João Pimenta se deu um repto —gerar uma coleção mais ligeiro e arejada para fugir da sua costura habitual, mais sisuda, fechada. E ele atingiu o objetivo. Seu desfile nesta segunda-feira, que abriu a São Paulo Fashion Week com uma apresentação na Livraria Mário de Andrade, teve muito mais cor do que a tradicional cartela de neutros que costuma levar à passarela.
Teve também pernas, peitos e barriguinhas saradas à mostra, numa coleção propositadamente mais sensual, segundo o estilista. Blusas transparentes coladas no corpo, casacos fluidos sem revestimento, calças amplas de alfaiataria e shorts supra do joelho apareceram combinados com sandálias e chinelos de borracha, num estilo noite de verão classuda.
Pela fluidez do caimento e pelas amarrações nas peças, parecia possuir um toque nipónico na construção das roupas. Mas Pimenta, referência no vestuário masculino autoral, substituiu o preto dos estilistas nipônicos por brancos, laranjas, verdes e azuis.
“Me questionei o que seria uma alfaiataria brasileira, o que ela deveria ter. Não poderia ser uma roupa quente, é uma roupa pensada para uma pessoa que mora cá no Brasil”, diz o estilista, acrescentando que desta vez não havia uma historinha nem personagens para amarrar o desfile, e sim produtos. “Tenho feito um manobra de trazer a veras para as minhas criações —onde a pessoa vai com essa roupa.”
Gloria Coelho também parece ter em mente quem veste seus desenhos. O desfile de comemoração dos seus 50 anos de tendência trouxe looks com alguma ousadia —saias com buracos vazados que deixavam ver o corpo, longos vestidos de tule transparentes com aplicações de flores de tecido—, prontos para irem da arara para o corpo.
Coelho mostrou duas versões de seu trabalho —uma, mais ligeiro, de peças com estampas de flores, e outra, mais urbana, de sua tradicional alfaiataria de cortes geométricos e realização afiada. Destaque para uma jaqueta preta com a frente de epiderme e as mangas de gabardine de viscose.
Antes de o desfile debutar, havia tensão entre os convidados, porque Coelho fez de um trem em movimento a sua passarela. Isto impôs um repto às modelos, que precisaram se lastrar —inclusive em saltos—, vestindo modelitos sofisticados, longe dos básicos do dia a dia.
O trem da tendência partiu da estação Júlio Prestes, na região medial de São Paulo, com as modelos saindo de trás de cortinas instaladas num vagão transformado em camarim, ao som de Suzanne Vega cantando o clássico pop “Luka”. Elas atravessavam todos os vagões e voltavam, e os fashionistas, meio incrédulos, se perguntavam se aquela teoria maluca ia dar perceptível, se daria para ver as roupas, se alguma delas ia tropicar.
Não só ninguém caiu uma vez que as roupas ganharam um ar de vida real ao serem apresentadas num vagão metropolitano, embora estejam distantes da veras financeira de quem pega o trem para uma cidade da Grande São Paulo. “Nesta coleção quis comemorar o tempo, a transformação e o movimento. Chegar aos 50 anos não é somente pensar no que passou, mas continuar a perguntar o que vem depois”, afirma Coelho.
Se a criadora de tendência é uma rabi do minimalismo, capaz de pegar um pedaço de tecido liso e transformá-lo numa roupa com poucos cortes precisos, Ronaldo Penedo, que fechou o primeiro dia de São Paulo Fashion Week, talvez seja seu oposto. Diferentemente de Coelho, o mineiro é maximalista —suas peças estilo romaria religiosa explodem em cores, bordados, apliques, retalhos e elementos diversos.
Foi assim com seu desfile em homenagem a Milton Promanação —que apresentou no Museu da Língua Portuguesa—, constituído por peças bordadas por artesãs do projeto Moradia Bordada, de Barra Longa, no interno de Minas Gerais. Azuis, verdes, tons dourados e calças com paisagem de quem tinha trabalhado no barro das minas do estado deram as caras, acompanhadas por bolsas estilo fole ou maletas tipo caixeiro-viajante.
É uma estética sem paralelos na tendência brasileira, mas que às vezes, uma vez que no desfile desta segunda, fica com rostro de figurino. Quem vai usar uma bolsa em formato de gaita ou um sapato bojudo estilo Smurfs?
“Desenhei esta coleção uma vez que se eu pensasse um cortejo de procissão, uma vez que se eu desenhasse para anjos no cortejo. A coleção fala de um lugar muito fino entre a tristeza e a alegria”, conta o estilista, adicionando que a mistura de religiões também foi uma inspiração para a temporada. É também uma seleção de peças “sem amarras, sobre o sentimento de ser mineiro”.
Penedo entende o desfile uma vez que uma performance e constrói um universo. Nas paredes foram projetados os desenhos que ele fez para as roupas, segmento da trilha sonora era ao vivo e os modelos entraram todos juntos, uma vez que um tropa, para só depois desfilarem individualmente. Eles tinham luzes de neon acopladas à cabeça, o que lembra vagamente as montanhas de Minas Gerais —mas, sobretudo, gerava boas imagens.
