Enquanto “Firmamento e Inferno”, de Akira Kurosawa, era marcado por uma direção contida, que deixava o caminho livre para o elenco e se aproximava de uma experiência teatral, “Luta de Classes”, de Spike Lee, faz o oposto. Satura e acelera todos os elementos em cena, incluindo o roteiro, porquê se fizesse questão de se descolar do filme feito pelo rabi nipónico há seis décadas.
Tanto que Lee vem deixando evidente em entrevistas que “Highest 2 Lowest” —porquê ficou o título original, mais próximo do “High and Low” nipónico— é uma “reimaginação”, não um remake. Na sua versão, a música afetada e as atuações propositalmente exageradas parecem gritar ao testemunha, mais ou menos porquê o cineasta faz em conversa por vídeo, de forma estranhamente gentil.
“Brasil? Deem mais tempo ao meu colega do Brasil!”, diz o diretor, eufórico, mal levante repórter entra na chamada de vídeo. Ao longo da conversa de pouco menos de 20 minutos, ele fala de “Luta de Classes”, é evidente, mas também pede para aprender palavrões em português, se desculpa por gritar e faz promessas de que estará no Rio de Janeiro até o termo do ano.
Na cidade, onde gravou o clipe de “They Don’t Care About Us”, de Michael Jackson, e o documentário “Go Brazil Go!”, ele vai receber o título de cidadão honorário. “Eu senhoril o Brasil, me sinto honrado e tenho que pedir perdão a vocês por ainda não ter ido receber essa honraria, mas eu estarei no avião até o termo do ano”, diz o cineasta de “Faça a Coisa Certa” e “Infiltrado na Klan”.
“Toda vez que eu ouço qualquer música do meu irmão Michael Jackson, eu lembro de um dos melhores momentos da minha vida, quando estive com o Mike no Brasil. Lucro por Deus. Mas vamos falar do filme”, diz ele, um pouco forçado, ao ver a escassez de tempo geral, hoje em dia, a qualquer entrevista para promover filmes estrangeiros.
Um tanto óbvio, o título “Luta de Classes” não tem o charme do original, que brinca com a intervalo que separa seus personagens tanto metaforicamente, na pirâmide social de ricos e pobres, quanto de forma espacial, já que um habita uma cobertura luxuosa em Novidade York e o outro se esconde num porão.
David King, vivido por Denzel Washington, é um magnata da indústria fonográfica, responsável por lançar alguns dos maiores nomes da música negra. Ele enfrenta uma crise em meio às transformações do ramo, mas tem a oportunidade de dar a volta por cima ao fechar um negócio milionário —não sem pôr sua conta bancária em risco.
No dia em que o acompanhamos, ele acorda em sua bela cobertura, beija a gentil mulher, leva o rebento para a escola e se prepara para fechar a transação. O mercantil de margarina é interrompido, porém, quando ele recebe um telefonema. Seu rebento foi sequestrado, e só ficará vivo se King remunerar um resgate exorbitante —o que ele aceita, sem hesitar.
Mas logo todos descobrem que o criminoso se confundiu e acabou raptando o rebento do motorista. Será que, neste novo cenário, o magnata vai ou não terebrar mão do quantia que tinha para alavancar sua gravadora? Esta é a questão moral que define os passos do protagonista de “Luta de Classes”, porquê também era o caso do trabalhador de sapatos vivido por Toshirô Mifune em “Firmamento e Inferno”.
Agora é Denzel Washington quem incorpora o dilema, num personagem que parece perfeito para alguém que tem um currículo que vai de “A Tragédia de Macbeth” a “O Protetor”. Esta é a quinta parceria entre o cineasta e o ator —a mais notória foi em “Malcolm X”—, e seu entrosamento é sempre nítido, embora Washington não goste de falar das colaborações do pretérito.
“Eu não olho para trás, eu olho sempre para a frente. E estou prestes a trabalhar com um cineasta brasiliano pomposo, Fernando Meirelles, portanto neste momento é neste filme que estou pensando”, diz ele sobre o cineasta de “Cidade de Deus”, que prepara “Here Comes the Flood”, um filme de assalto a banco que ainda tem Robert Pattinson no elenco.
“Estou muito ansioso, porque estou num momento da curso em que só me interessa trabalhar com os melhores —há muito mais filmes detrás de mim do que à minha frente. Esta novidade filosofia de vida começou com o Spike Lee e agora segue em direção ao Fernando.”
Washington vai emendar dois projetos do streaming, já que a parceria com o brasiliano será produzida pela Netflix. “Luta de Classes” até vai ter sessões em cinemas dos Estados Unidos e do Reino Unificado, mas no Brasil e no resto do mundo o filme chega diretamente ao Apple TV+, na próxima sexta (5). Um tanto estranho, dada a resguardo passional de Lee pela experiência cinematográfica.
“As gerações mais novas que estão vendo filmes no celular. E, o pior, não é com ele na nivelado, é na vertical mesmo. Porquê um cinéfilo, um amante de cinema, eu digo: Meu Deus do firmamento! O que essas pessoas estão fazendo? Portanto, meus amigos, sempre que puderem, vão ao cinema. Depois vocês assistem aos filmes na televisão de lar”, diz o diretor.
Lee também não está satisfeito com os caminhos da indústria em relação à lucidez sintético. Debates em torno da tecnologia, aliás, ajudam a diferenciar seu “Luta de Classes” do “Firmamento e Inferno” de Kurosawa, mais interessado em olhar para os traumas deixados pela Segunda Guerra do que para o porvir.
“Leste magnata da música vivido pelo Denzel se questiona a todo momento que tipo de música uma máquina pode fabricar. Ela tem coração? Tem psique? E isso nem é o grande problema, se pensarmos em ensino. Hoje em dia os estudantes pedem para um robô fazer os seus trabalhos. Mas, ao fazer isso, eles aprendem um pouco? Está aí uma questão moral. Eu, particularmente, acho que é porquê trapacear. Se isso me torna ultrapassado, foda-se.”
Com palavrão mesmo. Lee faz questão de frisar o “I don’t give a fuck” e pede para levante repórter lhe ensinar uma versão também suja em português. E volta ao termo ao lembrar da recepção morna que “Luta de Classes” recebeu no Festival de Cannes, onde estreou fora de competição. “Eu não estou gritando com você, estou gritando com uns críticos por aí que não entendem merda nenhuma”, diz sobre a première.
O desabafo malcriado vem escoltado de um largo sorriso, um contraste curioso, porquê é aquele presente em seu filme e que tanto desagradou a sátira. Do primeiro ato melodramático, sempre em excesso, “Luta de Classes” vai para uma segunda segmento embebida em confronto e críticas sociais, abraçando um cinema que não poderia ser mais Spike Lee.
