Em verdade, em verdade vos digo: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que o Porta dos Fundos ceder de vez os temas bíblicos em seus especiais de Natal.
Eles até tentaram mudar de rota no próprio natalino de 2022, com resultado melhor que a média, mas estão de volta à antiga seara agora —a inspiração, pelo visto, está mais difícil de encontrar do que ouvido de leproso no ano 50 d.C.
Se a conferência parece gratuita e malcriada, a desculpa para inseri-la cá é que menções às partes faltantes da anatomia dos afetados pela lepra na Antiguidade estão entre as piadas recorrentes nos 50 minutos de “Standup e Anda”, porquê foi batizado o programa de final de ano da trupe carioca.
Roteirizado, produzido e estrelado por Fábio Porchat, com curtíssimas participações de Gregorio Duvivier e Evelyn Castro, o próprio é exatamente o que o título sugere. Trata-se de uma longa sessão de comédia standup transposta para a Galileia do século 1º, algumas décadas depois a morte de um tal de Jesus —mencionado de forma quase oblíqua e sem participação próprio na história desta vez, graças ao Senhor.
Muitos elementos de “Standup e Anda” são irritantes, mas o que une todas essas fontes de irritação provavelmente é o potencial esperdiçado, assim porquê as falsas pistas do que virá a seguir. Logo no início do programa, por exemplo, Jafé, o comediante interpretado por Porchat, está sendo entrevistado no camarim antes de entrar em cena por uma “repórter” —ou o equivalente disso na Palestina ocupada pelos romanos, enfim— que lhe faz a pergunta fatídica: “Qual o limite do humor?”.
Parece a deixa perfeita para abordar a hipocrisia de quem usa o escudo da liberdade de frase unicamente quando quer desumanizar os mais vulneráveis, e o próprio duplo padrão de quem clama contra a “increpação” só quando ela afeta seu próprio exposição tribal. Algumas das piadas iniciais de Jafé até parecem mostrar para esse caminho, mas as possibilidades do tema logo se perdem na enxurrada costumeira de palavrões.
Indicar esse último pormenor não é questão de puritanismo. A inventividade escatológica brasileira é um patrimônio inegável do humor vernáculo, e o próprio Porta dos Fundos já mostrou que é capaz de usar essa utensílio de modo hilariante.
Mas, para funcionar, ela exige precisão e timing; tem de ser usada mais porquê bisturi de neurocirurgião do que porquê marreta de soldado romano pregando salteador na cruz. A abordagem do próprio deste ano, infelizmente, está muito mais para o segundo caso.
Outro fracasso do texto de Porchat é quando Jafé anuncia que vai falar de “causos” bíblicos —do Idoso Testamento— “pouco conhecidos” e polêmicos. Para início de conversa, os tais casos que pouca gente conhece são manjadíssimos. Parecem tirados de playlist de ímpio jovem no YouTube —a punição às supostas orgias de Sodoma e Gomorra; o caso de Lot, sobrinho de Abraão, engravidando as próprias filhas; o vidente Eliseu sendo ridicularizado por ser careca —com uma punição divina totalmente desproporcional aos jovens que zombavam dele— etc.
Cá, a oportunidade desperdiçada fica clara mais uma vez porque, de indumento, existe um ruína cultural gigantesco entre as expectativas dos autores bíblicos e de seu público, de um lado, e as de um público moderno —mesmo aquele que enxerga a Bíblia porquê sagrada—, de outro.
As Escrituras hebraicas às vezes têm uma franqueza chocante no que diz saudação a temas porquê relações sexuais e necessidades fisiológicas, por exemplo. (Aliás, fica cá a menção honrosa à piada sobre David observando o rei israelita fazer o proverbial número 2, uma das raras em que a escatologia funciona.)
Não se pode nem mesmo descartar a possibilidade de que vários desses textos tivessem intenções satíricas já na quadra em que foram escritos, porquê é o caso da narrativa de Jonas e a baleia, também citada pelo humorista Jafé. Mas, para explorar esse potencial recta, talvez seja necessária uma intimidade e empatia com as histórias originais que não parece estar presente cá.
Supra de tudo, a disposição para germinar, embora mostre inegável coragem, não é acompanhada do imprescindível: a capacidade de provocar risadas, que é escassa no próprio. O humor é capaz de entupir uma povaréu de pecados —menos o vício capital de ser, no término das contas, simplesmente sem perdão.
