Há alguns anos houve comoção pátrio quando foram divulgados os cachês de alguns artistas sertanejos. Prefeituras minúsculas do interno pagavam somas exorbitantes para apresentações de poucas horas, num padrão de sarau e divulgação cultural muito questionável. De lá pra cá, quase zero mudou.
As festas de São João no Nordeste deste ano escancaram as aberrações. Segundo dados disponíveis no Portal da Transparência dos Festejos Juninos de 2025, do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), a Prefeitura de Ibimirim gastou R$ 1,2 milhão em shows no São João —o município no sertão do estado possui meros 25 milénio habitantes.
A prefeitura pagará por shows de Zezé Di Camargo (R$ 500 milénio), da margem Seu Libido (R$ 350 milénio), Thiago Brado (R$ 125 milénio), Nanara Bello (R$ 90 milénio), Geraldinho Lins (R$ 60 milénio) e Day Araujo (R$ 40 milénio).
Itapetim, também localizada no sertão pernambucano, tem uma população de 14.232 habitantes. A prefeitura gastará R$ 1,7 milhão em cachês para a margem Fulô de Mandacaru, Seu Libido, Brasas do Forró, Walkyria Santos, Forrozão Tropykália e Natanzinho Lima, em três dias de apresentações
O município de Vitória de Santo Antão, com 134 milénio habitantes, gastará R$ 2,69 milhões. Destes, R$ 985 milénio foram destinados a Luan Santana.
A campeã dos gastos extraordinários é Caruaru, município que proclama oferecer o maior São João do Nordeste. A cidade agrestina gastará mais de R$ 13 milhões. O cantor Wesley Safadão ganhará sozinho R$ 1,2 milhão.
No totalidade, as cidades pernambucanas gastaram mais de R$ 30 milhões em contratações musicais para a sarau. Isso sem recontar as estruturas de palco, luz e som. Elba Ramalho e Bruno e Marrone participaram da farra dos cachês. O problema é realmente o sertanejo ou o padrão de sarau?
É hora de pensarmos a sarau para além das acusações contra os artistas e gêneros os quais não gostamos. Enquanto perdurar a discussão de ocasião, dificilmente um tanto mudará.
A desculpa de sempre dos prefeitos é que os shows mobilizam as economias locais. Mesmo se isso for verdade, cabe refletir: a única função da cultura é gerar impostos e movimentar a economia sítio? Essa é uma visão tacanha de cultura, que a vê porquê mera alavanca do capital.
A cultura porquê ampliação das mentes, porquê forma de libertação humana, conhecimento ampliado e contato com outras realidades, tornam-se, assim, conceitos totalmente ignorados.
Outro argumento geral, mormente entre os políticos de esquerda, é que a cultura é um recta prescrito pela Constituição. É verdade. Mas isso não significa que a prefeitura deva ter porquê quase única missão cultural o pagamento de shows.
Pouco é feito pela cultura ao longo do ano em cidades porquê Caruaru, onde trabalho. É decepcionante ao viajante perceber que a capital do forró pouco tem do gênero durante o ano. A verba para cultura poderia ser destinada a museus, ações em escolas, exposições, e estímulos a produções locais.
Mas enquanto o Recinto do Forró em Caruaru está encurralado de investimentos durante leste São João, o Museu Memorial Luiz Gonzaga que lá funciona está fechado.
A depravação não acontece somente quando um político embolsa o numerário que supostamente deveria remunerar ao artista. Gerir mal o muito público também é uma forma de depravação. Realizar shows populistas para as massas é a forma mais corriqueiro de prometer votos nas próximas eleições, corrompendo a democracia. E o artista subserviente se vê em dívida com o prefeito populista.
Semana passada fui no show do Calcinha Preta no São João de Caruaru. Foi constrangedor ouvir inúmeras vezes os cantores da margem puxarem o saco do prefeito da cidade.
Essas festas gigantescas matam qualquer envolvimento autônomo da sociedade social. Ao invés de ser uma sarau pública, de veste de todos, o São João tornou-se a sarau do Estado, da prefeitura e do governante de plantão.
Em 2006, conseguimos proibir os “showmícios”, aquela famigerada associação entre artistas e políticos que tão mal fazia à democracia. Mas a farra continua, não mais nas eleições, mas durante os mandatos.
Será que não é chegada a hora de proibir shows de prefeitura? Ou quem sabe limitar a verba que pode ser utilizada por municípios para eventos musicais. Que o capital privado arque com os custos, já que lucra tanto.
E que as prefeituras invistam em cultura sítio de veste, e não em um artista que anualmente aparece cobrando milhares de reais de cachê.
Com R$ 30 milhões por ano, o que daria para fazer no campo da cultura em Pernambuco?
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