Samba e bossa nova estão nas raízes da salsa de

Samba e bossa nova estão nas raízes da salsa de Bad Bunny – 19/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Talvez Bad Bunny não saiba, mas a cultura brasileira tem uma valor basilar na sua formação uma vez que artista. Sem samba, bossa novidade e tudo o que o guarda-chuva da MPB abraça, grandes conjuntos porto-riquenhos não teriam marcado a história com sucessos uma vez que “Usted Abusó”, “Boranda” e “Mi Sueño” —versões em salsa dos clássicos nacionais “Você Abusou”, de Antonio Carlos e Jocafi , “Borandá”, de Edu Lobo, e “Disritmia”, de Martinho da Vila.

Grupo que dá os toques dos primeiros segundos do último álbum de Bad Bunny, “DtMF”, El Gran Combo é, por exemplo, proprietário de uma famosa reprise de “Quando Eu Me Invocar Saudade”, de Nelson Cavaquinho —chamada “Que Me lo Den en Vida” em espanhol. Essas e outras orquestras, uma vez que La Sonora Ponceña e Apollo Sound, fundaram a salsa pelas mãos de artistas uma vez que Papo Lucca e Luis Perico Ortiz, nomes que sempre acenaram ao Brasil em obras centrais do cancioneiro porto-riquenho.

Nome ilustre da ilhéu, Bad Bunny nasceu para a música pop uma vez que artista de trap a bordo do magnífico disco “X 100PRE” e fez a ponte com o reggaeton e o “dembow” pouco tempo depois em “YHLQMDLG”. Até logo um nome em subida da “movida latina” na música, seu culminância global só veio com “DtMF”, álbum vencedor do Grammy deste ano e cerne da atual turnê “Debí Tirar Más Fotos”, com shows no Allianz Parque, em São Paulo, nesta sexta-feira e no sábado.

O disco solidificou o que vinha uma vez que experiência em “Un Verano Sin Ti” —fazer música para rebolar e dançar, ou “perrear” e “bailar”, em espanhol. O salto estava em levar sua prosódia e postura rueira, típica do hip-hop, aos sopros e percussões salseiros. Deu evidente.

O sucesso não é resultado unicamente da origem compartilhada entre o artista e os gêneros —frutos das circulações culturais caribenhas e sua diáspora nos Estados Unidos. Há em ambos o mesmo ímpeto. Em figuras geniais uma vez que Tito Puente e Ismael Miranda, a salsa era o som da contracultura latina imigrante que, nos idos de 1970, construiu a capital do mundo —a Novidade York celebrada pelo próprio El Gran Combo.

É nesse molho que misturava gente de todo o continente em que os sons do Brasil penetraram. Há por um lado a atuação de músicos brasileiros junto a bandas e clubes operando sob a categoria “latino”, uma vez que é o caso de Eumir Deodato e João Donato —figuras do “latin jazz”. Há também a assombro de caribenhos pela produção do maior país da América do Sul, que sempre nutriu a salsa da mesma forma que, hoje, nutre essa grande estrela músico.

“A relação entre Brasil e Caribe existe desde tempos imemoriais porque os dois são segmento de um mesmo processo de formação étnica e cultural, com indústrias discográficas que se desenvolvem quase ao mesmo tempo”, diz José Arteaga, perito em música latina da Colección Gladys Palmera, um dos maiores acervos de discos de salsa e outros gêneros da região.

“De modo que, em alguns momentos, as músicas desses dois locais se relacionaram de forma mais ou menos estreita”, diz José Arteaga.

O perito menciona nomes uma vez que Tite Curet Alonso. Um dos maiores nomes da salsa, responsável por centenas de canções do gênero, o compositor fez algumas versões de músicas brasileiras em salsa para o selo Fania —a principal gravadora do gênero. Foi o caso de “Berimbau”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Outra figura de peso na conexão Brasil-Caribe-Novidade York é Papo Lucca. Maestro do conjunto La Sonora Ponceña, ele gravou alguns dos principais clássicos brasileiros ao estilo de salsa, tais uma vez que “Você Passa Eu Acho Perdão” —ou “Ahora Yo Me Rio”—, conhecida na tradução de Clara Nunes, e “Luz Negra”, famosa na voz de Nara Leão. “Ele admira a música brasileira mais próxima ao jazz e procura no Brasil sons que tenham um toque de suingue, de ‘bop’, e que possa adequar para sua orquestra”, diz Arteaga.

Em paralelo, cantores uma vez que Héctor Lavoe e Celia Cruz imortalizaram, na salsa, versões de “O que É, O que É?”, de Gonzaguinha. Já Willie Colón ampliou a marca do Brasil em versões de “Maracangalha” —que virou “Voso”— e “O Que Será”, símbolo do gênero.

Mais jovem, Rubén Blades teve em Chico Buarque uma grande manancial de inspiração para os tons líricos na salsa, a exemplo de “Pedro Navaja” —fita que o plumitivo colombiano Gabriel García Márquez apontou uma vez que “única coisa que gostaria de ter escrito”.

“Blades tinha uma filosofia muito bolivariana de união de toda a América Latina, e ele lança pontes ao Brasil”, diz Arteaga. “A ‘Ópera do Malandro’ serviu de referência a ele para edificar o personagem Pedro Navaja.”

Esse jogo de rearranjos é consequência de uma conversa de séculos entre Brasil e Caribe. No embalo de danças, discos, ondas de rádio e movimentos migratórios, a conversa sonora aproxima a América Latina. Sem que a língua seja um fator proibitório, gêneros fundamentais para edificar a salsa, tais uma vez que “seis”, “plena”, “explosivo” —formas nativas de Porto Rico e encontradas em Bad Bunny— e “son” —base das músicas cubanas—, acabam encontrando as melodias brasileiras

“Canções uma vez que ‘O que É que a Baiana Tem?’ traz a origem do ‘son’, e até os anos 1930 encontramos elementos em geral dos dois lados. Mas eles vão se distanciando a partir dos anos 1940, devido a uma procura de identidade vernáculo pela indústria cultural”, diz Julio Moracen Naranjo, professor da Universidade Federalista de São Paulo.

O processo é similar em toda a região do Caribe, que se estende para além das ilhas e atua no outro sentido em cidades uma vez que Belém, Recife e Salvador —onde a salsa se reflete em nomes uma vez que Carlinhos Brown e Letieres Leite. Para Naranjo, a conexão entre Brasil e salsa, gênero que vive um novo auge com Bad Bunny, é indiscutível. “É um diálogo inevitável”, diz. “A música brasileira é latina, e a música latina é brasileira, tudo se cruza.”

Folha

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