Depois de Travis Scott passar menos de 50 minutos no palco durante o principal show do festival The Town neste sábado, 6, o Green Day decidiu fazer o extremo oposto e permanecer quase duas horas tocando para seu público neste domingo.
As versões picotadas, reduzidas e emendadas das músicas que o trapper americano mostrou no Skyline ontem deram lugar a faixas estendidas —mas nunca em excesso—, muita interação com a plateia e uma performance com força subida, típica do grupo punk americano.
Também foi o que seu público, mais velho que os jovens atraídos ao Autódromo de Interlagos pelo lineup de ontem, esperava.
Uma das poucas semelhanças entre os públicos dos artistas estava na presença dos sinalizadores, que apareceram às dezenas nos dois shows. No caso do Green Day, a margem nem tinha subido ao palco quando os primeiros foram acesos.
Outra semelhança foi o uso de ícones visuais pelo público. Scott teve seus óculos copiados no sábado, enquanto o público optou neste domingo por vestir a famosa gravata vermelha usada pelo vocalista Billie Joe Armstrong.
O grupo americano, que já tocou outras quatro vezes no Brasil, voltou às vésperas de completar 40 anos de curso e depois de ter feito um dos melhores shows da edição de 2022 do Rock in Rio, festival carioca dos mesmos criadores do The Town.
A apresentação de hoje seguiu um roteiro parecido ao da última vez por cá. Começou com “Bohemian Rhapsody” do Queen e “Blitzkrieg Bop” dos Ramones tocadas na íntegra. Depois, enquanto eles entravam no palco, veio uma colagem da Marcha Imperial da franquia “Star Wars”, “We Will Rock You”, do Queen, e “I Love Rock ‘n’ Roll”, famosa na voz de Joan Jett.
O show seguiu com as mesmas primeiras quatro canções da apresentação de três anos detrás no Brasil. Primeiro veio “American Idiot”, um dos mais importantes sucessos da margem e fita que dá nome a seu maior álbum, lançado em 2004. A imagem de revestimento —uma mão esquerda segurando uma granada em forma de coração— foi reproduzida, enorme e inflável, no fundo do palco.
Na quadra, o exposição anti-nacionalista do trabalho foi impulsionado pela repudiação ao logo presidente americano George W. Bush. Hoje, a música sobre a desvairo americana é atualizada para o contexto do governo do republicano Donald Trump.
No show, Billie Joe troca o verso original em que diz que não faz segmento da agenda “redneck”. Agora, canta que não quer integrar a “agenda MAGA” —uma referência às iniciais do slogan “Make America Great Again” do atual presidente americano.
Depois, no hino anti-guerra “Holiday”, ele troca “Califórnia” por “São Paulo” num pedaço em que critica o “representante lugar”. No Rock in Rio, quando tocou sob o governo Bolsonaro, o lugar que citou foi o “Brasil”.
Emendando a música no próximo hit explosivo, “Know Your Enemy”, o grupo convidou uma fã para trovar um verso da música —outro clássico de suas apresentações. Antes do show, o telão mostrou a convidada da última vez deles por cá segurando uma placa com “obrigada por me deixar tocar no Rock in Rio” escrito nela.
O Green Day, formado por Armstrong, o baixista Mike Dirnt e o baterista Tré Cool, dá uma lição de interação com o público ao longo da apresentação.
A margem tem uma atitude de punk moleque, capitaneada por um vocalista de carisma imenso. Ele zanza pelo palco, levanta uma bandeira do Brasil jogada pela plateia, vira o microfone para ouvir o público e o labareda o tempo inteiro.
Também fala sério muitas vezes, sempre sobre política —isso além das mensagens que suas músicas já carregam. No show deste domingo, desejou mais de uma vez um feliz Dia da Independência para os brasileiros e voltou a criticar políticos corruptos depois de trovar “Letterbomb”.
“Nós já estamos cheios desses políticos, desses bastardos fascistas. Logo não queremos saber mais deles, não nesta noite, não no Dia da Independência”, disse.
Também pediu para que os fãs curtissem juntos. “Nós estamos cá por desculpa de nossas famílias e amigos. Logo eu peço que vocês olhem para quem está ao lado de vocês, porque hoje nós estamos bebendo, fumando, dançando e cantando junto com estranhos”.
A apresentação ainda empilhou músicas de “Dookie”, de 1994, o álbum que colocou o grupo no planta —dele aparecem “Basket Case”, “Longview”, “Welcome to Paradise” e “When I Come Around”. Até as duas faixas escolhidas do mais recente “Savior”, do ano pretérito, “Dilemma” e “Bobby Sox”, foram celebradas.
Embora tenha seguido um script muito parecido com o da visitante passada —e com os shows que faz ao volta do mundo—, o Green Day consegue entregar um tanto de único toda vez que sobe ao palco. É uma viagem no tempo para quem os ouvia décadas detrás, mas também um espetáculo hipnotizante musicalmente para quem não acompanha sua curso.
A margem deixou o palco em meio a uma explosão de confetes virente e amarelos, com a plateia gritando seu nome. Armstrong, logo, voltou com o violão para se despedir do The Town cantando “Good Riddance (Time of Your Life)” —com Dirnt e Cool fazendo gracinhas ao seu lado.
