A umidade e o calor de mais de 30ºC fervem os corpos que se escondem entre entulhos, caixas e lonas num pequeno porto às margens da Baía do Guajará, em Belém. Um deles se refresca ao ser arremessado na chuva guloseima, depois de um embate físico truculento. A cena dá o tom da série “Pssica”, que pega queimação com as cores quentes da retrato e com a ação frenética.
Logo que diz “corta”, Quico Meirelles aparece com pingos de suor se misturando às estampas da camisa. Ele se agacha, balança efusivamente os braços e faz poses enérgicas para coordenar a cena, ao lado do pai. Fernando Meirelles, por sua vez, dirige tudo com serenidade e a habitual fala mansa, num contraste curioso.
É a primeira vez que o cineasta de “Cidade de Deus” e “Experimento Sobre a Facciosismo” divide a direção com o fruto. Uma adaptação do livro homônimo do responsável paraense Edyr Augusto, a minissérie é fruto de parceria entre a O2, sua produtora, e a Netflix, e estreia nesta semana com quatro episódios sufocantes, graças à narrativa acelerada e ao peso de seus temas.
Para refrescar aquele set de filmagem virulento, a equipe era encorajada a tomar muita chuva e manducar pedaços de abacaxi, a verdadeira estrela daquele dia de gravações. As rodelas amarelas desfilavam nas mãos de câmeras, técnicos de som e do elenco, numa tentativa inerte de domar o calor.
“Filmar com 33ºC na cabeça é duro, mas faz secção e a gente se acostuma”, diz Fernando, entre as pausas de uma gravação e outra. Foi ele quem entrou em contato com o livro primeiro, quando passou 45 dias no Pará para gravar a ópera “Os Pescadores de Pérolas”, encenada na capital. Mostrou para o fruto, que se apaixonou e decidiu filmá-lo.
“A gente tinha uma resistência em adaptá-lo por justificação da violência, mas o Quico ficou martelando e a série saiu”, diz Fernando, que comanda um dos quatro episódios. “Quando eu não tenho o que fazer, pego uma camerazinha e fico buscando ângulos interessantes, porque eu comecei trabalhando uma vez que operador de câmera. Mas o Quico é o gerente e eu obedeço. À noite, em moradia, ele cozinha e, depois, eu lavo a louça.”
“Pssica” tomou as ruas e os rios de Belém em agosto pretérito, numa procura por autenticidade. Não só os temas e personagens são inerentemente paraenses, uma vez que também sua ação. Boa secção das cenas acontece sobre lanchas e catamarãs, dando uma roupas única para a minissérie.
No set, vários barcos estavam estacionados para formar um labirinto, pelo qual os personagens fugiam e trocavam tiros. Uma estrato extra de dificuldade para as cenas de ação, que Fernando já dominou em terreno firme, em produções uma vez que “Cidade de Deus”.
“Pssica”, termo que na gíria sítio identifica um tipo de má sorte ou maldição, gira em torno de três personagens que têm suas vidas entrelaçadas pelo violação que toma a Amazônia urbana, mas do qual pouco se fala.
Interpretada pela colombiana Marleyda Soto, de “Século Anos de Solidão”, Mariangel procura vingança depois de ver o marido e o fruto serem assassinados a sangue insensível, por uma gangue de ratos d’chuva. O termo é usado para identificar grupos de assaltantes que tomam os rios do Pará em procura de embarcações que transportam mercadorias. São uma espécie de piratas fluviais.
Um deles é Preá, personagem de Lucas Galvino que teve a puerícia e a puberdade atravessadas pelo violação e, sem muita selecção, acabou se rendendo a ele. E há ainda Janalice, uma jovem de 15 anos interpretada por Domithila Cattete.
Depois que um vídeo íntimo vaza para os colegas da escola, ela se muda para a moradia da tia, em Belém. Sem a malícia de alguém que cresceu na cidade grande, ela é enganada e sequestrada por uma rede de tráfico sexual, que leva menores de idade à força para se prostituírem do outro lado da fronteira, na Guiana Francesa.
Naquele agosto de 2024 em que as gravações aconteceram, ninguém imaginava que o lançamento de “Pssica” aconteceria num momento em que o país parou para debater a adultização e, por consequência, a violência sexual contra crianças e adolescentes posteriormente o influenciador Felca publicar um vídeo sobre o tema.
Outra produção vernáculo recente, “Manas” foi outro a se antecipar ao debate e retratar a exploração sexual infantil na Ilhota do Marajó. Crônico naquela região, o problema é abordado com crueza em “Pssica”, por meio de uma narrativa acelerada e cortante, que procura emular a escrita de Augusto.
“O livro é uma vertigem, você não consegue parar de ler. Você vai sendo atropelado e queríamos reproduzir essa sensação para o testemunha”, diz Quico, que também alterna o tipo de enquadramento e câmera conforme o personagem que acompanhamos.
Janalice, por exemplo, costuma estar em planos mais fechados, que ilustram a prisão em que vive. Os ratos d’chuva, com seus jet skis, são o oposto, sempre em enquadramentos abertos. “Criamos um jogo de sensações.”
Sensações que não devem desestimular o testemunha. “Demos uma suavizada, você pode dividir a violência do livro por oito”, diz Fernando. “A gente tem a violência contra a mulher presente, mas tiramos a secção gráfica. A gente indica, sugere, menciona, mas não queríamos uma série insuportável de ver. A teoria é que o testemunha reflita, não que mude de conduto. Não glamorizamos, mas ainda é uma série muito poderoso e tocante.”
O jornalista viajou a invitação da Netflix
