Rivane neuenschwander usa o lúdico para lidar com o mundo

Rivane Neuenschwander usa o lúdico para lidar com o mundo – 22/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Donald Trump é um polvo laranja de crochê que estrangula, com seus tentáculos, a Estátua da Liberdade e a Moradia Branca, símbolos da democracia americana. Perto dele, um estrangeiro chamado “O Tecnocrata” tem acoplado a seu corpo um foguete e o coche do filme “De Volta para o Horizonte” —o extraterrestre não tem nome, mas a referência é o bilionário da tecnologia Elon Musk.

Os bonecos que debocham de líderes globais, criados a partir de memes e charges da internet, são segmento de uma novidade série da artista Rivane Neuenschwander, um dos principais nomes no cenário das artes do Brasil que é tema de uma exposição em edital até 2 de novembro, no Itaú Cultural, em São Paulo.

Nesta e em outras obras da mostra, um quadro dos tapume de 30 anos de curso da artista, Neuenschwander faz uma crônica social e política do Brasil e de fatos do mundo pelo viés lúdrico.

“A moço usa da reinação para a elaboração e solução de seus conflitos e, se você reparar muito, um tanto em relação a isso tem se perdido brutalmente nos dias de hoje”, diz a artista, lembrando que o pintor Paul Klee desenvolveu personagens para explicar para seu fruto Felix os acontecimentos políticos de sua estação, as primeiras décadas do século 20.

“Porquê explicar para meus filhos a tragédia e o grotesco de um governo de extrema direita que vivemos recentemente, e, diga-se de passagem, continua à espreita?”

Chamada “Brasil de Susto e Sonho”, a mostra se estende por três andares do Itaú Cultural e reúne tanto trabalhos mais conhecidos da artista, porquê a série de serigrafias sobre madeira “Detrás da Porta”, de 2007, em que, porquê uma antena para os devaneios secretos da sociedade, ela registrou desenhos e rabiscos escritos em portas de banheiros públicos, quanto uma novidade leva de obras inéditas, criadas para a exposição.

Destas, uma das principais é um vídeo deste ano, feito em parceria com Cao Hamburguer, sobre um grupo de pessoas que se vestem de animais e passeiam por comunidades ribeirinhas na cidade de Cametá, no Pará, toda terça-feira de Carnaval. As cenas dos bichos enfileirados, um detrás do outro, chegando de paquete aos locais, não ficaria deslocada de um filme de Federico Fellini.

Fabiana Moraes, a curadora e organizadora da exposição, propõe entender a produção da artista mineira pelas chaves da imaginação infantil, o sonho do título da mostra, e da surpresa, um tanto que nos pega desavisados e sem preparo.

“O susto é —você está num domingo de verão e tentam um golpe em seu país. Estava todo mundo de boa, ufa, a gente não virou uma ditadura militar”, diz Moraes, em referência aos ataques de 8 janeiro de 2023 levados a cabo por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os trabalhos de Neuenschwander, argumenta ela, reverberam no Brasil de agora.

É um Brasil de sangue, porquê atesta a série de pinturas inéditas “Notícia de Jornal (…)” —com título de uma música de Chico Buarque—, em que a artista retrata ambientes domésticos esvaziados de figuras humanas, mas com manchas de sangue na parede ou na leito. Porquê algumas telas têm nomes de mulher, isso é uma menção ao cocuruto índice de feminicídios do país.

Segundo a artista, os quadros de “Notícia de Jornal” foram inspirados em pinturas de ex-votos, em que as figuras religiosas aparecem em ambientes domésticos onde houve alguma tragédia, numa elaboração que traz inferior do imagem um texto de congratulação por um milagre.

Porém, ela remove os santos e coloca em seus lugares clarões brancos que flutuam e viram testemunhas de um violação, além de tirar da elaboração o texto de congratulação. “Agradece-se ao santo por um ‘milagre’ que deveria ser unicamente uma obrigação mínima do nosso estado, porquê ensino e saúde, por exemplo”, diz.

O Brasil de Neuenschwander não está em silêncio. Numa novidade versão da obra “Repente”, a artista colheu palavras e desenhos de protestos nas ruas e os transferiu para pequenas etiquetas, que podem ser rearranjadas pelos visitantes num grande mural dentro do museu —ou presas na roupa com um alfinete e levadas embora, de volta para o espaço público.

“Ao perfurar um trabalho para a mediação alheia, ele fica muito próximo à vida. Há uma notícia direta entre o trabalho e o público, que se vê agente de uma obra, capaz de mudar o fluxo da mesma, ao mesmo tempo em que se vê segmento de um coletivo. Isso evidencia para mim uma questão política muito possante, uma vez em que vivemos em uma sociedade altamente individualizada, onde o outro é visto porquê um problema, um entrave ou até mesmo uma ameaço”, afirma a artista.

Neuenschwander acrescenta que se sente jubiloso ao ver as suas obras em situações imprevisíveis, porquê quando as palavras dos protestos são pregadas em um casaco e voltam às ruas, por exemplo. “Isso ainda é o trabalho acontecendo, e talvez seja o seu paisagem mais importante.”

Com idade próxima aos 60 anos e obras presentes em coleções importantes porquê a da Tate Modern, em Londres, a do Museu de Arte Moderna de Novidade York e o pilha do Instituto Inhotim, em Minas Gerais, a artista é um nome fundamental quando se pensa em arte de temperatura política.

Diante de governos autoritários, ela argumenta, o papel da arte é “ser —verdadeiramente— um espaço de liberdade e experimentação”.

Folha

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