Tela de Tarsila vai para chão da casa de herdeiro

Tela de Tarsila vai para chão da casa de herdeiro do Itaú – 16/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Um quadro de Tarsila do Amaral tem gerado burburinho no mundo da arte desde que apareceu no solo da mansão do ex-presidente do Itaú, Roberto Setubal, escorado numa parede. É “Sol Poente”, de 1929, uma pintura da período mais valiosa da artista, da mesma idade em que criou “Abaporu”, sua obra máxima.

Escopo de uma disputa judicial, “Sol Poente” foi visto numa publicação no Instagram de Daniela Fagundes, a ex-mulher do banqueiro. Aparentemente sem querer, ela enquadrou a obra no fundo de uma imagem. O post, feito no ano pretérito, ficou minutos no ar. O tempo, porém, foi suficiente para muita gente ver, registrar e dar início aos rumores.

“Sol Poente” foi um dos quadros recuperados em agosto de 2022 numa operação policial. Ele havia sido furtado de sua dona, Geneviève Boghici, viúva de Jean Boghici, um dos principais colecionadores e negociantes de arte do Brasil, morto há dez anos. Essa pintura de Tarsila foi encontrada pela polícia embaixo da leito no apartamento de uma das acusadas do transgressão.

O caso, com ares cinematográficos, vai virar uma série da HBO. Geneviève foi vítima de um golpe orquestrado por uma de suas filhas, Sabine, e por uma suposta quiromante. A dupla, junto a seus comparsas, teria oferecido serviços espirituais à idosa e a mantido em cárcere privado durante um ano para furtar obras de sua coleção, com um prejuízo estimado em R$ 725 milhões.

Avaliada em R$ 250 milhões pela Justiça, “Sol Poente” é uma pintura a óleo de 54 por 65 centímetros onde um sol se espalha, em arcos laranjas e amarelos vibrantes, pelo firmamento de uma paisagem povoada por formas que remetem a cactos e capivaras. Uma das obras mais caras da rabi do modernismo brasílio, é procurada por museus dentro e fora do Brasil para exposições da pintora.

Agora, também é procurada pela Justiça, que pede que Geneviève informe o paradeiro da pintura. “Está comigo, num lugar seguro”, afirma ela, numa conversa por telefone nesta segunda-feira. “Não vou expor nem se está no setentrião nem no sul. Está muito zelo”, responde, ao ser questionada se o quadro está em sua mansão.

Geneviève, de 86 anos, diz que “Sol Poente” está com a sua família há mais ou menos meio século. Ela e o marido tiveram a obra pendurada numa parede do quarto, “o melhor lugar da mansão”, diz.

Geneviève herdou esta e mais de 200 obras de arte. Fazem secção da legado outras duas telas de Tarsila, “O Sono”, avaliada em R$ 300 milhões, e “Pont Neuf”, em R$ 150 milhões, ambas alvos do mesmo processo judicial e também recuperadas pela polícia na ocasião em que o golpe contra ela foi desvendado. “Evidentemente estão comigo, em lugar seguro”, diz Geneviève.

No processo contra a viúva, que corre em sigilo, ela é intimada a propalar a integralidade da legado, incluindo todas as obras de arte que seu marido deixou, para que elas possam ser listadas no inventário junto com os imóveis da família e divididas entre os herdeiros.

Além de Geneviève —que tem recta à metade dos bens amealhados pelo parelha—, há sua filha Muriel e o espólio de sua outra filha, Sabine, representado por um inventariante nomeado pela Justiça. Sabine se suicidou há pouco mais de dois anos, depois de permanecer alguns meses presa, acusada do golpe, e trespassar da ergástulo.

Sabine era casada com Rosa Stanesco, que tem um rebento adotivo, e fez um testamento deixando toda a sua legado para a muchacho, hoje um pré-adolescente. Mas, a união das duas é fim de uma ação anulatória na Justiça, assim uma vez que o testamento. O garoto não é rebento adotivo de Sabine, exclusivamente de Stanesco.

Ainda segundo o processo, Geneviève não declarou ao espólio outras 18 obras de arte de nomes uma vez que Rubens Gerchman, Antonio Bandeira, Cicero Dias, Maria Martins, Almir Mavigner e Rubem Valentim, num totalidade de murado de R$ 48 milhões. Os trabalhos foram vendidos a alguns dos galeristas mais ricos do país, anos depois da morte de seu marido.

Procurados pela Justiça, os compradores apresentaram os recibos de compra e os comprovantes de pagamento de todas as obras.

Questionada se vendeu obras de arte que deveriam constar do inventário, Geneviève diz que “não vai comentar zero”, que “o juiz pode saber” e que “processo judicial é processo judicial”. Há uma leveza em seu jeito de falar mesmo quando confrontada com assuntos complicados. “É tanta patranha, tanta calúnia, que eu prefiro não responder”, acrescenta, sobre os rumores acerca da legado.

De contrato com uma manadeira próxima ao processo do inventário, a viúva deveria ter informado e também pedido autorização para a Justiça antes de vender qualquer obra, porque os bens da legado são indivisíveis até a partilha. Ou seja, os quadros, incluindo as telas de Tarsila, precisariam permanecer congelados até o final dos trâmites legais, sem circunvalar pelo mercado.

Quadro no solo

Mas, logo, uma vez que “Sol Poente” foi parar no solo da mansão de um banqueiro bilionário? Daniela Fagundes, a ex-mulher de Roberto Setubal, disse em publicações no Instagram que a obra havia chegado até a mansão deles, no ano pretérito, via galeria Almeida & Dale, a mais poderosa do Brasil.

A Almeida & Dale, afirmou Fagundes, também teria enviado um email a Setubal solicitando que ele pedisse para sua ex-mulher extinguir a publicação onde o quadro de Tarsila aparecia, porque a obra estava envolvida em problemas judiciais.

Consultada, a galeria Almeida & Dale informa que “não possui qualquer registro, documento, consignação ou operação envolvendo a obra ‘Sol Poente’”, a mesma explicação que deu para a Justiça, de contrato com os processos aos quais a reportagem teve entrada. A galeria não comentou o suposto pedido que teria feito a Setubal para sumir com a obra do Instagram de sua ex-mulher.

Setubal não falou com a reportagem. De contrato com uma pessoa próxima a ele, o quadro lhe foi oferecido e esteve em sua mansão —praxe no mercado para obras de valor proeminente—, mas ele se deu conta que o negócio não era bom, porque a obra tinha uma situação jurídica complicada, e não comprou a tela.

O informante não quis recontar quem ofertou a pintura ao banqueiro. Geneviève, por sua vez, afirma nunca ter negociado “Sol Poente” com a Almeida & Dale ou com qualquer outra galeria. Ela diz que a obra ter aparecido numa foto na mansão de Setubal é resultado da perceptibilidade sintético.

“É tudo patranha. O quadro nunca saiu de perto de mim, logo uma vez que? É uma retrato. Pode ser uma traslado do quadro. E bota na mansão de uma digníssima senhora, muito conhecida, que teria exigência de comprar uma Tarsila”, diz.

Ela acrescenta que, se um dia vender o quadro, o mundo inteiro vai permanecer sabendo, e se diz horrorizada com o lugar devotado a uma das obras máximas da pintura brasileira na mansão de Setubal. “O lugar estava muito mal escolhido. O quadro estava lá embaixo de uma pilar com vários quadros, o da Tarsila é o último, lá embaixo. Passa um cachorro ali, faz xixi em cima. Uma Tarsila tem que ter um lugar de destaque.”

Folha

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