Sobrevivência da Wikipédia é essencial para a existência da IA

Sobrevivência da Wikipédia é essencial para a existência da IA generativa, diz diretor brasileiro – 25/12/2025 – Tec

Tecnologia

Prestes a completar 25 anos, a Wikipédia enfrenta o duelo de permanecer relevante e sustentável financeiramente em uma internet dominada pela perceptibilidade sintético generativa. João Peschanski, diretor-executivo da Wikimedia no Brasil e um dos fundadores da Wikipédia no país, afirma que um número crescente de pessoas acessa informações “raspadas” (coletadas sistematicamente) da Wikipédia no ChatGPT e em outros chatbots.

“Essas IAs nos chupinham integralmente. A Wikipédia é a maior nascente do ChatGPT e do Gemini, e eles não nos atribuem, não colocam uma vez que nascente a Wikipédia”, diz. “Nós somos dependentes de doações pequenas. Se as pessoas acessam menos nossos projetos, elas vão doar menos.”

Mas ele adverte que a sobrevivência de recursos uma vez que a Wikipédia é precípuo para a existência dos modelos de IA generativa. “Se nós deixarmos de subsistir, também deixará de subsistir a consolidação do teor e a curadoria colaborativa que mantém tudo isso.”

Qual é o perfil dos editores da Wikipédia, todos voluntários?

Os dados indicam que a maioria tem mais de 35 anos (44%), um perfil que está mudando. Em 2021, 31,5% tinham mais de 35 anos. A maioria ainda é de homens —17,13% dos editores são mulheres, eram 11,10% em 2021.

O que leva uma pessoa a ser um editor voluntário da Wikipédia?

O editor mais geral é o circunstancial, aquele que entrou na Wikipédia, viu que alguma coisa estava desatualizada e fez uma mudança. Por exemplo, alguém que morreu, o Cristiano Ronaldo fez um gol, o Corinthians foi para a final da Despensa do Brasil. Essa pessoa coloca a informação e só volta a editar depois de um ciclo muito longo.

Esses são a maioria dos editores, mas não a maioria das edições —10% dos editores fazem 80% das edições. Desses, temos aqueles que têm perfil de folhinha, fazem longas listas, catalogam tudo. Geralmente são pessoas obsessivas. E tem as pessoas que entram em nichos.

Nos Estados Unidos existe um movimento de políticos e influenciadores de direita que acusam a Wikipédia de ter um viés de esquerda. O Elon Musk, por exemplo, chamou o site de “Wokipedia”. Existe esse fenômeno no Brasil também?

Um estudo de Harvard de uns anos detrás mostrava que o teor de política na Wikipédia era muito de núcleo. Por exemplo, para escrevermos o item existente sobre o Bolsonaro, editores de todas as correntes participam, bolsonaristas e não bolsonaristas.

No caso das mulheres, há cada vez mais mulheres editando, mas daí a expor que a Wikipédia é feminista (…) Hoje as mulheres ainda são unicamente 17% dos editores. No Brasil, quem falava que a Wikipédia era de esquerda era o Levy Fidelix [fundador do PRTB, ex-candidato à Presidência, 1951-2021]. Ele fez alguns programas contra a Wikipédia e mandava notificações [extrajudiciais, pedindo mudanças nos verbetes].

Vocês recebem muitas notificações?

Umas dez por mês. Em ano eleitoral, chega a 50 por mês.

Quando alguém questiona uma informação, qual é o processo para que essa queixa seja examinada?

A pessoa vai lá na página e deixa seu glosa, alguns outros editores acompanham esse item e vão validar. Existe um “fale com os editores”, ou fale com a Wikipédia. Você deixa lá o glosa, e as pessoas resolvem.

E quando uma pessoa faz uma edição que é peta, começa a avultar desinformação ou se é um assessor de prelo, uma vez que vocês lidam?

Nós monitoramos quando há edições muito substanciais em artigos sensíveis. Antes mesmo de a pessoa publicar, ela vai ser bloqueada se for expelir o teor ou vandalizar, a não ser que a pessoa seja uma editora recorrente.

Também temos um grupo de editores, que chamamos de regime [são 7.000 para a Wikipédia em português], que fazem um monitoramento. São pessoas que têm o poder de expelir, travar ou proteger artigos e bloquear editores.

Também temos mecanismos automatizados que identificam edições que precisam ser verificadas. Elas aparecem em cores diferentes se os autores são editores novatos, para que sejam checadas pelos mais experientes.

O que o senhor acha da decisão do Supremo Tribunal Federalista que aumenta a responsabilidade das plataformas por teor de terceiros?

Não está evidente se nos enquadramos ou não. Essas legislações deveriam ser direcionadas às grandes plataformas que, de indumentária, têm responsabilidades, e não para quem está oferecendo recursos educacionais abertos, que é o nosso caso e de vários outros.

No PL 2630 [das fake news], foi incluída uma exceção para enciclopédias colaborativas e outros recursos educacionais abertos. Desta vez, não há. E não dá para você estabelecer a mesma regra que se adota para o Google para projetos educativos mantidos por voluntários, sem anúncios, nem interesse econômico.

Existe qualquer tipo de regulação que você considera necessária para manter o ecossistema de informação habitável?

Nós precisamos de espaços públicos na internet, bens públicos digitais, uma vez que uma BBC. Deveria subsistir uma regulação que não unicamente impusesse limites, mas que criasse ou incentivasse esses espaços públicos, que não são privados, nem estatais. Senão, teremos unicamente uma terreiro pública privatizada [controlada pelas big techs], que, na verdade, não oferece liberdade real para circulação de informações, ou teremos espaços do governo, ou portal Gov.

Qual o impacto da IA sobre a Wikipédia?

Essas IAs nos chupinham integralmente. A Wikipédia é a maior nascente do ChatGPT e do Gemini. Eles não nos atribuem, não colocam uma vez que nascente a Wikipédia. E a Wikipédia é baseada em uma licença livre com atribuição. Aliás, é um problema para a motivação dos nossos editores. Eles fazem de perdão, mas querem que seu trabalho seja reconhecido.

Eu estive em uma reunião no Google há duas semanas e disse: olha, a gente sabe que vocês estão usando, usem, que bom, mas atribuam e se tornem doadores. Hoje em dia, a Wikipédia é dependente de pequenos doadores. A gente precisa que [as grandes empresas de IA] contribuam mais.

Vocês já sentiram uma queda no número de editores?

No Brasil não, mas não sabemos muito por quê. Na Wikipédia em espanhol, sim.

Houve queda na audiência da Wikipédia?

No Brasil a audiência é seguro —em 2024 tivemos 2,3 bilhões de usuários. Nos Estados Unidos e na Europa, houve queda.

Se desabar o número de acessos à Wikipédia porque as pessoas conseguem obter a mesma informação em chatbots, isso pode reduzir as doações e ameaçar a sustentabilidade da Wikipédia?

Nós somos dependentes de doações pequenas. Se as pessoas acessam menos nossos projetos, elas vão doar menos. Mas existe uma questão importante. Não é o ChatGPT que está produzindo teor, ele está unicamente replicando. Se nós deixarmos de subsistir, também deixará de subsistir a consolidação do teor e a curadoria colaborativa que mantém tudo isso. Em última instância, a IA estará se suicidando, é um tiro no pé, porque, se você mata a nascente de informação checada, colaborativa, você não tem uma vez que treinar seu protótipo de forma eficiente.

A IA é uma prenúncio à Wikipédia?

Olha, há desafios, mas eu acho que também é uma oportunidade para nós encontrarmos outras formas de nos viabilizar. Existe o protótipo europeu, que é ter a Wikipédia e outros projetos educacionais apoiados uma vez que espaços de informação pública. Hoje seria difícil ter essa discussão, temos esse exposição mais regulatório contra as big techs, por razão de tudo que aconteceu nos últimos dez anos. Mas a gente precisa ter uma governança da internet propositiva, não unicamente restritiva.


RAIO-X | JOÃO ALEXANDRE PESCHANSKI, 45

É diretor-executivo da Wikimedia Brasil, filiada à Instalação Wikimedia, que administra a Wikipédia. Formado em Ciências Sociais pela USP (Universidade de São Paulo) e em Informação Social pela PUC-SP, é rabi em ciência política pela USP e doutor em sociologia pela University of Wisconsin-Madison (EUA). Atua nos projetos da Wikimedia uma vez que voluntário desde 2011.

Folha

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