Roupa de escritório surge sensual em era da incertaza

Roupa de escritório surge sensual em era da incertaza – 16/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em seu desfile masculino na Semana de Voga de Paris em janeiro pretérito, a diretora criativa Rei Kawakubo, mente adiante da Comme des Garçons, apresentou a coleção Buraco Preto —na qual lançou um séquito de manipulações da alfaiataria em preto e branco.

Blazers cortados na profundeza do umbigo, peplum e torção de tecidos foram alguns dos elementos exibidos, em repto ao figurino de trabalho habitual. Os modelos usavam máscaras, alguma coisa entre Hannibal Lecter e jogador de hóquei, e calçavam sapatos de epiderme preto com a frase “vista sua liberdade” pintada.

Já na apresentação de Marc Jacobs na semana passada, antes do início solene da Semana de Voga de Novidade York, a alfaiataria surgiu clássica à primeira vista. Os tailleurs e casacos foram enxutos em confrontação à silhueta exagerada das coleções anteriores.

Mas logo notou-se que a risca das peças, no perímetro do corpo, era de roupa mais seca, não justa. Os cós das saias ganharam volume e intervalo da pele, uma vez que esculturas. Dava até para fazer de bolso e pôr as mãos dentro.

Anthony Vaccarello, no mais recente desfile masculino da Saint Laurent, vestiu os modelos com paletós justos sem camisa por plebeu, pijamas listrados e camisas transparentes. A alfaiataria surgiu sensual, ainda que com recursos tradicionais uma vez que a sobriedade na paleta, ombros marcados e risca de giz.

A roupa de escritório, cunhada pelo termo em inglês “office wear”, que durante a pandemia adotou uma faceta mais confortável —graças, em secção, ao home office—, ganha interpretações mais plurais na passarela.

Desta combinação surgiram outros termos que invadiram as redes sociais com o tempo, “office core” ou “corpcore”, o segundo em menção ao mundo corporativo. No fundo, ambos abrangem a sobriedade clássica do escritório. Agora, se a sisudez é torcida, ou seguida, vai do paladar de cada trabalhador.

“As experimentações são uma resposta a promessas sérias e caretas de sucesso, muitas vezes não cumpridas. É uma adaptação, mas que não perde um ideal de sofisticação”, afirma o stylist Marcio Banfi, que leciona no curso de tendência da faculdade Santa Marcelina. “Com a alfaiataria, sempre há o libido de parecer dispendioso. Na C&A, as peças do tipo são as mais custosas.”

Ora inovadora, ora conservadora, a alfaiataria é reinterpretada a vapor em coleções masculinas e femininas. A Dior de Jonathan Anderson, por exemplo, deu um toque militar napoleônico aos blazers, para eles e para elas. “O militarismo têm aparecido muito, mormente com o trench-coat, uma peça com tradição alfaiate feita para as trincheiras”, afirma o stylist.

Com frequência, as releituras seguem um outro referencial histórico, os anos 1980. A idade do surgimento, ou ao menos fortalecimento, do concepção de “power suit” —terno poderoso—, que imputaria destreza corporativa a quem o vestisse.

Tendo uma vez que tecido de fundo a subida da ensinamento neoliberal e o prelúdio da queda da União Soviética, que só ocorreu em 1991, o recorte temporal abarca, um pouco antes, o livro “Dress for Success”. A obra de John T. Molloy, lançada em 1975, disserta sobre o efeito de blazers e gravatas nos negócios.

O fomento à performance laboral, com escora de uma roupa poderosa, continua —com devidas adaptações. Antes, transmitia seriedade e profissionalismo. Hoje, ainda carrega esses ideais, além de conforto, personalização e ironia.

“Vista sua liberdade”, disse Rei Kawakubo em janeiro. Uma vez que a tendência historicamente mostra, o que é usado em um tempo é sintomático das modulações sociais. Os contextos, tanto agora quanto naquela dez, são de incerteza para as grandes economias ocidentais.

Nos anos 1980, os Estados Unidos tiveram aumento do desemprego e flutuações por, entre outros motivos, não acompanharem a competição internacional. Por sua vez, o Reino Unificado entrou em recessão em 1981. Hoje, Estados Unidos e Europa estão em guerra tarifária, com indícios de confrontos militares.

Já o Brasil, apesar de ter fechado 2025 com uma média de desemprego de 5,6%, a menor taxa da série histórica, encontra pouco otimismo entre a força de trabalho jovem.

De 2015 a 2025, o serviço sem carteira assinada cresceu quase quatro vezes mais do que o formal. Aliás, de cada dez formados nas universidades, somente um consegue vaga com carteira assinada conciliável ao nível de formação.

As passarelas e a tendência de rua reagem com risada e reinvenção. Há também alegorias clássicas dos anos 1980, possivelmente um esforço para manter sob controle o que é incerto, assim uma vez que naquela idade.

“Fala-se muito de alfaiataria, mas o terno completo, com gravata, é pouquíssimo usado mesmo no meio corporativo. O código de vestimenta se flexibilizou, principalmente depois da pandemia, com mais elementos esportivos”, diz Banfi, o stylist.

“Era rígida a teoria de subir socialmente e usar um paletó estruturado, que dá força e faz lembrar um militar ou policial. Hoje, esta peça não deixou de ser uma farda, só está mais ligada ao conforto e à sentença individual”, afirma o estilista Mateus Cardoso.

“Paladar de jogar com o clássico, pegar uma calça esportiva e fazer um incisão de alfaiataria. Ela ganha prega e passante para cinto, mas é usada com tênis e regata”, diz ele. Para Cardoso, o comprimento tradicional do punho pode ser estirado ou encurtado, assim uma vez que a risca do ombro pode ser realocada.

Quem faz coro à experimentação é o estilista João Maraschin. “Paladar de resguardar os códigos da construção da roupa, mas equacioná-los com uma sentença diferenciada.”

O estilista testa a alfaiataria tradicional com tecidos pouco usuais, entre outras formas. Levante é o caso de um jacquard —técnica de entrelaçamento de fios para fabricar um padrão— de algodão orgânico amarelado. “Dentro de um blazer posso usar materiais que criam diferentes volumes e estruturas. Isto é o que me interessa na alfaiataria, não substanciar o arquétipo de ‘força’ da mulher”, afirma.

Hoje, um terno não reflete necessariamente uma posição de sucesso. “Essa noção é muito elástica”, diz. “Talvez os jovens tenham um conflito na autoexpressão de sucesso e vão na contramão do controle da alfaiataria, cuja raiz está no molde e mensuração precisos do corpo”, acrescenta Maraschin, que cita o exemplo da subida adesão do oversized, folgado e desconstruído.

“Mudanças na passarela são mais rápidas do que as institucionais. Porém, considerando a velocidade contemporânea, percebo que elas se dão mais rápido com os jovens de agora do que antes.”

Folha

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