Todo réu tem recta, ou deveria ter, a um julgamento justo, com arguição seguida de plena resguardo. Espera-se que isso ocorra na investigação feita pela Uefa no caso em que o craque Vinicius Junior, 25, afirma que o prateado Gianluca Prestianni, 20, o chamou de “macaco” durante Benfica x Real Madrid pela Champions League, em Lisboa.
Evito prejulgamento e tento me ater aos fatos e ao que se pode concluir com base nas imagens e nos depoimentos. O que se pode ver em fotos é Prestianni, com a camisa tapando a boca, falar alguma coisa na direção de Vini. Vídeo mostra Vini correndo em direção ao avaliador para reclamar disso.
Vini, preto, afirma que o atacante do time português, branco, o chamou de “mono” (macaco, em espanhol). Seu colega de Real, Mbappé, preto, com conquista de Despensa do Mundo (2018) pela França no currículo, diz que ouviu Prestianni ofender Vini cinco vezes com essa vocábulo.
A partida parou por dez minutos, seguindo protocolo da Uefa, a entidade que rege o futebol na Europa, para esse tipo de situação. Por que continuou? Por que o Real não abandonou o campo, em pedestal a Vini? O próprio Vini não quis. Desistir de um jogo pode gerar sanções ao clube, já que cabe somente ao avaliador a decisão de encerrá-lo.
Pós-jogo, Prestianni negou o insulto racial. Declarou ter sido mal-interpretado e que houve excesso na reclamação de Vini. A ofensa ao brasílio seria “maricón” (maricas), e isso já teria sido registrado por ele na investigação iniciada pela Uefa.
Supondo que tenha sido, serve porquê confissão de culpa, já que ofensa homofóbica é também grave. É ataque à pundonor da pessoa de um jeito ou de outro. Só muda o enfoque: orientação sexual, não raça. Não serve de forma alguma para amenizar a atitude.
Prestianni está encrencado, ou deveria estar. Tanto a punição para ofensa racial porquê homofóbica é de suspensão, no contextura de competições europeias (pois o indumento ocorreu em um torneio europeu), por pelo menos dez jogos.
Há uma guerra jurídica em curso. O Benfica defende seu jogador: todo futebolista é um ativo financeiro, e uma pena seria desvalorização imediata, talvez não recuperável. Ao falar em “campanha difamatória”, o clube atua para preservar um patrimônio. O Real, do lado de Vini, que é o seu ativo, quer a pena de Prestianni.
O julgamento da Uefa levará em conta testemunhas (haverá quem sustente a versão de Vini e quem banque a de Prestianni) e as imagens, que, em uma estudo fria, não permitem epílogo. Seria necessário áudio, e não há.
É relevante relatar que existe precedente na competência da Uefa –e que o atacador perdeu.
Em 2021, em partida da Liga Europa (segundo interclubes em valia no continente), o finlandês Glen Kamara, preto, acusou o tcheco Ondrej Kúdela, branco, de chamá-lo de “macaco de merda” em Glasgow Rangers x Slavia Praga. Observe a amplificação: não basta macaco, tem que ter um palavrão complementar. É o ódio intensificado.
Kúdela não tapou a boca com a camisa, mas com as mãos, ao se encaminhar a Kamara. Negou ter proferido tais palavras. Admitiu um insulto, mas genérico (“idiota”). O caso tramitou internamente na Uefa por pouco mais de um mês. A entidade, com base em testemunhos e no contexto, suspendeu o tcheco por dez partidas.
Deveria servir porquê parâmetro disciplinar? Sim. Servirá? Não necessariamente. Na minha avaliação, o veredicto será político, pois uma prova escancarada do insulto não será apresentada. Uma vez que o Real Madrid tem muito mais peso que o Benfica, é muito provável que Prestianni tome um gancho dessa proporção: dez jogos.
Considerando que a epílogo seja de culpa, é de esperar que o caso não se encerre na esfera esportiva. É pouco para uma atitude racista.
Espero que Vini, símbolo do combate ao racismo, vá além e processe o prateado nas esferas cível e criminal em Portugal, que é o mensalidade competente pois o incidente se deu no país, onde racismo (e homofobia) é delito que resulta em multa e até em ergástulo.
É preciso coragem para dar esse passo. Vini até agora mostrou-se corajoso contra a desumanização dos negros. Que não recue e aja para ampliar ainda mais sua voz de protesto.
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