Em uma inventiva transposição do púlpito para o palco, o diretor Moacir Chaves revisita a obra do padre Antônio Vieira (1608-1697) com a montagem de “Sermão de Santo Antônio aos Peixes”, apresentando uma leitura contemporânea que potencializa a sátira social e a ironia do texto seiscentista. Protagonizada pelos atores Marcio Vito e Ricardo Kosovski e embalada pela guitarra ao vivo de Gustavo Corsi, a peça encena a parábola de Vieira, demonstrando sua desconcertante pertinência nos dias atuais.
A concepção de Chaves, que retoma o universo do jesuíta 30 anos posteriormente sua aclamada encenação de “Sermão da Quarta-feira de Cinza” com Pedro Paulo Rangel, opta por despir a vocábulo e a performance. A dramaturgia, assinada pelo próprio diretor, seleciona os trechos mais potentes do sermão proferido em 1654 no Maranhão, onde Vieira, ao se encaminhar metaforicamente aos peixes, tece uma ácida sátira à exploração dos povos indígenas e à ganância dos colonizadores. Na encenação, essa sátira é amplificada e direcionada às mazelas da sociedade contemporânea, porquê a injustiça social, a devassidão e a exploração do varão pelo varão.
A dinâmica entre Vito e Kosovski é o eixo médio da montagem. A dupla se reveza e se complementa na entrega do sermão, transformando o que poderia ser um solilóquio em um diálogo jeitoso e provocador. Utilizando-se de humor e de recursos cênicos que quebram a formalidade conceptista, eles estabelecem uma notícia direta com a plateia. A escolha de dois intérpretes para a mesma voz do pregador fragmenta e multiplica a mensagem, sugerindo que a denúncia de Vieira ecoa por diferentes vozes e perspectivas em nosso tempo.
Um dos elementos mais distintivos e modernizadores da encenação é a presença do músico Gustavo Corsi no palco. Com sua guitarra, Corsi atua porquê um terceiro interlocutor, pontuando, sublinhando ou mesmo confrontando a retórica barroca com texturas sonoras contemporâneas.
A construção cênica é bastante coesa – com cenário de Sergio Marimba, figurinos de Inês Salso e iluminação de Aurélio de Simoni – enfatizando e valorizando o trabalho dos atores e a força das palavras, reafirmando a vitalidade do teatro e dos textos clássicos. Ao fundir a sapiência de Antônio Vieira com o humor, a atuação engajada de Vito e Kosovski e os acordes da guitarra de Corsi, a montagem prova que a sátira à vaidade, à ganância e à vexação é atemporal.
Três perguntas para…
… Moacir Chaves
A encenação amplifica e direciona a sátira de Vieira para as mazelas atuais. De que forma exatamente isso é feito no espetáculo? Há inserções de texto contemporâneo ou a atualização se dá somente pela tradução e contexto?
Todo o texto falado na peça é do “Sermão de Santo Antônio aos Peixes”. Não mudamos zero de zero, não atualizamos, não “traduzimos” zero para um português contemporâneo. A verdade é que padre Antônio Vieira é um artista extraordinário, sua obra permanece atual e “fala” conosco. Talvez seja uma infelicidade manifestar que um texto tão crítico à humanidade permanece atual, mas isso é um pouco que também fazemos quando nos aproximamos de autores porquê Sófocles, Shakespeare, Tchékhov, Brecht, Beckett, Nelson Rodrigues…
Transpor um sermão, um gênero essencialmente religioso e retórico, para o palco de teatro é um repto interessante. Quais foram as principais dificuldades e descobertas nesse processo de transposição?
O ponto de partida foi a percepção de que, para fruirmos a obra, não precisamos aderir a uma visão privado de mundo do responsável. Ele, em sua obra, vai muito outrossim. Esse sermão, em privativo, não exige que os ouvintes tenham a mesma fé de quem o escreve. Aliás, os sermões de Vieira foram escritos para serem falados. Eles se completam na performance. A história comprova isso. As pregações de Vieira na Igreja de São Roque, em Lisboa, atraíam um público enorme. Nosso responsável era uma espécie de artista pop.
A presença da guitarra de Gustavo Corsi ao vivo é um elemento modernizador e talvez um terceiro interlocutor. Porquê foi trabalhar a relação entre a vocábulo barroca e a sonoridade contemporânea? A música comenta, contradiz ou amplifica o texto?
Sim, a guitarra de Gustavo Corsi é uma terceira voz em cena. Ela serve também para indicar para a questão técnica envolvida nos fazeres artísticos, seja em que linguagem for, na músico, porquê no caso dele, ou na atuação, na relação da atuação com o texto e com os gestos, que ajudam a fazer compreensível o primeiro nível de notícia, ou seja, as palavras ditas, e o outro, tão importante porquê esse primeiro, o lugar, o estado, a partir do qual o texto é falado. A assimilação desses dois níveis são o que nos dão a esperança de atingirmos um contato com a plateia, esperança essa tão faceta ao padre Antônio Vieira.
Sesc Copacabana – rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana, Rio de Janeiro. Qui. a dom., 20h30. Até 21/9. Duração: 70 minutos. A partir de R$ 10 (associados do Sesc). Horário de funcionamento da bilheteria: ter. a sex., das 9h às 20h; sáb. e dom., das 14h às 20h.
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