“Verme” andou para que “O Agente Secreto” pudesse percorrer. Só que antes, “Cidade de Deus” engatinhou, mas levou um trambolhão.
O produtor Rodrigo Teixeira, do premiado “Ainda Estou Cá”, traça uma risca do tempo na qual sustenta que a vitória do longa do sul-coreano de Bong Joon-ho abriu as portas para que o cinema internacional pudesse lucrar mais espaço no Oscar.
“‘Verme’ é um presente para o cinema internacional”, diz Teixeira à reportagem, na Mostra de Cinema de Tiradentes. “Quando o Bong Joon-ho ganhou o Oscar de melhor filme pelo ‘Verme’ [em 2020], todos os votantes internacionais se uniram para votar nele. Porque aquilo ia ser bom para todos nós. Ele foi a orifício do mercado internacional entrar entre os dez [indicados a melhor filme]”, afirma.
Para Teixeira, porém, “Cidade de Deus” era para ter sido o pioneiro nessa orifício de portas, mas bateu na trave. “‘Cidade de Deus’ foi prejudicado por uma incompetência da distribuidora internacional [Miramax]”, afirma. “Se tivesse sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o que não foi, por um erro da distribuidora, teria vencido.”
O que se conta é que o trabalho de Fernando Meirelles ficou de fora da categoria de melhor filme internacional em 2003 por uma questão de cronograma. Lançado em 2002 no Brasil, o longa só estreou na Europa e nos Estados Unidos no início de 2003, e não teve tração para atrair votos suficientes a tempo das indicações, em fevereiro daquele ano.
Na estação, era a Escritório Pátrio do Cinema, a Ancine, quem decidia o representante do Brasil a ser enviado à Ateneu. A percentagem escolheu “Cidade de Deus” para tentar uma vaga na cerimônia do Oscar daquele ano, que premiou as produções do ano anterior. Na ocasião, porém, o filme foi recusado pela Ateneu, segundo a jornalista Maria do Rosário Caetano, que participou da escolha.
No ano seguinte, com uma mudança de atitude da Miramax, de Harvey Weinstein, enfim, “Cidade de Deus” conseguiu indicações a melhor direção, melhor roteiro ajustado, melhor edição e melhor retrato, sem levar nenhuma estatueta. O escolhido da Ancine para tentar uma vaga na ocasião foi “Carandiru”, mas não conseguiu a nomeação.
Durante um tela em Tiradentes, na terça, Teixeira afirmou que, em seguida o sucesso de “Ainda Estou Cá” e “O Agente Secreto”, não vê grandes chances de um filme brasiliano ser indicado ao Oscar de novo tão cedo.
Independentemente disso, o bom ciclo nas premiações internacionais, na sua visão, traz bons frutos para a indústria. “Ser indicado dois anos seguidos a melhor filme —não filme internacional— é sinal de empoderamento. E isso acho que a gente não perde. Se vai ter perenidade, aí é outra coisa”, afirma. “Agora, o brasiliano tem orgulho do seu cinema, não dá para falar mal dele.”
“Uma vez que é que a gente faz para que isso não seja um ato solitário?”, questiona o produtor. “Que esse empoderamento faça com que as políticas públicas melhorem, que talentos tenham mais chance, que a formação de jovens aconteça, que outros cineastas também possam ser reconhecidos”, diz.
“O que você vê hoje, estatisticamente, são cineastas já consagrados, com uma trajetória de 20, 30 anos, recebendo essas indicações e premiações. Mas quando você vê o Adolpho Veloso [fotógrafo brasileiro indicado ao Oscar por “Sonhos de Trem], que é jovem, há uma reciclagem numa categoria técnica”, diz. “Projeto de cinema é que nem futebol, você tem que saber armar o time.”
Mesmo assim, considerando que os caminhos de produção costumam ser demorados, ele pondera que pode ter um hiato pela frente. “No meu radar, não estou vendo um filme ainda com a potência de ‘O Agente Secreto’ e do ‘Ainda Estou Cá’.”
Isso porque um processo de uma campanha é longo, e não vasqueiro passa por outros festivais internacionais antes de chegar a eventos uma vez que o Oscar e o Orbe de Ouro. Se já houvesse qualquer título com grande potencial para o ano, é provável que já se soubesse de qualquer burburinho em torno dele. Foi assim, diz Teixeira, com “O Agente Secreto”, atualmente indicado a quatro categorias pela Ateneu.
“Eu estava na campanha do Oscar do ‘Ainda Estou Cá’ em outubro de 2024. A gente já sabia que ‘O Agente Secreto’ [na época, ainda inédito] era bom. Existia um boato de que o roteiro era maravilhoso. Todo mundo que leu o roteiro falava que era refulgente. E ao saber que o Kleber [Mendonça Filho] era o diretor e que o Wagner Moura era o ator principal, as suas expectativas sobem.”
Teixeira lembra ainda da repercussão de “O Agente Secreto” logo quando estreou, em maio do ano pretérito, no Festival de Cannes, de onde saiu com os prêmios de melhor diretor e melhor ator.
Ele lembra ter sido alertado, na ocasião, por Ryan Werner, que acabava de assumir o missão de presidente de cinema global na Neon, distribuidora responsável por lançar o filme nos Estados Unidos, e que chamou a atenção por ser a moradia dos últimos vencedores do Oscar, dentre eles “Verme” e “Anora”. E, segundo Teixeira, Werner já previra lá tanto os prêmios no evento francesismo com a indicação da Ateneu.
Agora, o produtor acredita que, a partir das indicações de “O Agente Secreto”, o número de brasileiros que votam no prêmio possa passar de 90 pessoas. Hoje, tem tapume de 80 e, há dez anos, quando Teixeira entrou para o clube, eram por volta de 15. A fração ainda pode parecer pequena em relação aos tapume de 10,9 milénio membros ao todo, mas já é uma evolução.
E, uma vez que reforça Teixeira, a pronunciação com votantes da América Latina foi fundamental para o Oscar de “Ainda Estou Cá”, o primeiro do Brasil. “O Oscar é um programa de TV”, diz o produtor. “Você precisa de audiência, e ela não está só nos Estados Unidos, está no mundo inteiro, e o Brasil tem uma das maiores. Esses caras querem audiência, logo, hoje o Oscar não é só americano, é patrimônio mundial.”
Os jornalistas viajaram a invitação da Universo Produção
