“Saravá” zero mais é que uma vocábulo de origem banto que denota uma saudação de acolhida e boas-vindas. Mas até as palavras podem ter trajetórias atribuladas, e esse é o caso desta.
Nos mais de século anos desde seu primeiro registro escrito do qual se tem notícia até hoje, a vocábulo foi claro de preconceitos e motejo, mas também de exaltação por alguns setores da sociedade que enxergam nela um ícone da cultura vernáculo.
Sua história no Brasil remonta a séculos ainda mais antigos. O termo chegou cá com os grupos de negros trazidos no primeiro ciclo de escravização, entre os séculos 17 e 18, de convénio com a investigador da religião, jornalista e escritora Claudia Alexandre, pesquisadora do Meio de Estudos de Religiosidades Contemporâneas e das Culturas Negras da Universidade de São Paulo (USP).
Esses escravizados eram designados uma vez que bantos, generalização aplicada a dezenas de grupos étnicos distintos da região onde hoje são Angola e Congo. Oriente grupo está na origem de expressões culturais uma vez que os batuques, sambas e capoeiras, aponta Claudia Alexandre.
“Saravá significaria inicialmente um cumprimento na língua quimbundo [parte da família linguística banto], uma saudação, ‘salve’, esclarece a pesquisadora, autora de livros uma vez que “Orixás no Terreiro Sagrado do Samba”.
A saudação acabou sendo perpetuada por práticas religiosas dos negros, uma vez que na umbanda e quimbanda.
Segundo a historiadora Lume Watanabe, pesquisadora na Universidade de São Paulo (USP) e mãe de santo no terreiro de umbanda Urubatão da Guia, “saravá” aparece escrita pela primeira vez em um tentativa jornalístico de 1923, escrito por Carlos Alberto Nóbrega da Cunha (1897-1974), um jornalista e professor de escola pública branco.
Ele era apreciador da cultura dos morros, entusiasta do samba —é considerado um dos precursores do carnaval carioca, inclusive.
O texto de Cunha tinha uma vez que título “Os Mistérios da Macumba”. “Ele menciona no final que ‘saravá’ era ‘o salve’, a maneira uma vez que ‘os pretos velhos’ saúdam na umbanda”, contextualiza a historiadora.
Fruto de um pedreiro com uma mãe de santo, preto e pobre, ele era um ícone daquilo que passaria a ser visto uma vez que cultura afro-brasileira —inclusive com o componente religioso.
Sua elaboração “Sai, Exu” fez com que a vocábulo saravá saísse dos terreiros de umbanda. Na música de Donga, os versos são estruturados uma vez que um esquina responsorial, de perguntas e respostas.
“Isso é próprio de uma estrutura músico centro-africana”, analisa a historiadora. “É banto. Nessa música, basicamente é uma pergunta falando ‘saravá, vamos saravá’, e a resposta vem do coro.”
Nos anos 1930, músicas conhecidas uma vez que do gênero macumba começam a se tornar populares, principalmente graças ao trabalho de J. B. de Roble (1901-1979).
O cantor e compositor levava representações dos pontos de umbanda a programas de rádio e gravações de discos. Outro nome de destaque foi o sambista Getúlio Pelágico (1889-1964).
“Eles gravavam encenações, uma vez que se uma pessoa estivesse incorporando um preto velho. O J.B. de Roble, por exemplo, cantava com a fala do preto velho, aquelas coisas guturais”, explica Watanabe.
Segundo a historiadora, o público tinha posturas ambíguas diante dessas apresentações.
“Ao mesmo tempo em que uma parcela da sociedade, das pessoas brancas e letradas, queria saber o que acontecia nas ‘religiões dos negros’, com curiosidade, existia também a repressão, uma postura pública de ‘vamos condená-los'”, avalia.
Nos anos 1960, o saravá chega de vez às salas de jantar da classe média por meio de uma dupla muito associada à bossa novidade.
O violonista e compositor brasílico Baden Powell (1937-2000), progénito de africanos, resolveu reprofundar no mundo do candomblé e nas sonoridades da capoeira.
Encontrou uma vez que parceiro perfeito para a empreitada o poeta e compositor Vinicius de Moraes (1913-1980).
Autodenominado “o branco mais preto do Brasil”, Moraes conhecia esses discos de macumba desde pelo menos 10 anos antes – e era fascinado por esse universo músico.
Em 1966, a dupla lançou o LP Os Afro-Sambas.
Uma das faixas mais famosas do disco, Quina De Ossanha, diz: “Colega sinhô saravá/Xangô me mandou lhe manifestar/Se é esquina de Ossanha não vá/Que muito vai se arrepender”.
Quina de Xangô também traz a saudação: “Xangô meu Senhor, saravá!”
A cultura afro-brasileira estava de vez arraigada no suprassumo da musicalidade produzida e consumida pela alta-costura do intelecto vernáculo.
O influenciador do dedo e empresário Jonathan Pires, idealizador do evento Marcha para Exu, em São Paulo (SP), lembra que várias músicas brasileiras passaram a comemorar o termo, uma vez que Saravá, Saravá!, de Martinho da Vila.
“Isso, irmão, ajudou a naturalizar a saudação no país inteiro”, comenta.
Mas o próprio Baden Powell rejeitaria a vocábulo – e suas músicas que a incluíssem – no término da vida.
Convertido uma vez que evangélico, o músico falou ao jornal Folha de S. Paulo em 1999 que só continuaria a trovar alguns de seus “afro-sambas”.
“Só alguns não posso gravar, né? O Samba da Bênção, por exemplo. Não digo mais saravá. Posso tocar o Samba da Bênção, mas não falo saravá, porque é um louvor a satanás”, afirmou Powell ao jornal.
Criminalização e caricatura
Furar a barreira em torno da cultura negra tinha, na primeira metade do século 20, um tropeço escrito: o código penal.
A legislação instituída logo posteriormente a Proclamação da República criminalizava as práticas de matriz africana em terreiros e festas populares, classificando-as uma vez que “espiritismo, magia e sortilégios” ou “curandeirismo”.
“Essa moldura lícito dialogava com visões de cientificismo e moralismos logo dominantes. E reverberou na prensa, criando estigma e pavor em torno do que era afro-brasileiro”, comenta Pires.
Claudia Alexandre lembra que, até 1976, era obrigatório registrar os terreiros na delegacia. Aliás, ela aponta para a existência de várias leis que atingiam “diretamente o preto” e da frequente perseguição de sambistas pela polícia.
Segundo a pesquisadora, contribuíam para essa perseguição a polícia, a Igreja Católica e a prensa.
Historiador do cristianismo, o pesquisador Lucas Gesta reconhece a participação do catolicismo na construção do preconceito contra as religiões de matriz africana.
“Assim, uma frase generalidade na umbanda [saravá], simplesmente pelo trajo de ser oriunda de lá, acaba sendo rejeitada, caricaturizada e ridicularizada. Repare isso em programas de comédia antigos na TV e outros meios de informação em volume”, acrescenta Gesta.
O pesquisador diz já ter presenciado várias ocasiões em que pessoas “brincam” com a vocábulo “saravá” uma vez que se ela propagasse uma maldição.
“O mesmo eu via em programas na TV brasileira de comédia, no qual os atores de forma caricaturizada, usavam o termo uma vez que uma quebra ou incisão de alguma ação má. Também já presenciei que, quando alguém dizia que iria ocorrer uma coisa ruim a alguém, a contraparte respondia ‘saravá’, mas não por crer ou seguir a religião, e sim unicamente para o facécia”, relata Gesta.
Resgate e celebração
Mas também é trajo que o saravá se tornou pop.
Jonathan Pires comenta a tendência.
“Nos últimos anos, o movimento preto, as casas de religião e os artistas vêm revalorizando o ‘saravá’ em rituais, em redes sociais, na tendência, na decoração e na cultura pop. Há uma pedagogia cotidiana contra a visão anterior”, diz o empresário.
Para ele, esse cenário é resultante de avanços jurídicos, uma vez que a lei de 1997 que criminaliza o preconceito religioso, e campanhas públicas uma vez que o Dia Vernáculo de Combate à Intolerância Religiosa, comemorado em 21 de janeiro.
Mas, para Watanabe, é preciso zelo com as novas modas.
“O mercado de consumo pega termos próprios das religiões afro-brasileiras e transforma tudo isso em resultado”, critica a historiadora.
“Há uma tendência de lucrar quantia em cima dessa novidade modalidade, a partir da valorização atual. ‘Saravá’ está presente em camisetas e em itens de decoração.”
Watanabe conta que, há alguns anos, quando teve problemas com sua família e enfrentou LGBTfobia, postou em suas redes sociais a frase “é de saravá que vivemos”.
“De lá para cá, vejo gente postando essa frase nas redes sociais. É curioso”, comenta a historiadora.
Em sua empresa de artigos religiosos, a Chetruá, Jonathan Pires tem copos, camisetas, placas decorativas e adesivos estampando a vocábulo.
Mas salvaguarda que faz tudo “com reverência à origem e ao sentido”, “junto a mensagens educativas e símbolos que afirmam a fé sem estereótipos”.
“Meu critério é simples: não é só estampa. É narrativa. Cada resultado vem contextualizado, com texto explicando o sentido e a saudação, para ajudar quem compra a entender que se trata de uma frase de reverência e boa pujança. Não é folclore vazio”, diz Pires.
Mas ele conta que não foram poucas as vezes em que lidou com preconceitos do outro lado do balcão – gente que lê “saravá” e assume uma vez que “coisa do mal’.
“A resposta é sempre educativa: explico a origem e o sentido e, muitas vezes, a pessoa muda de postura na hora”, conta.
Em outras ocasiões, observa clientes que se sentem acolhidos ao ver a vocábulo.
“Entram emocionados dizendo ‘é a minha fé sendo reconhecida'”, relata.
Para a historiadora Lume Watanabe, o Brasil lida mal com a legado africana porque “o contato com isso é o contato também com o traumatismo da escravidão”.
Mas os movimentos negros, principalmente a partir dos anos 1970, têm promovido um oração de autoafirmação que celebra o resgate de manifestações culturais uma vez que a própria vocábulo saravá.
Para Jonathan Pires, esse termo expõe um paradoxo.
“Somos uma pátria profundamente moldada por matrizes africanas, mas por muito tempo ensinada a temê-las”, reflete o influenciador.
“Quando uma saudação que significa ‘salve, vida, força’ vira xingamento, não é a vocábulo que está errada, mas é a leitura racista que se impôs. O resgate atual diz muito sobre um Brasil que deseja reconhecer sua origem, reparar injustiças simbólicas e falar de si com verdade. Recolocar ‘saravá’ no lugar de honra é, no fundo, recolocar pessoas negras e suas espiritualidades no meio da narrativa vernáculo.”
Oriente texto foi publicado originalmente cá.
