O final da Guerra do Vietnã deu lugar a uma filmografia por vários títulos ilustre. De “De Volta para Morada” a “Rambo”, de “Apocalipse Now” a “O Franco Atirador”, de “Platoon” a “Pecados de Guerra”, Hollywood revirou as feridas da guerra. Mas nenhum desses filmes captou com tanta intensidade os ecos da roteiro moral que representou o Vietnã para os Estados Unidos quanto “Taxi Driver”. E talvez nenhum deles seja um retrato tão magníloquo do que foi o pós-Vietnã.
No filme, nem vem ao caso o Vietnã, exceto talvez pelo veste de Travis, personagem de Robert De Niro, ser um veterano de guerra. O que vem ao caso, porquê sempre em Martin Scorsese, é Novidade York. E a Novidade York que ele via nos anos 1970 não era exatamente o melhor lugar do mundo.
“Estou lhe dizendo, a rua 42, a Oitava Avenida, era o inferno filmar nesses lugares. Na minha cabeça era porquê uma coisa bíblica —inferno, danação, Jeremias, e um dia uma chuva de verdade havia de tombar.” Assim Scorsese resumia no livro de entrevistas a Richard Schickel sua visão da cidade naquele momento. Em paralelo, Travis falava de uma chuva “de verdade, que iria varrer o lixo das ruas”. O personagem é invadido por um sentido bíblico de vingança, limpeza, ordem, talvez.
O catolicismo já era a marca do pensamento de Scorsese. E em seu Travis ele via o fanatismo típico de indivíduos que, porquê disse, são capazes de destruir uma lugarejo exclusivamente porque ali as pessoas não acreditam em Deus.
A isso acrescentava a solidão, as inúmeras rejeições, o sentimento de não pertencimento a um grupo, assim porquê o veste de ser um motorista de táxi, de circunvalar continuamente por aquelas ruas “perturbadoras”, nos dizeres de Scorsese. De quebra, ou porquê resultado de tudo isso, Travis era, sim, um psicótico.
Mas o filme deve muito a Paul Schrader, seu roteirista, que vinha da tradição protestante e com personagens que, até hoje, lutam para superar um vício original, enfrentando criminosos porquê forma de chegarem a uma sossego de espírito que raramente conseguem atingir.
Talvez um dos grandes méritos do filme tenha sido gerar o contraste entre o submundo de Novidade York, habitado por figuras porquê a jovem Iris, vivida por Jodie Foster, e a fúria que desperta em Travis esse mundo de “putas, sodomitas, gays, traficantes, viciados”. Sua repulsa contra a escória do mundo, ou o que ele julga ser, é também obscena, porque não considera o mundo porquê ele é, mas porquê, em sua cabeça, deveria ser.
Não por eventualidade, Scorsese fala de “um filme perturbador de fazer”. De ser filmado em Novidade York por alguém nascido e criado em Novidade York. Até evidente ponto, um filme perturbador também de ver. Talvez por isso, embora tenha vencido a Palma de Ouro em Cannes, Scorsese não levou o Oscar.
Foi a primeira de uma série de vezes em que foi rejeitado pelos colegas da Liceu de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, talvez pela violência que mostrava desde logo em seus filmes.
Mas seria a violência o ponto escandaloso de tudo? Ou o veste de Travis, depois de provocar um massacre, ser considerado um herói? A violência explícita de “Taxi Driver” é até modesta perto do que outros filmes costumam mostrar.
A violência presente em cada gesto, em cada sentença facial de Travis talvez seja, ainda hoje, o que existe de mais perturbador no filme. Entre outras coisas, porque a solidão e a sensação de não pertencimento são aspectos muitos fortes em qualquer sociedade, mas nos Estados Unidos explodem com frequência até supra do razoável.
Existe ainda o outro lado, das misteriosas figuras femininas. São duas e em perfeita oposição, a elegante Betsy, vivida por Cybill Shepherd, que representa, na cabeça de Travis, a pureza feminina, e Iris, prostituta aos 12 anos, que representa seu oposto, a perdição a que uma moçoila foi atirada. Se o submundo de Novidade York é um esgoto, há que tratar esse esgoto —salvar Iris, culpar seu cafetão etc.
Travis ainda é um insone. Uma vez que não consegue dormir, procura o trabalho noturno de motorista de táxi. Ele não considera isso um mal a ser resolvido, longe disso. A insônia tornou-se o seu ser, aquilo que organiza suas ideias. E, porquê se sabe, elas costumam ser catastróficas. Acredita em matar um político porquê forma de salvar o mundo —ou o país, ou a cidade, tanto faz.
Eis um dos aspectos que tornam “Taxi Driver” atual, muito atual, ainda hoje. Nesses últimos 50 anos, as pessoas tornaram-se mais distantes umas das outras do que eram. Os encontros são mais raros, mediados por redes sociais, as associações profissionais, porquê sindicatos, ou de afinidade, porquê partidos políticos e clubes sociais, parecem mais frágeis. Travis é um personagem do pós-Vietnã, mas é, também, do nosso século 21.
O fanatismo e o caráter extremista de suas crenças ganharam espaço no novo século. Assim porquê frequentamos as redes sociais assiduamente, somos mais distantes das pessoas reais. Odiá-las à intervalo, por exemplo, é muito mais simples do que tentar compreendê-las. É porquê Travis —o universo acontece em sua cabeça, é inteiro. A veras, uma espécie de incômodo a ser transposto.
“Taxi Driver”, que com ou sem Oscar consolidou Martin Scorsese porquê cineasta necessário da modernidade nos Estados Unidos, é um filme vivo e doloroso —porquê nosso tempo.
