jobim na orla da Praia de Ipanema – Tomaz Silva/Filial Brasil

Das melodias de Tom Jobim aos poemas cantados de Vinicius de Moraes, a bossa novidade foi um dos estilos que consolidaram a imagem de um Rio praiano, boêmio e romântico, enquadrado na teoria de formosura.

Rafael Mattoso explica que, uma vez que capital do Brasil ao longo de quase 200 anos, o Rio virou palco de uma efervescência cultural que abriu brecha para que outros setores da sociedade expusessem as contradições da visão romantizada. O Rio era mais do que só a zona sul.

“Em função dessa valimento, a própria história músico já registra, ao longo de toda a sua existência, o protagonismo carioca. Desde as primeiras gravações musicais, até por volta de 1904, por exemplo, o primeiro grande registro da história do samba. Foi em novembro de 1916, numa sarau da Penha, que o Donga apresentou pela primeira vez a música Pelo Telefone. Ela já trazia a teoria de que o Rio de Janeiro era essa cidade de contradições”.

 


Manuscrito de Pelo Telephone, de Donga, integra o acervo da Biblioteca Nacional.
Manuscrito de Pelo Telephone, de Donga, integra o acervo da Biblioteca Nacional.

Manuscrito de Pelo Telephone, de Donga, integra o ror da Livraria Pátrio. – Montão da Livraria Pátrio.

A partir de logo, temos uma disputa para saber qual gênero retrata verdadeiramente a tal “Cidade Maravilhosa”.

Princípio de um patrimônio cultural brasílio, o Rio tomou para si a autoria do samba. Surgido a partir da influência de diversos povos, principalmente os africanos escravizados, o gênero se manteve uma vez que ato de resistência ao pretérito escravocrata.

Versos do compositor Luiz Carlos da Vila, “Verso guardiã da mais subida bandeira” coloca o samba num patamar saliente e traz à cena o cotidiano do subúrbio – verdadeiro coração da cidade – e expõe a luta desse gênero por espaço na cena da cultura carioca.

Surge o funk

Não demorou muito para que o estilo também influenciasse outros gêneros que retratam a vida de boa secção da população, principalmente o funk.

Entoado por Cidinho e Doca, o clássico “Eu só quero é ser feliz” se transformou em grito de denúncia das desigualdades sociais, ao falar da negligência estatal perante os povos das favelas e periferias. E virou a rostro do Rio.

 


Rio de Janeiro (RJ), 29/09/2023 - Exposição “FUNK: Um grito de ousadia e liberdade”, no Museu de Arte do Rio (MAR), região portuária da cidade. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 29/09/2023 - Exposição “FUNK: Um grito de ousadia e liberdade”, no Museu de Arte do Rio (MAR), região portuária da cidade. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

Rio de Janeiro (RJ), 29/09/2023 – Exposição “FUNK: Um grito de ousadia e liberdade”, no Museu de Arte do Rio (MAR), região portuária da cidade. – Tânia Rêgo/Filial Brasil

O ponto principal é que essas múltiplas visões e encontros culturais na mesma cidade são justamente o que a tornam “Maravilhosa”. E, segundo Rafael Mattoso, criam a noção de identidade carioca.

“A rostro do Rio de Janeiro pode ser muito muito representada por essa nossa musicalidade. O Rio de Janeiro foi o inventário da inventividade do povo brasílio. Cá se concentrou um caldeirão cultural de culturas diaspóricas muito fortes. Que é fruto dessa inventividade, de uma cultura de resistência usada para lutar contra mecanismos formais. O Rio de Janeiro é a cidade que deu origem a uma série de patrimônios musicais fundamentais”.

Exemplo dessa mistura, a música Rio 40º, da cantora Fernanda Abreu, fala das diferentes facetas da cidade – que une o melhor e o pior do Brasil em um purgatório da formosura e do caos: “capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil”.

Todas essas faces transformam o 1º de março em oportunidade para lembrar as diferenças e semelhanças que nos fazem pertencer a um sítio.

Independente da origem, seja do cume dos morros, subúrbio ou no asfalto, cariocas se banham nas lindas praias de Iemanjá e se unem sob os braços abertos do Cristo Redentor para fazer uma só prece com a esperança de um horizonte melhor para todos.

 

*Sob supervisão de Vitória Elizabeth


Fonte EBC

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *