Ver a “Triste! Triste… Triste?” é testemunhar um valedoiro estabilidade entre a visão do diretor e a realização do ator. A encenação de Nicolas Ahnert e a performance de Thalles Cabral se complementam com uma sintonia que transforma levante solilóquio sobre luto em uma experiência cênica comovente.
A concepção de Ahnert revela um olhar sensível e inteligente para a materialidade do teatro. Sua escolha do espelho d’chuva uma vez que cenário mediano não é exclusivamente poética, mas funcional – cria um espaço onde cada movimento do ator ganha dupla existência, tanto na veras quanto no revérbero. Ahnert demonstra um zelo notável em evitar o excesso dramático, optando por uma encenação que valoriza os silêncios e as pausas, permitindo que a história respire entre os gestos.
Sobre esta superfície líquida, Thalles Cabral constrói uma performance de precisão e verdade. Seu trabalho vai além da simples representação – ele habita o espaço com uma naturalidade que torna palpável a jornada do personagem. Cabral transita entre o humor ácido e a vulnerabilidade com uma organicidade impressionante, nunca forçando as emoções, mas deixando que surjam uma vez que consequência proveniente da narrativa.
O grande acerto da direção está em responsabilizar no poder da simplicidade. Ahnert cria um envolvente propício para que Cabral trabalhe com nuances – um olhar, um sorriso contido, uma pausa mais longa – que revelam mais sobre o personagem do que qualquer exposição grandioso. Em retorno, Cabral responde com uma entrega generosa, usando seu corpo para viver verdadeiramente as contradições do luto.
Há momentos particularmente felizes nessa parceria criativa: quando Cabral caminha lentamente pela chuva, criando ondulações que distorcem seu revérbero, ou quando se senta à margem da passarela, deixando os pés mergulhados na superfície espelhada. São escolhas que unem a precisão da direção à sensibilidade do ator, criando imagens que permanecem na memória.
Três perguntas para…
… Nicolas Ahnert
Você enxergou no romance de Gabriel Abreu uma “dimensão intrinsecamente teatral” nos arquivos físicos do livro (cartas, fotos, diários). Porquê essa materialidade dos documentos se traduziu em cena, para além de serem meros adereços?
O hibridismo de linguagem adotado pelo Gabriel me soou, desde a primeira leitura, uma vez que um recurso que escancara a angústia do próprio fruto em tornar a mãe novamente presente. Ao longo do livro, sentia uma vez que se a mãe estivesse sempre tentando se remeter com ele, através das cartas, das memórias, e das projeções que ele cria sobre ela. Porquê, logo, torná-la presente em cena, mesmo ausente? A tela surge uma vez que o corpo virtual dessa mãe: uma presença que escreve, observa, e intervém, ainda que sem voz. Os textos e vídeos são memórias despertadas pelas provocações do fruto.
A luz e o som, muito além de exclusivamente situar a personagem em um envolvente, são vozes dessa mãe: respondem, reagem e interferem no que é dito e feito em cena. Nunca enxerguei “Triste” uma vez que um simples solo, mas uma vez que um encontro de linguagens que, lado a lado, ajudam a narrar essa história. Thalles é o fruto, mas a mãe se manifesta em tudo o que o tapume. Esses elementos não exclusivamente dialogam com ele, mas são ela. Eles coexistem, se entrelaçam e se dissolvem um no outro, até que mãe e fruto se tornem um.
A escolha do espelho d’chuva uma vez que cenário mediano é extremamente potente. Porquê surgiu essa teoria e o que você buscava simbolizar ou provocar com essa superfície instável e reflexiva?
A chuva sempre foi um símbolo poderoso quando falávamos em memórias. Assim uma vez que o líquido, a memória é duvidosa, mutável, impossível de se responsabilizar. Eu também precisava produzir um espaço que colocasse o ator no mesmo estado de instabilidade que a personagem se encontra, um envolvente que fosse tão nebuloso e volúvel uma vez que a memória da mãe na qual o fruto mergulha. A chuva também é placenta, é o mar do Rio de Janeiro, é a liquidez turva do córtex da mãe. Pareceu a solução perfeita.
Nunca quis um cenário naturalista. Precisávamos produzir uma veras própria, sem ilustrações, que fortalecesse o simbolismo que queríamos erigir. A parceria com o Pazetto foi principal para isso. Todos os objetos são transparentes, assim uma vez que os líquidos. O fruto se embriaga das memórias da mãe, na mesma medida em que os signos são esvaziados, permitindo que a plateia os preencha com seus próprios significados. Não há cartas, ou cadernos. A caixa que o fruto encontra é a plataforma onde o ator pisa. Tudo é memória. Tudo é líquido. O teatro permite essa cumplicidade: oferecemos os símbolos, e o público os preenche com o que possui de mais íntimo.
Thalles Cabral tem uma trajetória sólida, incluindo um trabalho também quebrável em “Amadeo”, de Nelson Baskerville. O que na qualidade dele uma vez que ator você identificou uma vez que ideal para protagonizar levante duelo de um solilóquio de 70 minutos?
O Thalles sempre me interessou uma vez que ator porque carrega um mistério. Mas, na mesma medida em que esconde, ele se revela com humor, descaramento e uma vulnerabilidade rara. Era exatamente essa alquimia que eu precisava. Compartilhamos muitas referências artísticas, e por isso o processo de construção do fruto aconteceu de forma proveniente. Desde o início, nossa preocupação foi menos em enquadrá-lo em uma marcação, e mais em conhecê-lo.
Escrevi o texto pensando em uma vez que o Thalles-ator poderia dizê-lo, e acredito que chegamos onde queríamos: um texto que coubesse confortavelmente em sua zona de desconforto. Explico: um texto que fosse feito para ele, mas que o mantivesse em regular estado de alerta e presença. Não há espaço para distanciamentos. Ele precisa estar inteiro, vivo, vulnerável, para que a peça aconteça. Não exclusivamente por ser o único em cena, mas pela profundidade e pela velocidade com que transita entre linguagens, emoções e situações tão distintas. É um duelo imenso, e sigo acreditando que ele foi a escolha ideal.
Teatro do Núcleo Experimental – rua Barra Fundíbulo, 637, Barra Fundíbulo, região oeste. Sáb. e seg., 20h. Dom., 19h. Até 30/11. Duração: 70 minutos. A partir de R$ 40 (meia-entrada) em sympla.com.br
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