Sonia Gomes é uma tecelã de memórias. Há murado de duas décadas, pessoas de diversas regiões do país doam para ela itens porquê blusas, calças, toalhas e até mesmo um vestido de prometida guardado por sessenta anos. Pelas mãos da artista, essas peças ganham vida novidade. Em seu ateliê, na zona oeste da capital paulista, Gomes costura um tecido no outro, criando uma miscelânea de cores vibrantes e estampas variadas.
“No primícias, tentaram me colocar na caixinha da arte reciclável, mas minha produção não é zero disso. As pessoas não me dão descartes. Elas me trazem histórias vividas. Eu trabalho com objetos de afeto”, afirma a artista, enquanto um visitante ou outro saca o celular para tirar fotos de suas esculturas no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
Gomes está em papeleta na instituição com a mostra “Barroco, Mesmo”, projeto que já passou pela Bahia, Minas Gerais e, agora, chega a São Paulo com murado de 80 obras, todas elas carregadas de brasilidade.
Ao costurar em uma mesma obra materiais de cores, formas e origens diversas, a artista tece alegorias que sintetizam a fusão cultural do país. “Meu trabalho é o Brasil em sua pluralidade, uma mistura de material transcendente com material pobre.”
Esse projeto estético marcadamente brasiliano ganhou visibilidade mundial a partir de 2015. À quadra, ela apresentou trabalhos na Bienal de Veneza, a principal exposição de arte do mundo. “Levei um susto quando me chamaram. Achei que fosse trote.”
Três anos depois, tornou-se a primeira mulher negra viva a lucrar uma mostra no Masp em mais de sete décadas de existência do museu.
“Acho que isso foi muito tardio. Vários artistas negros não tiveram esse reconhecimento antes de mim”, diz ela, para quem o setor atualmente se mostra mais receptivo a pessoas não brancas. “A arte negra está na tendência. Acho que muitos espaços estão absorvendo esses artistas com a premência de preencher uma prestação.”
Ela considera, porém, que demandas do mercado muitas vezes engessam a produção desse grupo. “Estão exigindo que negros só falem sobre questões temáticas, porquê a escravidão. Tentam colocar a gente nessa caixa, mas somos artistas. Podemos falar sobre o que quisermos.”
Uma das obras no Instituto Tomie Ohtake parece fazer menção a esse libido por liberdade criativa. Nas grades de uma gaiola, a artista pendurou fitas, tecidos e colares. No entanto, o que labareda a atenção é o veste de o objeto estar com a porta ocasião, porquê se fosse um invitação à fuga.
“Gaiola é uma peça linda, mas a sua função é enclausurar. Logo, eu quis tirar isso”, diz Gomes. “Arte para mim é sobre liberdade.”
Esse esforço de preservar a própria independência tem rendido bons frutos. Atualmente, suas obras fazem secção de instituições renomadas, porquê o Centre Pompidou, em Paris, o Guggenheim, de Novidade York, e o Tate Modern, em Londres. Neste ano, ela ganhou uma exposição na poderosa Pace Gallery, a sua primeira individual no Reino Unificado.
“Nunca imaginei que fosse estar nesse patamar hoje em dia. Fazia as obras sem a menor intenção. A arte nasceu para mim porquê uma premência.”
Esse imperativo ganha forma em esculturas têxteis erguidas com o auxílio de arames. Ora suas obras parecem escorrer do teto porquê se fossem um líquido viscoso, ora elas se contorcem em movimentos sinuosos formando uma coreografia de gestos dramáticos.
É uma gestualidade tão teatral, expansiva e incontida quanto aquela observada em pinturas barrocas de mestres porquê Aleijadinho, Caravaggio e Rembrandt. Não à toa, a mostra no Instituto Tomie Ohtake expressa já em seu título a relação de Gomes com esse movimento.
“Sempre gostei dos aspectos excessivos e dionisíacos desse estilo. Para mim, ele é uma legado muito intuitiva.” A naturalidade com que ela se apropriou do barroco não é sem motivo. Gomes, por fim, nasceu em Caetanópolis, cidade do interno de Minas Gerais.
O estado é divulgado porquê o celeiro da arte barroca no Brasil, principalmente em razão das obras produzidas em Ouro Preto. Entre igrejas, esculturas e afrescos, o município guarda um dos principais acervos desse estilo no mundo.
Por esse motivo, tornou-se a primeira cidade brasileira a receber o título de patrimônio mundial da Unesco, em 1980. No entanto, em meio a essa opulência barroca, a região preserva as marcas de um pretérito fundeado na violência racial.
“Com 15 anos, visitei Ouro Preto pela primeira vez”, lembra Gomes. “Chegando lá, percebi que foram construídas igrejas só de brancos e igrejas só de pretos durante a escravidão. Apesar de encontrar lindo, não me sinto muito naquele lugar. É muita venustidade, mas muita dor ao mesmo tempo.”
A artista também cresceu cercada pela efervescência músico de sua terreno natal. Além do barroco, Gomes se voltou para as festas populares de Caetanópolis para edificar uma poética de gestos e formas marcantes.
Isso se fez notar ainda na juventude, quando ela começou a customizar as próprias roupas. Algumas dessas peças personalizadas, inclusive, podem ser vistas na exposição no Tomie Ohtake.
“Quando comecei a fazer as roupas, a minha preocupação era fabricar movimento e assimetria. Acho que isso aconteceu por culpa da minha relação com a música e com a dança.”
Ao longo dos anos, esses trabalhos ganharam novas camadas até se transformarem nas esculturas têxteis pelas quais a artista é conhecida. Em 2004, ela fez a sua primeira exposição, na galeria Sandra e Márcio, em Belo Horizonte.
Nesse mesmo ano, uma instituição da capital mineira se recusou a exibir uma das obras de Gomes. Porquê argumento, disseram que não trabalhavam com artesanato. “Para muita gente, preto não faz arte, faz artesanato”, diz ela. Hoje em dia, esse mesmo trabalho faz secção do pilha do Museu de Arte Moderna de Novidade York, o MoMA, uma das instituições mais importantes do mundo.
Curador da mostra do Instituto Tomie Ohtake, Paulo Miyada diz que a artista tem despertado interesse por fabricar trabalhos sobre a união e a mistura em meio a uma geopolítica que prima pela fragmentação.
“É uma produção que atravessa muitas fronteiras para combinar elementos que não estariam juntos de forma óbvia”, diz ele, para quem as obras também se conectam à memória afetiva do público.
“É uma produção feita de verbos de zelo: costurar, enfardar, geminar, proteger e resguardar. Todo mundo tem uma memorandum relacionada a uma dessas ações. Por isso, as pessoas saem emocionadas quando veem a obra dela.”
