Ser independente é recusar o mito 'ordem e progresso'

Ser independente é recusar o mito ‘ordem e progresso’ – 28/08/2025 – Djamila Ribeiro

Celebridades Cultura

Em um cenário polarizado, no qual discussões fundamentais são reduzidas a disputas passionais comparáveis a torcidas de futebol, a teoria de independência segue um valor ético indispensável.

Não falo somente da independência política ou econômica —as quais, cada qual a seu modo, possuem imenso valor—, mas daquela que se desdobra no campo do pensamento: a autonomia para refletir sem subordinação a consensos fáceis, para agir sem a premência de aprovação alheia. A independência intelectual, essa exigência tão rara quanto preciosa, me remete aos versos de Sérgio Sampaio em “Sinceramente”, quando canta:

“Não há zero mais bonito do que ser independente. E poder se ocupar, transpor, chegar, assim, tão simplesmente. Não há zero mais tranquilo do que ser o que se sente. E poder amar, perder, chorar, depois lucrar, assim, tão livremente. Não há zero mais sozinho do que ser inteligente e poder trautear, errar, desafinar, assim, sinceramente”.

É bonito bancar o que se é, lucrar, perder, mas ser leal a si. Em “Minhas palavras estarão lá”, a poeta feminista negra Audre Lorde também trouxe uma importante reflexão sobre independência, quando escreveu linhas memoráveis, que me fortalecem sempre que as leio:

“Meus críticos sempre quiseram me ver sob uma determinada ótica. As pessoas fazem isso. É mais fácil mourejar com um poeta, certamente com uma poeta negra, quando você a categoriza, limitando-a tanto que ela consegue preencher suas expectativas”.

E Lorde continua: “mas eu sempre senti que não posso ser categorizada, e esse sentimento tem sido tanto minha fraqueza quanto minha força. Tem sido minha fraqueza porque minha independência me custou o suporte de algumas pessoas. Mas, veja você, também tem sido minha força porque me dá o poder para seguir em frente”.

“Eu não sei porquê eu teria sobrevivido às diferentes coisas às quais sobrevivi e continuado a produzir se eu não tivesse sentido que é tudo que eu sou que me satisfaz e satisfaz a visão que eu tenho do mundo”, finaliza a autora.

Já nas palavras de Milton Santos, o intelectual não poderia ser servo do pensamento alheio, criticava o que chamava de pensamento mimético: a simples repetição de teorias produzidas em outros contextos, sem sátira ou adaptação. A independência seria fundamental para alguém poder ser chamado de intelectual.

A independência tem um preço tá, requer coragem para enfrentar boicotes, ataques, tentativas de deslegitimação. Em sociedades marcadas pela normalização da desigualdade de voz entre grupos sociais e pela manipulação da opinião pública, pensar de forma independente é recusar o conforto da mediocridade e a anestesia dos consensos. Por isso ela é irritante e vigiada. Ser independente é recusar a domesticação da imaginação sátira.

A independência, levada ao limite, é frase de liberdade: não pede licença às estruturas, não reconhece porquê naturais as hierarquias impostas nem se curva à chantagem do poder. Ser independente é declarar que nenhuma instituição é sagrada e que nenhuma mando é inquestionável. É recusar o teatro das obediências cotidianas —o voto cativo, o oba-oba, as patotas, a sátira fácil— para reivindicar a honra de viver sem correntes.

É recusar o mito da ordem e progresso a término de revelar que, não raras vezes, o que se labareda de ordem zero mais é do que a coreografia calculada da desigualdade. É sustentar o pensamento crítico contra sua morte anunciada, exercendo-o com maturidade e saudação, mas sem abjurar da própria fé. Pois independência não é desvario nem molecagem: é a mais exigente forma de responsabilidade.

Para mulheres negras em uma sociedade numulário, racista e patriarcal, ser independente é um jogo de capoeira, um encontro entre a dança e a luta. Partindo de lugares vulneráveis economicamente, é preciso ginga para seguir, saber a hora de desviar do golpe, a hora de golpear, entender que o silêncio, muitas vezes, não é consenso, mas estratégia de sobrevivência. É uma dança que exige solitude, mas que projeta solidariedade, porque ao se libertar das amarras do pensamento hegemônico abre-se também espaço para que outros respirem.

Outro dia, assistia ao filme indiano “A voz do empoderamento”. Em uma das cenas, um personagem tenta subornar o varão sabido porquê o mandachuva da dimensão. Nascente se ofende com a tentativa de suborno, questionando “você quer subornar um pássaro livre com uma mera gaiola?”.

Parafraseando, se pudesse sintetizar o significado da independência, diria: não se pode impressionar um pássaro livre com uma gaiola. Seu rumo é o voo.


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Folha

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