Sensibilidade gnóstica implica um drama moral 23/11/2025 Luiz

Sensibilidade gnóstica implica um drama moral – 23/11/2025 – Luiz Felipe Pondé

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A espiritualidade gnóstica é marcada, desde a Antiguidade, pela tese de que o mal está enraizado em alguma dimensão divina. O termo está ligado à heresia gnóstica cristã histórica, mas o adjetivo ganhou autonomia analítica. Toda sensibilidade gnóstica passa pela revelação —gnose— de que uma crise atravessa a geração e o instituidor, atribuindo-lhes um componente trágico.

Segundo o historiador David Flusser, no seu “Judaism of the Second Temple Period: Qumran and Apocalypticism, Vol. 1”, há elementos gnósticos nos escritos do mar Morto. Os qumranitas acreditavam numa predestinação divina para a existência dos filhos da luz e os filhos das trevas. Há um conflito ontológico e místico, causado pela própria nume. Elemento gnóstico.

O historiador da mística judaica Gershom Scholem, no seu “Kabbalah”, identificará elementos gnósticos no dualismo interno ao “Ein Sof” —o infinito divino anterior ao Deus propriamente instituidor. Concepção eminentemente cabalístico que desempenhará um papel importante na leitura que o “vate” Nathan de Gaza fará do personagem divulgado porquê Sabatai Tzvi, o falso messias do século 17.

Essa dualidade divina era vista por Nathan de Gaza porquê sendo a razão do que hoje poderia ser chamado de bipolaridade do falso messias: numa hora ele assumia esse papel, noutra o recusava sob crises depressivas. Quando Sabatai integrasse esses dois polos, a geração repousaria em silêncio.

Essa leitura do “Ein Sof” pressupunha dois polos internos à mesma nume, em que um era a luz criadora e o outro, as trevas, sendo nascente resistente às formas criadas pelo princípio da luz criadora, gerando uma inércia interna ao princípio divino, materializada nas agonias e imperfeições da geração. Elemento gnóstico.

A literatura especializada também debate a presença de elementos gnósticos no yazidismo. Meses detrás, passei por esse tema e um leitor apontou uma inconsistência na identificação sumária entre Melek Ta’us, o arcanjo derribado e redimido yazidi, e o mal.

O arcanjo representaria a potência tanto para o muito quanto para o mal, tanto para a luz porquê para as trevas, que habita o coração humano. A fácil assimilação do arcanjo a figuras demoníacas, nas críticas islâmicas e cristãs, seria fruto de interpretações que não fazem jus à dificuldade da mitologia vocal yazidi, que atravessa a história religiosa, política e social desse povo, vítima de massacres, o último deles nas mãos do Estado Islâmico.

Nas palavras do historiador e libertário Peter L. Wilson, no seu fascinante “Peacock Angel: The Esoteric Tradition of the Yezidis”, “de veste eles se afastam do islã e já no século 15 a seita era conhecida por venerar o criancinha pavão Melek Ta’us, uma figura frequentemente identificada com ‘o Diabo’ ou Satanás —daí a seita ser conhecida porquê ‘adoradores do Diabo’. Uma vez que veremos, entretanto, a real situação é muito mais complexa do que isso”. Se o arcanjo yazidi cai em desgraça, num oferecido momento, porquê o criancinha Lucífer, à diferença deste, ele se arrepende e volta a Deus —esse enredo sendo um projecto divino.

Mas, ao mesmo tempo, os yazidis creem que o mal é fruto do coração humano e não “culpa” do seu arcanjo, líder dos sete anjos que cuidam de uma geração abandonada por Deus, que perdeu o interesse na sua obra —esse desinteresse marca outro elemento gnóstico. Outro nome do arcanjo é Shaytan, indicado por Wilson porquê o nome oferecido ao Satanás no Alcorão. Outra pista provável para a denunciação falsa de que eles adorariam Satanás.

Outra referência importante sobre a religião yazidi, que a aproxima do gnosticismo, é a obra de 2010 da acadêmica húngara profissional em religião yazidi Eszter Spät, da Universidade Núcleo-Europeia, em Budapeste, “Late Antique Motifs in Yezidi Verbal Tradition”. Segundo a autora, é provável se pensar numa origem gnóstica para a religião yazidi.

No item “The Song of the Commoner: The Gnostic Call in the Yezidi Verbal Tradition”, ela diz, ao indicar as influências pré-islâmicas na tradição yazidi, que “tais influências pré-islâmicas incluem o gnosticismo e o maniqueísmo”. Sendo o maniqueísmo, por sua vez, uma forma de gnosticismo com potente influência do zoroastrismo pérsio que carrega na sua concepção cósmica um dualismo entre muito e mal no projecto divino.

Satanás e Melek Ta’us não são a mesma entidade. Mas as relações entre gnosticismo e yazidismo permanece porquê objeto consistente de debate entre especialistas. A geração abandonada por Deus e o drama moral do arcanjo marcam essa espiritualidade gnóstica.


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Folha

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