The town, rock in rio e a memória brasileira

The Town, Rock in Rio e a memória brasileira – 05/09/2025 – Gustavo Alonso

Celebridades Cultura

Entre os dias 6 e 14 deste mês acontece a segunda edição do festival de música The Town, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. O The Town foi criado em 2023 pelo empresário Roberto Medina – mesmo instituidor do Rock in Rio. Desde logo, numa lógica empresarial-musical, Medina alterna anos pares e ímpares, cada um com um festival de sua marca.

Criado em 1985, o Rock in Rio se consolidou uma vez que um dos maiores eventos musicais do planeta. Além da versão carioca, já houve Rock in Rio em Lisboa, Madri e Las Vegas. O The Town é a versão paulista do Rock in Rio. Com megaestrutura, line-ups estelares e um marketing ofensivo, o Rock in Rio se tornou sinônimo de festival de música no Brasil para as novas gerações.

É inegável que o Rock in Rio tem méritos. No entanto, sua preponderância, apoiada na narrativa de ser “o primeiro e maior”, tende a extinguir a existência de eventos que pavimentaram o caminho. Mas quais foram estes festivais?

Com inspiração no famoso festival de Woodstock de 1969, surgiu nos anos 70 uma série de festivais que não viraram produtos bem-sucedidos, mas marcaram era. Foi o caso do Festival de Verão de Guarapari, que aconteceu em fevereiro de 1971, na região de Três Praias, no Espírito Santo. Apesar das falhas técnicas e deficiência estrutural, o festival reuniu grandes nomes da música brasileira uma vez que Milton Promanação, Os Novos Baianos, Luiz Gonzaga e Tony Tornado.

Mais bem-sucedido foi o Festival de Águas Claras, um dos mais importantes da história da contracultura brasileira. Foram quatro edições (1975, 1981, 1983 e 1984) realizadas na Quinta Santa Virgínia, na cidade de Iacanga, no interno de São Paulo. Sobre leste festival há o ótimo documentário “O barato de Iacanga”, na Netflix, no qual se vê a participação até de João Gilberto, em raríssima apresentação ao ar livre, no mesmo palco onde pisaram Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, Gilberto Gil, Alceu Valença, Armandinho, Dodô & Osmar, Egberto Gismonti, Fagner, Sivuca, Premeditando o Breque, Sandra Sá, Paulinho da Viola, Sá & Guarabyra, Erasmo Carlos e Wanderléa.

Os da minha geração se lembram do Hollywood Rock, que entre 1988 e 1996 trouxe vários nomes do rock internacional para a terreiro da Deificação, no Rio de Janeiro. Poucos talvez saibam que a primeira edição do festival aconteceu em 1975, no Estádio de General Severiano, e contou com Celly Campello, Erasmo Carlos, Raul Seixas, Vímana, Rita Lee & Tutti-Frutti, Os Mutantes e Raul Seixas. O festival foi produzido por Nelson Motta.

Mesmo lidando com hippies pouco profissionais, Nelson Motta insistia e em 1976 organizou o festival “Som, Sol & Surf”, em Saquarema, no Rio de Janeiro, com a presença de alguns dos maiores nomes do rock brasílio. A teoria era gravar também um disco e um filme, projeto que entrou pelo tubo quando o verba acabou e o material filmado desapareceu.

Até a música sertaneja, antes dos rodeios de Barretos, tinha seus grandes festivais. Desde 1973 os cigarros Arizona promoviam o Festival Arizona da Música Sertaneja, shows realizados por todo o Brasil anualmente. Coroando o sucesso do festival itinerante, em 20 de junho 1981 os sertanejos ocuparam o Maracanãzinho, em pleno Rio de Janeiro. A música sertaneja começava a chegar às capitais do Sudeste.

Nenhum destes festivais dos anos 70 e 80 primou pelo profissionalismo. Os organizadores eram mais artistas que empresários, o que talvez explique o paisagem mambembe das produções, além da crônica dificuldade técnica com festas desse porte.

Não à toa Roberto Medina, instituidor do Rock in Rio, não era artista, mas publicitário bem-sucedido. Seu movimento foi o de profissionalizar os grandes shows, trazendo equipamentos e montando uma estrutura publicitária de divulgação. Vitorioso, fez implantar a memória de que o Rock in Rio foi o primeiro grande festival de música no Brasil. Não é verdade.

Não se trata de perder o Rock in Rio ou o The Town, mas de reconhecer a valor de preservar a memória dos outros festivais massivos da música brasileira para além dos interesses econômicos mais imediatos.


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Folha

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