Smiljan Radic vence Pritzker por arquitetura silenciosa 12/03/2026

Smiljan Radic vence Pritzker por arquitetura silenciosa – 12/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Criado em 1979 pela Hyatt Foundation, o Prêmio Pritzker já reconheceu mais de 50 arquitetos ao longo de sua história e consolidou-se porquê uma das principais distinções da arquitetura contemporânea. Entre as premiações internacionais, permanece porquê um dos indicadores mais influentes de reconhecimento profissional.

Ao mesmo tempo, a trajetória do prêmio também revela debates persistentes sobre representatividade na profissão. Somente seis mulheres receberam a relevo até hoje, sendo Zaha Hadid, em 2004, a única a ser premiada individualmente. Reconhecimentos posteriores envolveram parcerias ou escritórios coletivos, porquê Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa em 2010, Carme Pigem com o RCR Arquitectes em 2017, Yvonne Farrell e Shelley McNamara em 2020 e Anne Lacaton, em 2021, ao lado de Jean-Philippe Vassal.

Ao longo dos anos, tanto a formação do júri quanto o perfil dos premiados passaram por transformações graduais, refletindo discussões mais amplas sobre heterogeneidade e o papel social da arquitetura.

A edição de 2026 ocorre em circunstâncias incomuns. O proclamação do prêmio, tradicionalmente realizado na primeira semana de março, foi delongado em seguida a divulgação de documentos que revelaram correspondências entre Tom Pritzker, presidente da Hyatt Foundation, instituição responsável pela premiação, e o financista pedófilo Jeffrey Epstein, sentenciado em 2008 por exploração sexual de menores.

Posteriormente a repercussão do caso, Pritzker renunciou ao incumbência de presidente da Hyatt Hotels Corporation, afirmando ter exercido “péssimo julgamento” ao manter contato com Epstein. Em enviado ao New York Times, a organização do prêmio afirmou que o júri continua operando de forma independente e “livre de influências externas”. Foi nessa ensejo que a premiação anunciou porquê laureado de 2026 o arquiteto chileno Smiljan Radic Clarke.

Radic emerge de um contexto arquitetônico único. O Chile, separado do restante da América do Sul pela serrania dos Andes, restringido a oeste pelo oceano Pacífico, ao setentrião pelo deserto do Atacama e ao sul pela gélida Patagônia, pode ser entendido porquê uma espécie de ilhota. Nesse território estreito e extremo, desenvolveu-se nas últimas décadas uma cultura arquitetônica relativamente autônoma dentro do quadro latino-americano, marcada pela experimentação material, pela economia de meios e por uma relação visceral com a paisagem.

Segundo arquiteto chileno a receber o Pritzker, em seguida Alejandro Aravena em 2016, Smiljan Radic Clarke trabalha desde 1995 em seu pequeno escritório homônimo em Santiago, onde construiu uma trajetória marcada por projetos que transitam entre casas isoladas na paisagem, equipamentos culturais e instalações experimentais.

Em sua obra, a arquitetura raramente se apresenta porquê um objeto formal autossuficiente. Em vez disso, surge porquê uma experiência espacial construída a partir da relação entre material, luz e atmosfera. Essa preocupação com a dimensão sensorial do espaço tornou-se um dos aspectos mais característicos de seu trabalho.

Projetos porquê a Moradia para o Poema do Ângulo Reto, construída na floresta de Vilches, ou a ampliação do Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana, em Santiago, exploram percursos, enquadramentos de luz e ambiências silenciosas que impelem o visitante a perceber o espaço por meio do corpo, não só a visão. A arquitetura, nesses casos, não procura protagonismo súbito, mas funciona porquê um dispositivo que intensifica a experiência do lugar.

Outro paisagem recorrente em sua obra é a tensão entre peso e leveza. No Pavilhão da Serpentine Gallery, em 2014, em Londres, uma casca translúcida de fibrilha de vidro repousa sobre grandes rochas espalhadas pelo terreno, criando certa anfibologia estrutural. Materiais tradicionalmente associados à solidez parecem sustentar volumes etéreos, enquanto uma estrutura aparentemente delicada demonstra uma surpreendente capacidade de suportar cargas. Estratégia semelhante aparece no Restaurante Mestizo, em Santiago, onde blocos de pedra posicionados no terreno sustentam vigas de concreto que fazem a cobertura parecer suspensa no ar.

Seus trabalhos evocam a teoria de construções frágeis. Muitos de seus edifícios parecem provisórios ou repentista, porquê se pudessem desvanecer a qualquer momento. No entanto, essa fragilidade é cuidadosamente construída. Suas obras produzem uma arquitetura que parece eternamente temporária —estruturas concebidas para porfiar, mesmo quando sua ar sugere o contrário. O Teatro Regional del Biobío, em Concepción, ilustra essa quesito: envolvido por uma membrana translúcida que à noite transforma o prédio em uma espécie de lanterna, o volume parece ligeiro e fugaz, embora esconda uma robusta estrutura dimensionada para responder às exigências sísmicas do território chileno.

Essa dimensão de fragilidade aparece de forma ainda mais explícita em alguns de seus projetos experimentais. Em Guatero, instalação pneumática apresentada na Bienal de Arquitetura do Chile de 2023, uma membrana translúcida é inflada e convertida em espaço arquitetônico, criando um envolvente instável e luminoso que parece viver exclusivamente enquanto está em uso. Já no Núcleo de Artes Performáticas Nave, em Santiago, Radic transforma uma antiga residência em um espaço cultural coroado com uma tenda de circo. Em ambos os casos, a arquitetura assume deliberadamente uma quesito provisória, porquê se estivesse sempre à extremo da rescisão.

Em contraste com um mundo cada vez mais marcado por imagens icônicas e gestos monumentais, Smiljan Radic aponta para outra direção. Seus edifícios raramente buscam impacto súbito. Em vez disso, operam em uma graduação mais silenciosa, explorando tensões entre material, sisudez e percepção. Ao fazê-lo, revelam uma arquitetura que parece sempre efêmera —e que talvez justamente por isso permaneça no tempo.

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *