A filósofa e escritora Sueli Carneiro, 75, foi agraciada na noite de sexta-feira (28) com o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano. O reconhecimento é facultado pela União Brasileira dos Escritores (UBE) e celebra o lançamento em 2024 de “Lélia Gonzalez: Um retrato” (Zahar), escrito por Carneiro e que trata de um tentativa biográfico sobre outra intelectual do movimento feminista latinoamericamo.
A entrega do prêmio se deu durante a Flipetrópolis, sarau literária que está na sua segunda edição acontecendo na região serrana do Rio de Janeiro.
Em seu exposição, Sueli Carneiro agradeceu às pessoas que a antecederam na apresentação do prêmio e destacou porquê o momento representa um deslocamento histórico, já que, até cinco anos, todos laureados pela premiação foram brancos, em sua maioria homens.
A premiada saudou ainda Lélia Gonzalez que, nas suas palavras, foi o farol para entender o que queria ser porquê militante. A autora também prestou tributo à escritora mineira Conceição Evaristo, que subiu a Serra já completando 79 anos neste sábado em meio a outro festival literário, a Flup.
“Ser reconhecida, hoje, porquê uma das principais vozes do pensamento pátrio é um pouco inusitado. Inusitado não no sentido da inadequação, mas do deslocamento histórico que revela. Sou antes de tudo uma militante negra, feminista e antirracista.”
Reverenciou Abdias Promanação. “É desse pretérito que brota o espanto que sinto diante das homenagens que eu, Conceição, Lélia e tantas outras temos recebido. Não porque não as merecemos, mas porque sabemos a intervalo histórica para nós.” Da americana bell hooks trouxe a frase “mais que qualquer grupo de mulheres as negras tem sido consideradas só corpos sem mente” e depois leu um poema de Fernanda Bastos sobre o leilão de mulheres negras porquê amas de leite durante a escravidão.
Mais adiante fez um destaque sobre a incoerência do momento “porque longe de amainar, o conflito racial se acirra no Brasil. A subida global e pátrio da extrema direita traz em seu bojo a agudização das práticas racistas, e sobretudo da violência racial. A brutalidade que ceifou 121 vidas nos complexos do Teutónico e da Penha atesta esse recrudescimento. São corpos negros, sempre corpos negros, transformados em alvos legítimos de políticas de morte”.
Antes a jornalista Flávia Oliveira, articulista do ducto Globonews apresentou Sueli para o público destacando o papel da filósofa a partir de seus livros e traços do seu comportamento, porquê não falar de improviso, mas ortografar e também o papel da ganhadora do prêmio na Conferência de Durban, e consequentemente na implementação das políticas de ações afirmativas e mais recentemente a incidência sobre reparação pelo empoderamento econômico no sistema internacional de direitos humanos.
A eleição para o prêmio acontece a partir de indicações da própria união de escritores e de outras entidades do meio literário, a votação entre associados da UBE. Em edições anteriores foram agraciados os escritores Ailton Krenak, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Jorge Querido e Milton Hatoum, o professor e crítico literário Antonio Candido, o diplomata e imortal da ABL Alberto da Costa e Silva, o economista Bresser-Pereira, Dom Evaristo Arns e o Padre Júlio Lancellotti.
Na ocasião, a jornalista Miriam Leitão e Conceição Evaristo, agraciadas respectivamente em 2024 e 2023 falaram no Palácio de Cristal, localizado no Núcleo de Petrópolis. “O que é incrível na Sueli, é que ela é pensadora e ela é ação”, disse Miriam sobre a autora.
Conceição revelou porquê é bom transfixar caminho e não exclusivamente ser a primeira, se referindo a ter sido a primeira mulher negra ganhando o prêmio. “Se todas mulheres negras tivessem sido tão corajosas porquê você, várias outras mulheres negras estariam cá celebrando com você, estamos em tempo mas ainda falta muito”.
Doutora em Filosofia da Instrução pela USP, Sueli Carneiro foi a primeira mulher negra a receber o título de doutora honoris justificação pela Universidade de Brasília (UnB) em 2021. Antes, foi uma dos fundadores do Geledés – Instituto da Mulher Negra, organização que visa combater o racismo e o sexismo no Brasil. Em 2022, foi reconhecida porquê “Personalidade Literária do Ano” pelo Prêmio Jabuti.
Ao término do exposição, a autora fez uma convocação aos presentes: “por um Brasil capaz de reconhecer, comemorar e aprender com todas as suas vozes —mormente aquelas que por tanto tempo foram silenciadas. Para nós, é tempo de insurgência, mas há também a urgência de reencantamento do mundo. Disso depende a possibilidade de um novo porvir. Que estejamos à fundura desses desafios”.
