A atriz Monalisa Silva dá o tom lúgubre logo de início — suas expressões faciais, a tensão contida em cada músculo, a forma uma vez que seu corpo se torce parecendo carregar o peso de histórias não ditas são cruciais para a mergulho no horror que se desdobra em “Estratagemas Desesperados”. A peça, dirigida e encenada por Amanda Lyra (que também assina a dramaturgia ao lado de Juuar), começa com um silêncio denso, uma presença que anuncia: o verdadeiro terror, não é o que vem de fora, mas o que está dentro de nós. É aí que Carlota Joaquina, Stella Rabello e a própria Lyra se juntam a Silva para dar vida a um coro de mulheres que não sangram exclusivamente dor, mas também revolta.
A lar que Lyra e Juuar constroem no palco do Sesc 24 de Maio respira os ecos de três vozes literárias que reinventaram o horror contemporâneo: Mariana Enriquez, María Fernanda Ampuero e Layla Martinez. Se em “Quarto 19” (peça que estreou em 2017) Lyra dialogava com o universo psicológico de Doris Lessing, cá ela mergulha de cabeça no realismo turvo dessas autoras ibero-americanas, para quem o sobrenatural nunca vem osco de fantasia, mas sim escancarado uma vez que metáfora social.
Enriquez, Ampuero e Martinez escrevem sobre corpos que sangram desigualdades. Seus contos, agora adaptados para o palco, trazem mulheres que não se contentam em ser vítimas: elas devolvem a violência, transformam o pavor em arma, o libido em estratégia de guerra. O que em Lessing era crise identitária solitária, nessas autoras se torna revolta coletiva. A lar não é mais o quartinho dos fundos onde uma mulher se esconde – é um organização inteiro que pulsa com histórias de vingança, preocupação e resistência.
A genialidade da adaptação está em uma vez que a montagem tomada a núcleo literária dessas autoras sem desabar na ilustração cênica. Enriquez está presente na atmosfera claustrofóbica onde o político e o sobrenatural se confundem; Ampuero ecoa nas personagens que transformam a dor doméstica em narrativas cortantes; Martinez surge nas reviravoltas onde o libido e o horror se tornam indistinguíveis. Juntas, elas formam um coro contemporâneo que responde, décadas depois, aos dilemas lessingianos: se em 1963 a questão era “uma vez que manter a identidade num mundo que te fragmenta”, hoje a pergunta virou “uma vez que explodir esse mundo que insiste em te engolir”.
O espetáculo mostra sem pudores mulheres que erram, que acertam, que são ao mesmo tempo vítimas e algozes. Porquê nas obras originais dessas autoras, o terror cá não está no monstro sob a leito, mas na sociedade que criou o monstro e depois se recusa a olhar para ele. Quando as luzes se acendem, não sabemos se devemos torcer pelas personagens ou temê-las – e é exatamente esse desconforto que prova o acerto da adaptação. Enfim, uma vez que escreve Enriquez em seus contos, “é dentro de nós que surgem os monstros”.
Três perguntas para …
… Amanda Lyra
Você mencionou que o horror dessas autoras é dissemelhante do europeu. Porquê definiria o “horror latino-americano” que inspirou a montagem?
Acho que essas autoras trabalham mais com uma perspectiva documental, calcada na veras, para abordar os temas do horror. O vampiro, a feitiçeira, os fantasmas e outros monstros vieram da cultura popular europeia e foram retrabalhados por autores de lá.
Essas autoras trabalham mais com temas da veras, mas pela lente do horror, para provocar estranhamento em relação ao que se aceita uma vez que normal. O tecido de fundo delas é político e social. A Mariana Enriquez trata da ditadura, dos desaparecidos – estes são os fantasmas dela. Também aborda o processo de colonização, a escravidão, a vexação de gênero. Países uma vez que o México e outros da América Latina, campeões em violência contra a mulher, são temas frequentes.
Os monstros, na verdade, somos nós e nossa organização em sociedade, a família burguesa. Maria Fernanda Ampuero, por exemplo, trabalha muito com a violência e o horror dentro de lar – não só a violência doméstica, mas as estruturas familiares, as relações filiais.
Elas exploram o horror que está dentro de lar, nas relações, no consórcio burguês, nas diferenças de classe. Tudo o que forma nosso continente, tão marcado por violências históricas, é a base que elas usam para trabalhar esse horror.
Além do seu trabalho na direção, você também atua no espetáculo. Porquê é estar simultaneamente dentro e fora da cena, dividindo-se entre atriz e diretora?
É a primeira vez que vivo isso, e realmente é uma loucura de experiência, um grande tirocínio. Mas teria sido impossível sem a Juuar dirigindo a peça junto, porque chega um momento em que, mesmo estando dentro, preciso de alguém de fora.
Nossa parceria foi muito frutífera, não só por ela estar de fora, mas pelo pensamento dela em relação ao trabalho e essa interlocução jacente. Foi vital para que eu pudesse me ausentar um pouco da direção e estar em cena.
Sou uma atriz que trabalha muito com geração, levando cenas, propostas dramatúrgicas, e penso muito de dentro da cena. Acho que a vontade de encaminhar veio um pouco daí – já penso o fora, a direção, a geração, mesmo estando dentro. Muitos atores têm essa qualidade de estar dentro e ainda assim se ver de fora, organizar o espaço. Sempre me interessei por isso.
Estar dos dois lados está sendo muito interessante, trabalhando esse olhar. Mas, de novo, teria sido impossível sem a Juuar. Há momentos em que preciso me entregar uma vez que atriz, e tem coisas que não consigo ver de fora. Foi um trânsito interessante, de muito tirocínio sobre uma vez que estar dentro, estar fora, e essas mudanças no olhar.
De “Quarto 19” a “Estratagemas Desesperados”, parece possuir um movimento do individual para o coletivo. Porquê você vê essa evolução na sua pesquisa sobre identidade feminina e espaços opressivos?
Há uma ininterrupção de pesquisa sobre a identidade feminina e, mais do que isso, sobre que tipo de personagem mulher temos retratado ao longo do tempo.
Em “Quarto 19″, a personagem se suicida no final, incapaz de mourejar com as pressões do consórcio e da maternidade. Num debate, uma senhora perguntou: “Por que a gente sempre morre no final? Por que a gente também não pode matar? Ou a gente morre assassinada ou a gente se mata?” Essa pergunta me marcou. Onde estão as personagens que não sucumbem? Sempre ouvimos as histórias das que sucumbem, e isso molda nosso imaginário. Minha pesquisa começou aí, na procura por material onde essas personagens estejam em outro patamar em relação aos seus desejos, suas ações no mundo, ao próprio papel de vítima.
Há um caminho de “Quarto 19″ até cá. A lar ainda é um espaço opressivo. Lá, ela foge para um hotel, onde existe sem nenhum papel. Em “Estratagemas”, a lar também é opressiva, retratada no cenário uma vez que um contraponto ao espaço doméstico. Essas histórias mostram que não há apaziguamento nesse papel da mulher em lar, supostamente conformada com funções domésticas e maternais. O libido é muito mais multíplice.
Em muitos contos que pesquisamos, a lar é um elemento potente. O terror quase sempre está dentro dela. São perguntas clássicas do gênero: Essa lar me protege? O transe está lá fora ou cá dentro? O espaço opressivo se mantém, físico e simbólico, ligado ao papel antepassado da mulher no zelo, na domesticidade.
“Quarto 19” era um solilóquio; agora, são quatro atrizes e quatro histórias. É interessante explodir essas narrativas em possibilidades múltiplas. Mulheres diferentes, com desejos diferentes, mas ligadas por esse estratagema desesperado de fugir de certas constatações, de certos papéis, das caixas em que somos colocadas.
Sesc 24 de Maio – rua 24 de Maio, 109 – República, região meão. Qui., 19h. Sex., 20h. Sáb., 17h e 20h. Dom., 18h. Até 10/8. Duração: 90 minutos. A partir de R$18 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades
