Sofisticado, mas 'ultraprocessado': Músicos de orquestra analisam álbum de Rosalía

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Sofisticado, mas ‘ultraprocessado’: Músicos de orquestra analisam álbum de Rosalía
Rosalía se inspirou na música clássica para fabricar “Lux”, seu álbum mais recente, lançado no início de novembro. Mas não se engane: o trabalho da cantora espanhola continua sendo pop para quem, de vestuário, transita no universo erudito.
O g1 mostrou o “Lux” a integrantes da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). As reações deles ajudam a entender de que formas o disco se aproxima — e também se afasta — da música clássica (assista ao vídeo supra).
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Aquém, entenda 5 pontos levantados pelos músicos.
1 – O disco é sofisticado, mas também ‘ultraprocessado’
Ao lado de Rosalía nos créditos do “Lux”, estão nomes uma vez que os de Daníel Bjarnason, maestro islandês que trabalhou com Brian Eno e Sigur Rós, e Caroline Shaw, compositora clássica americana, vencedora do Prêmio Pulitzer de Música em 2013.
Ao ouvir o álbum, os músicos da Osesp elogiaram a originalidade das composições. “Ao ouvir, eu fiquei me imaginando sentado no piano tendo essas ideias e procurando meios de passá-las para o papel”, disse Laércio Resende, barítono do Coro da orquestra. “É um trabalho fenomenal. O panelinha de cordas de ‘Relíquia’, por exemplo, dá para perceber que quem o escreveu realmente domina a constituição de cordas.”
Revestimento do álbum “Lux”, de Rosalía
Divulgação
Também chamou atenção o nível de sofisticação das produções. Mas foi consenso entre os músicos ouvidos que o trabalho da cantora apresenta uma música clássica, nas palavras deles, “ultraprocessada”. Romeu Rabelo, contrafagotista da Osesp, explica:
“Tudo é muito muito feito, mas o som é editado, trabalhado em estúdio. Poderia ter sido feito com instrumentos eletrônicos e, talvez, o resultado fosse o mesmo. A música erudita é um inferior. É um disco pop, que tem elementos da música erudita.”
“De qualquer forma, é supra da média do que eu acho que está acontecendo por aí. No mundo pop, tem gente que nem se propõe a isso”, acrescentou o contrabaixista Alexandre Rosa.
2 – Não vai ser tão fácil reproduzir as músicas ao vivo
Em um concerto tradicional, a música é executada pela orquestra 100% ao vivo. O público ouve o som que sai dos instrumentos naquele exato momento, sem correções e interferências de gravações prévias. Não há nem mesmo a amplificação da música que é tocada no palco: ela se propaga naturalmente pela sala. Por isso, esse tipo de apresentação costuma suceder em locais com ótima estrutura acústica.
Esse é um fator necessário para uma autêntica experiência de concerto — e também uma das principais diferenças entre a música erudita e a música pop.
Rosalía ainda não revelou se fará uma turnê do “Lux”. Se fizer, simples que o esquema será outro: a cantora provavelmente se apresentará em estádios, arenas ou festivais, ambientes que precisam de muita amplificação do som. Mas esse não será seu único duelo para levar ao público uma experiência próxima da proposta do disco.
Mesmo que Rosalía se apresente com uma orquestra, não será verosímil reproduzir algumas músicas exatamente uma vez que elas estão no álbum. Pelo menos, não 100% ao vivo, segundo os integrantes da Osesp. “Uma vez que as músicas são processadas no estúdio, em alguns trechos a gente fica se perguntando se [o som dos instrumentos] foi depressa digitalmente. Na voz também, há distorções, efeitos. Ao vivo, soaria um pouco dissemelhante”, afirmou Regiane Martinez, soprano do Coral.
Para mostrar as faixas em um show com a maior qualidade de realização verosímil, a artista precisará de músicos muito competentes — e de uma boa preparação vocal. “Além das alterações digitais, há músicas virtuosísticas, difíceis de tocar. Será difícil para a orquestra e também para ela”, previu o contrafagotista Romeu Rabelo.
3 – O que Rosalía faz não é exatamente quina lírico
Músicos de orquestra analisam álbum de Rosalía
Luiz Gabriel Franco/g1
Em vários momentos do “Lux”, a performance vocal de Rosalía passa do estilo mais resistente do flamenco para um quina mais próximo do lírico. Mas é preciso fazer a salvaguarda: o que a cantora faz no álbum não é exatamente quina lírico.
Uma vez que a música da orquestra não é amplificada, os cantores — sem microfones — adotam técnicas específicas para que a voz consiga “furar” o som dos instrumentos para chegar ao público. A soprano Regiane Martinez resume:
“Ela usa recursos do quina lírico, sim, mas não dá para expor que é tudo lírico. Há um arzinho na voz dela, que é legítimo e próprio da música pop. Mas, se cantamos assim numa sala de concerto, a voz não ganha projeção, ninguém ouve zero.”
4 – Os idiomas combinam com as referências
Ao longo das 18 faixas do “Lux”, Rosalía canta em 13 idiomas: catalão, mouro, ucraniano, italiano, espanhol, inglês, galicismo, boche, judio, nipónico, latim, mandarim e português. E todas essas línguas não estão lá por contingência.
Em entrevistas, a cantora tem falado que os idiomas têm relação direta com as referências do trabalho. Ela cita o caso de “Berghain”, com trecho em boche inspirado por Hildegard von Bingen, monja beneditina alemã conhecida pela atuação nas mais diversas áreas: da música à medicina proveniente. A espiritualidade feminina e a trajetória de mulheres da Igreja Católica são temas centrais do “Lux”.
Ao ouvir o álbum, os músicos da Osesp destacaram que os idiomas escolhidos por Rosalía não ajudam a entender somente o teor, mas também a forma do disco. “Mio Cristo Piange Diamanti”, por exemplo, é cantada em italiano para remeter à ópera, forma de arte que mistura música e dramatização e que nasceu na Itália no século 17.
A tira fez Regiane Martinez lembrar de Domenico Mazzochi, compositor de óperas desse período. A soprano elogiou:
“Dá para perceber que ela traz uma bagagem de escuta músico muito interessante.”
A própria decisão de trovar em várias línguas é um meneio de Rosalía ao universo da música erudita. Uma vez que apresentam peças musicais de diferentes países, integrantes dos coros de orquestras estão acostumados a trovar em idiomas nos quais não são fluentes. Regiane, integrante do Coro da Osesp, calculou mais de 20 idiomas em seu currículo.
5 – No clipe, os músicos não estão tocando de verdade
É um tanto que, talvez, não seja tão óbvio para leigos. Já para músicos profissionais, fica evidente que a orquestra do clipe de “Berghain”, lançado por Rosalía em outubro, não está tocando música alguma.
No vídeo, Rosalía aparece rodeada por músicos de uma orquestra. Ela canta em situações peculiares (lavando e passando roupa, na leito de um hospital, andando de ônibus…) enquanto eles manuseiam instrumentos, principalmente os de cordas.
“Quem é instrumentista consegue identificar muito facilmente que eles não estão tocando, porque há uma postura e uma intenção física dissemelhante quando se toca um instrumento”, comparou o barítono Laércio Resende.
Romeu Rabelo, contrafagotista, se divertiu: “É simples que a gente assiste abstraindo essas questões, porque uma orquestra dentro de um ônibus é um tanto totalmente inviável de suceder: não há o mínimo de espaço necessário para tocar os instrumentos. Nós, que vivemos esse mundo, imaginamos aqueles músicos no ônibus pensando: o que estou fazendo cá?”.
Músicos de orquestra analisam álbum de Rosalía
Luiz Gabriel Franco/g1

Fonte G1

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