Marco Bellocchio tem 86 anos, mas sua paixão profissional parece a mesma da juventude. No dia em que apresentou “Portobello”, sua novidade série de TV, no Festival de Veneza, em setembro de 2025, começou a dar entrevistas muito cedo pela manhã. Já passavam das 17h quando falou à Folha, em seu último compromisso midiático. Mas ainda que seu semblante mostrasse exaustão, falava com paciência e tinha os olhos brilhando quando comentava seu novo projeto.
“Portobello” tem seis episódios e estreou no Brasil na última sexta (20), no HBO Max. Mas o diretor, um dos grandes nomes do cinema mundial, contraria os puristas que acham que produtos para TV e para a tela grande são 100% distintos.
“A diferença é exclusivamente a duração. O meu olhar não se altera entre fazer alguma coisa para a TV ou para o cinema”, diz Bellocchio. “Evidente, a TV, por reduzir o ritmo, me proporciona uma relação mais eficiente com os personagens, mais primordial, mais sintética. No cinema, priorizo um escopo mais vasto, e na TV, foco mais nos personagens. Foi preciso fazer uma estruturação, uma convergência progressiva entre tantos personagens e ambientes.”
A série revisita um escândalo ocorrido na Itália da dez de 1980, quando Enzo Tortora, apresentador de uma atração muito popular na TV, foi parar na prisão por uma série de desatenções e equívocos por segmento do sistema judicial. Era uma espécie de Silvio Santos italiano, que apresentava um programa de variedades tendo um papagaio porquê interlocutor, muito antes de Louro José sequer ter sido imaginado —no caso, a ave era verdadeira, e não um fantoche.
Notório dia, Giovanni Pandico, um presidiário dissidente da Camorra, resolve acusar Tortora de envolvimento com o grupo mafioso. O apresentador seria o traficante que distribuía cocaína para grande segmento do showbiz italiano, no desvairado prelúdios dos anos 1980.
Pandico já tinha sido diagnosticado porquê esquizofrênico e propenso à mitomania, mas isso pouco foi levado em conta quando deveria. Bastou ele denunciar que o nome de Tortora estava na agenda da mulher de um camorrista para que o mundo do comunicante desabasse de uma hora para outra.
“Pandico ficou bastante indomável porque um dia viu Tortora satirizando em seu programa o jeito napolitano de falar, e achou que ele estava tirando sarro das pessoas de Nápoles. Mas, antes de tudo, Tortora era uma espécie de palhaço, que estava tentando imitar os napolitanos de um jeito propositalmente ruim. Mas Pandico ficou furioso”, explica Bellocchio.
“Pandico o detestava, e de certa forma esse ódio foi proeminente a uma espécie de delusão, a ponto de ele crer que, pela TV, Tortora podia até ouvi-lo à intervalo, quando ele assistia ao programa”, diz o diretor.
Depois que o ex-camorrista delatou o que pretensamente “sabia” sobre Tortora, conseguiu regalias judiciais. Vários outros bandidos, mirando-se em seu exemplo, decidiram inventar testemunhos de que o comunicante era, de roupa, um traficante. Para piorar, depois a barulheira midiática, membros do próprio judiciário acharam que podiam usar a detenção de Tortora porquê um vasqueiro caso em que um varão poderoso ia parar detrás das grades, logo se entregaram a uma gigantesca má vontade de verdadeiramente investigar o caso. A história toda virou uma esfera de neve, e cada vez mais ficava difícil ao apresentador proteger sua inocência.
A série reproduz com afinco a Itália da estação. São curiosas as cenas recriadas do programa “Portobello”, que mostram o quanto as atrações de auditório italianas por vezes se parecem mais com um circo do que com um show propriamente televisivo. Mas “Portobello” não era exclusivamente um entretenimento de segunda risco: também denunciava problemas da população mais desassistida, e essa mistura entre cafonice popularesca e assistência real ao italiano necessitado tornava o programa um fenômeno —no vértice, tinha 28 milhões de espectadores.
Bellocchio acredita que a tragédia que Tortora enfrentou tinha explicações que ultrapassavam a insanidade e o ódio pessoal de Pandico e o mero oportunismo dos bandidos que o acusaram. Havia ali, também, um preconceito de toda uma escol intelectual que torcia o nariz para o vitória de Tortora, visto, nas palavras de Bellocchio, porquê “um liberal metido a popular, mas que não vinha do povo, sendo um burguês considerado presunçoso”.
A série permite conferir que Bellocchio continua a filmar com a mesma conhecimento de seus grandes trabalhos, porquê “O Traidor”, de 2019. Sua habitual fluidez narrativa por vezes é interrompida por trechos mais oníricos. Uma vez que quando Tortora tem um delírio com a visitante no cárcere de figuras que poderiam ter saído de um filme de Fellini. Ou ainda uma cena em que o papagaio foge do estúdio e é encontrado em uma igreja.
“Mas isso ocorreu de verdade. E acho interessante porque mostra que Tortora, mesmo não sendo místico, queria encontrar o papagaio a qualquer preço, em uma espécie de superstição. Uma vez que se achasse que sua notoriedade estivesse atrelada àquele bicho. Uma dessas contradições que fazem segmento da núcleo humana.”
