Rosalía: como é o novo disco lux, com louvor, pop

Rosalía: Como é o novo disco Lux, com louvor, pop e ópera – 03/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A sensação é de ter saído de um letrado. Durante uma hora, por cima do som pesado de uma orquestra, Rosalía versa sobre o divino, sobre a pequenez do ser humano e fala do assombro que é encarar a vida com paixão. Teatral e operística, entre gritos e sussurros, ela repete, sem hesitar, que se considera Deus.

Religião, libido e o encontro entre o terreno e o sagrado são temas que conduzem “Lux”, novo disco da cantora e compositora espanhola tratada uma vez que novidade Björk. Por isso, Rosalía convidou a islandesa, uma espécie de rabino, para trovar na tira que serviu para terebrar o gosto do público, “Berghain”, liberada na semana passada.

É, segundo críticos, um som caótico, excêntrico, pleno de elementos alheios ao pop plastificado de hoje. Na letra, Rosalía diz que o pavor, o paixão, a raiva e o sangue do amante são dela também. A música recorre ao nome de uma boate de música eletrônica de Berlim, que tem festas imparáveis, para fazer metáfora sobre liberdade e excesso. É gravada, muito uma vez que todo o álbum, com a celebrada Orquestra Sinfônica de Londres.

Desse caos nasce o “Lux”, que chega ao público na noite de quinta-feira (6). Nele, Rosalía canta em 13 línguas —entre inglês, latim, nipónico, ucraniano, mandarim, e, veja só, português. Faz isso na penúltima tira, “Memória”, com a fadista Carminho. “Será que tu me conheces? Ainda lembra de mim?”, questiona Rosalía, na nossa língua.

Seria difícil olvidar. Dona de um dos álbuns mais comentados dos últimos tempos, o “Motomami”, de 2022, Rosalía se tornou um dos nomes mais irresistíveis da música pop. Muito pela sua experimentação, presente naquele álbum, mas principalmente no anterior, o “El Mal Querer”, de 2018, em que mistura flamenco, música tradicional espanhola, à ousadia do trap e do hip-hop. O álbum fez seu nome viajar para fora da Espanha.

Com o novo disco, já consolidada na indústria, rica e enxurrada de acessos, Rosalía está desprendida de quaisquer amarras. Se antes já desprezava as cartilhas da música pop, agora ela transforma seus dizeres cantados em uma espécie de ritual.

Ao podcast Popcast, do jornal The New York Times, Rosalía diz que recusa rótulos não só porque os considera limitantes, mas porque as palavras, para ela, são tão poderosas quanto feitiços expelidos por Deus.

Nesse sentido, logo, escolheu terebrar o disco com uma tira que fala justamente sobre promanação, morte, e divino, sobre ir e voltar à terreno no termo. “Primeiro amar o mundo, e depois amar a Deus”, ela canta em “Sexo, Violencia y Llantas”.

Rosalía leu muitos escritos de mulheres, principalmente de freiras —ela se veste uma vez que uma na toga do álbum— para inventar o álbum, processo que tomou um ano inteiro. O debate sobre religiosidade que segue todo o projeto, ela diz, vem da sua puerícia católica, mas, mais que isso, de uma vontade de questionar o tradicionalismo da santidade.

Numa das histórias que leu para fazer o álbum, descobriu uma madre escritora que tinha relação com a prostituição. Se deparou ainda com uma santa, inspiração para a tira “De Madrugá”, que ficou conhecida por mandar homens para morrer.

Obcecada com tanta história inusitada, Rosalía decidiu que dali teria de trespassar um álbum. Ela não lançava músicas desde o ano pretérito, e vinha fazendo o projeto desde um ano e meio antes, em sigilo, e com calma, apesar da insistência dos fãs pelo seu retorno depois o acelero que sua curso viveu com o “Motomami”, cuja turnê passou duas vezes pelo Brasil.

Rosalía virou uma diva, ainda que não se apresente uma vez que uma. Formou uma base massiva de fãs da comunidade LGBTQIA+, e foi transformada em porta-voz de toda uma geração de artistas entediados com a mesmice da música pop americana —cenário em que ela, apesar de presente, ainda não tem peso de ícone.

O problema é que digerir o álbum não vai ser fácil. Questionada sobre a densidade do projeto, longo e às vezes esgotante, a espanhola diz saber que está pedindo demais da audiência. Mas não se importa. “Quando mais vivemos na era da dopamina, mais eu quero o caminho oposto”, afirmou ela no podcast.

Grande segmento da dificuldade foi ter de trabalhar com 13 línguas. Rosalía se deitava em uma leito, escrevia, apagava, reescrevia, e aí testava a sonoridade de novo, sempre com o Google Tradutor ao lado. Por várias vezes se viu diante de uma frase que não rimava com a seguinte, cantada em outra língua, e aí tinha de reformular.

Se aventurar por tantos dialetos tem a ver com um libido de Rosalía se internacionalizar, simples, uma vez que toda estrela da música, mas também com uma teoria de que o universo é todo seu —e que ele cabe ali, naquele álbum, de 15 faixas.

Há uma polêmica aí. Rosalía foi criticada por disputar –e vencer– categorias de música latina em premiações gigantes. No Grammy Latino, ela levou duas vezes a láurea máxima, de álbum do ano, batendo artistas de vestuário nascidos na América Latina, uma vez que o porto-riquenho Bad Bunny e o colombiano Sebastián Yatra.

Mas ela não se abala, e diz que, se o mundo é tão conectado, não deveria ter de colocar uma venda sobre os olhos e se esconder. Assim, decidiu versar até em arábico, por exemplo, numa das faixas mais impressionantes do álbum, “La Yugular”, a veia jugular em português, em que diz que não tem tempo de odiar Lúcifer porque está ocupada demais com o paixão. Pelo amante, ela canta, derrubaria até o Inferno.

É mais ou menos a mesma temática da música anterior, “Dios Es un Stalker”, em que compara Deus aos perseguidores obcecados. Rosalía, cá, canta que não gosta de fazer mediação divina, mas que vai terebrar uma exceção e se utilizar de quaisquer meios para invocar a atenção do rosto.

Ela usa o disco para mondar as poucas e boas que viveu com o cantor porto-riquenho Rauw Alejandro, com quem namorou por dois anos, entre 2021 e 2023.

Agora, em “Lux”, fala claramente sobre um término —em “La Perla”, por exemplo, compara um paixão finado a um sinistro mundial, um terrorista emocional, uma pérola que exige desvelo. “Bandeira vermelha ambulante/ ser projéctil perdida é sua especialidade.”

Tudo isso em tom de ópera. Música clássica tocava nos corredores do conservatório em que Rosalía estudou, na Escola Superior de Música da Catalunha, onde ela descobriu apreço pela coisa, e decidiu que agora, no seu quarto álbum, era hora de fazer um pouco com aquilo.

E, apesar de operísticas, com ajuda da orquestra, as músicas nunca deixam de flertar com a contemporaneidade do pop —mais ou menos o que ela fez no “Motomami”, mas agora cru, zero eletrônico.

Outra diferença que ela enxerga nos projetos é o ponto de vista oferecido a cada um. “Lux” é um disco permeado por feminilidade, distante do toque masculinista que ela havia posto, de propósito, no “Motomami”, que ressignifica símbolos comumente ligados ao universo dos homens, uma vez que as motos.

Muda também o tamanho que cada um deve ter ao vivo. Quando apresentou o “Motomami” no Lollapalooza de 2023, em São Paulo, Rosalía não trouxe filarmónica e cantou sobre um palco simples —embora tenha feito uma das apresentações mais elogiadas do festival, com uma união precisa entre dançarinos, e a performance das câmeras, que tornaram o show cinematográfico. Vê-lo de longe, só pelo telão, era tão impressionante quanto estar de rosto para a artista, na grade.

Para a turnê do “Lux”, porém, Rosalía só vê um caminho, e ele é maximalista, oferecido a relevância da orquestra para o resultado final. O ponto, Rosalía diz, é que o seu orçamento já estourou só com a produção do disco.

Mas esse é um problema para ela resolver depois. O que não será difícil, certamente, será Rosalía fabricar um verdadeiro letrado, com seus fiéis entoando —ou tentando— cada um dos seus versículos.

Folha

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