Quando Arnaldo Antunes lançou no ano pretérito o álbum “Novo Mundo”, muito se falou sobre levante ser um trabalho que o reaproximava do rock e que tinha espírito de “disco de margem”. Ele montou um grupo de bambas para acompanhá-lo, depois de três anos dedicados à turnê do álbum “Lágrimas no Mar”, gravado exclusivamente com sua voz e o piano de Vitor Araújo.
O caráter gregário do disco também era demonstrado pela participação de quatro convidados especiais: a parceira de longa data Marisa Monte (na filete “Sou Só”), o americano David Byrne, ex-líder do Talking Heads (“Body Corpo” e “Não Dá pra Permanecer Parado Aí na Porta”), e dois nomes da novíssima geração brasileira, a cantora Ana Frango Elétrico (“Pra Não Falar Mal”) e o rapper Vandal (“Novo Mundo”).
Agora, Arnaldo anuncia um show peculiar no dia 22 de maio, no Espaço Unimed, em São Paulo, reunindo os convidados do disco, com exceção de Byrne, comprometido com datas da turnê mundial de seu disco mais recente. “É o momento ideal para fazer uma gravação do show, coisa que a gente queria desde o primórdio”, diz o cantor.
Para ele, que considera a apresentação uma “celebração”, depois de meses de estrada o show está azeitado, com uma performance mais segura. “Acho que o show representa uma renovação na sonoridade do meu trabalho. Essa margem trouxe um frescor. Depois da pandemia, veio o show do ‘Lágrimas no Mar’, que era muito sereno, portanto agora é a volta da atitude do show com margem, mais pesado.”
A teoria é que cada colaborador cante a filete do disco da qual participa e pelo menos mais uma música. No caso de Marisa Monte, há todo o repertório dos Tribalistas uma vez que possibilidades, além de inúmeras parcerias que os dois já fizeram em seus discos individuais.
Quanto a Ana Frango Elétrico, eles já se apresentaram duas vezes juntos no programa de TV “Altas Horas”. “Eu já gostava do primeiro disco, e quando saiu o segundo fiquei louco, ela é muito talentosa. É um esquina charmoso, tem uma originalidade no som.”
Arnaldo conta que o invitação partiu de uma premência. “Tinha essa melodia, ‘Para Não Falar Mal’, na qual o final de um verso atropela o início do verso seguinte. Teria que fazer um dueto, e pensei numa voz feminina.”
Ele diz que se tornou fã do rapper baiano Vandal acreditando numa conexão músico. “Acho que tem ali uma potência no esquina que me lembra um pouco a maneira uma vez que eu cantava no primórdio dos Titãs, gritando, uma vez que se estivesse cuspindo as palavras. E o texto dele é muito bom. Enriqueceu a melodia.”
A tendência é que quem for ao Espaço Unimed tenha contato com todo o repertório de “Novo Mundo”. “Quando eu lanço um álbum, eu faço questão de trovar todas as canções no novo show”. Arnaldo se diz muito apegado ao formato de álbum, numa era em que muitos artistas preferem lançar músicas soltas nas plataformas digitais.
“No primórdio da música do dedo em streaming, fiquei otimista. Era a liberdade para o artista gravar um álbum ou portanto um EP, com menos faixas, até mesmo soltar só uma, um single. Mas esse exalo foi de certa forma arrefecendo, foi se perdendo diante de uma surpresa um tanto negativa de uma vez que não está sendo bom essa superficialidade.”
Ele diz que o trajo de as pessoas não terem tanto tempo para ouvir músicas, ou alguns preferirem ouvir “pedacinhos no TikTok”, é mais um motivo para que ele continue gravando álbuns. “Cada vez mais a gente precisa desse outro tempo, de aprofundamento, de concentração. Isso está se tornando uma premência na vida de todos, quebrar essa velocidade das redes sociais, da informação, com momentos de contemplação, de coisas mais profundas.”
Para o show de maio, ele escolherá canções antigas que dialoguem de alguma forma com a sonoridade de “Novo Mundo”, mas sem a obrigação de incluir todos os seus hits. “Tento não repetir os mesmos sucessos a cada turnê. Mas músicas uma vez que ‘Socorro’, ‘A Mansão É Sua’, ‘O Pulso’, estavam no show anterior e estão nesse também. Ao mesmo tempo, entraram músicas que eu não cantava faz tempo, que achei que combinavam, uma vez que ‘Se Assim Quiser’, ‘Sem Você’, ‘Debaixo d’Chuva’.”
Uma das canções de seu repertório é “Envelhecer”, de 2009, com uma letra positiva e lúdica em relação à maturidade. “Acho que a gente vai ficando velho e essa reflexão se torna mais presente. Tem as limitações físicas, a proximidade da teoria da morte, a gente convive com ela. Acho que isso tem dificuldades, mas tem também riquezas.”
Aos 65 anos, Arnaldo acredita que sua vitalidade vem do trabalho intenso. “Continuo tão inquieto quanto antes. É um pouco que eu sinto que vai persistir até eu não poder mais, se permanecer muito doente. Eu preciso estar criando, preciso fazer show, isso me nutre de vitalidade para enfrentar a vetustez. A manutenção dessa inquietude faz segmento da minha natureza.”
