Robôs que namoram e matam: como cinema previu este século?

Robôs que namoram e matam: como cinema previu este século? – 31/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Futurologia é um manobra sobre o qual a arte se debruça com frequência e, no cinema, os primeiros anos do século 21 foram cenário fértil para previsões. A viradela do milênio e as mudanças tecnológicas aceleradas inspiraram cineastas e roteiristas a pensar uma vez que estaria a sociedade hoje.

Com o fecho deste primeiro quarto de século 21, outro manobra interessante é observar onde a arte acertou e onde errou, deixando suas invenções para o campo da ficção científica. E se o grande tema de 2025 foi a lucidez sintético, nos filmes ela já é personagem há muito tempo.

Talvez o retrato mais óbvio dessa tecnologia nas telonas tenha sido feito por Steven Spielberg na viradela do milênio, com “A.I.: Perceptibilidade Sintético”. Ao continuar o trabalho de Stanley Kubrick, que morreu antes de realizar o filme, o cineasta pensa uma sociedade acostumada com robôs domésticos e já maltratada pela crise do clima.

É uma perpetuidade lógica dos anos 1990, quando o roteiro foi concebido, mas que não se concretizou. Por mais que a tecnologia esteja presente em vários cantos do lar e que o aumento do nível dos oceanos seja um problema, ainda não convivemos com robôs que se passam por humanos ou cidades que desapareceram nos mares.

Outro clássico da ficção científica, concebido novamente por Kubrick, “2001: Uma Odisseia no Espaço” também achou que as máquinas estariam mais avançadas no início do século. Um dos grandes vilões da história do cinema, Hal 9000 é inteligente e persuasivo. Sua autonomia, porém, vai muito além da veras, e o transforma em homicida. Por sorte, ChatGPT e companhia não adquiriram essa habilidade.

Mais preciso foi Spike Jonze em “Ela”. No longa, ambientado em 2025, Joaquin Phoenix se apaixona por uma lucidez sintético que toma a voz de Scarlett Johansson. No mundo real, já vemos relacionamentos entre máquinas e humanos acontecendo –e trazendo preocupações.

Em dezembro, uma japonesa fez uma sarau de himeneu para trocar alianças com um chatbot e ganhou a internet. De vestido de prometida e óculos de veras virtual, ela subiu ao altar, mesmo que aquilo não tivesse validade permitido, para ilustrar o que algumas pesquisas já indicam –vínculos afetivos e íntimos com inteligências artificiais estão cada vez mais frequentes.

Menos mirabolante em suas previsões, mas ainda assim falho na futurologia, “De Volta para o Horizonte: Secção 2” talvez seja o filme mais divulgado por entreter com o amanhã. Lançado em 1989, o longa de Robert Zemeckis é, em boa segmento, ambientado em 2015, ano em que supostamente estaríamos convivendo com carros e skates voadores, roupas autoajustáveis e refeições completas que cabem na palma da mão.

Em seu otimismo tecnológico, porém, o filme fez alguns acertos. Previu corretamente, por exemplo, que viveríamos cercados por telas e que, na sala de moradia, televisores planos e gigantescos fariam muito mais do que as TVs de tubo de antigamente. Os óculos de veras virtual também se concretizaram, muito uma vez que a tendência de explorar franquias de filmes infinitamente –numa das cenas, Marty McFly vê “Tubarão 19” em exibição no cinema.

Mais do que isso, “De Volta para o Horizonte” acertou que viveríamos em tempos de política-espetáculo. Com o vilão Biff Tannen, o filme imaginou uma veras em que a política é dominada por figuras midiáticas e populistas, numa leitura quase profética dos tempos de Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Quem exagerou nas previsões políticas foram o nipónico Kinji Fukasaku e o americano James DeMonaco. Em “Guerra Real” e “Uma Noite de Delito”, respectivamente, os cineastas imaginam governos tomando medidas drásticas para solucionar problemas de comportamento e criminalidade.

No primeiro caso, o Japão da viradela do milênio está em crise, diante de taxas de desemprego crescentes e de uma juventude que desrespeita os mais velhos. Para tentar mitigar o problema, o governo adota uma lei que determina que, todos os anos, os alunos de uma sala de lição do país devem se enfrentar numa redondel, matando uns aos outros.

O segundo filme também toma o colapso social, dessa vez nos Estados Unidos, uma vez que justificativa para a adoção de uma lei também brutal. Nela, uma vez ao ano, todos os crimes estão liberados no território americano. No chamado “expurgo anual”, homicídios cruéis são praticados sem interferência da polícia –na prática, quem morre são os mais pobres, incapazes de se trancar em casarões com belos aparatos de segurança.

Hiperbólicas, as realidades de “Guerra Real” e “Uma Noite de Delito” não se concretizaram, mas ao menos anteciparam dois temas pulsantes em anos recentes –os conflitos geracionais e as políticas de segurança que prejudicam populações vulneráveis.

Também é violento o porvir projetado por Alfonso Cuarón em “Filhos da Esperança”. O filme começa em 2027, mas o colapso da sociedade apresentada na trama acontece muito antes. Nos minutos iniciais do longa, sabemos que a última pessoa a nascer na Terreno agora tem 18 anos e boa segmento do mundo está sob lei marcial. Zero disso se concretizou, mesmo que as taxas de natalidade estejam desacelerando em vários países.

Folha

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