Na última semana, a performance de João Gomes no Tiny Desk causou celeuma nas redes sociais. Se você ainda não ouviu falar nem de um nem de outro, talvez esteja em uma bolha que merece ser implodida.
Com meros 19 anos em 2021, João Gomes tornou-se o principal nome do piseiro. Espécie de fruto do forró, o piseiro incorpora elementos do funk e do brega, tocado com sanfona e instrumentos eletrônicos, batidas e samples.
João começou fazendo música no TikTok, quando ainda morava no sertão de Pernambuco, na pequena Serrita. Em 2021, ele lançou o disco “Eu tenho a senha” e, com o imenso sucesso da melodia homônima, passou a ser ouvido no Brasil inteiro.
Foi João Gomes o artista escolhido para inaugurar o Tiny Desk Concert no Brasil. O projeto é da rádio americana NPR e começou em 2008. É, de certa forma, o “Acústico MTV” da era do dedo. Você já deve ter esbarrado com os vídeos de uma margem tocando num envolvente referto de livros, discos, estantes e mesas com rostro de livraria de escola de subúrbio americano.
A teoria dos produtores era levar artistas acostumados a tocar plugados, com retorno de palco, luzes, cenários e cheios de parafernálias, a uma exibição mais intimista, que os aproximasse do público. O meio tem hoje mais de 3,5 bilhões de views no Youtube.
Antes de João Gomes, Milton Promanação, Liniker e Seu Jorge já haviam participado de versões americanas. Mas o vestuário de João Gomes ter sido escolhido para inaugurar o formato no país levou a um debate incendido nas redes sociais.
Afirma-se que João Gomes é um artista do “mainstream”, nacionalmente reconhecido, o que fugiria da proposta original do Tiny Desk. De vestuário, no início a NPR buscava artistas de cenas “independentes”, mormente do folk e indie rock, com pouco espaço nas mídias. Mas, sem nunca desistir essa proposta, o Tiny Desk americano também incorporou os grandes artistas que toparam dialogar com o formato intimista.
Já estiveram no Tiny Desk americano artistas gigantescos uma vez que Sam Smith, Usher, Alicia Keys, Dua Lipa, BTS, Coldplay, Justin Bieber, Harry Styles, Post Malone, Taylor Swift, Olivia Rodrigo, Ed Sheeran, Lenny Kravitz e Usher.
É interessante confrontar o Tiny Desk ao Acústico MTV dos anos 90 e 2000. Ambos projetos respondem ao “big bussiness” músico com uma proposta intimista e supostamente mais verdadeira de fazer música. E são responsáveis por reapresentar artistas do pretérito, fazendo uma seleção de melhores músicas.
O Acústico MTV tornou-se um grande resultado, influente na cultura de boa segmento do Poente. O Tiny Desk Brasil é o terceiro licenciado mundialmente, depois de Japão e Coreia do Sul. Por suas semelhanças, vale pensar uma vez que o Acústico MTV foi reapropriado no Brasil, através de caminhos muito diferentes da matriz, o que pode estar acontecendo a seu modo também no Tiny Desk.
Se nos Acústicos MTV dos EUA se destacaram os roqueiros desplugados, cá a história foi outra. No início até tentou-se o mesmo propósito. Bandas uma vez que Barão Vermelho, Marcelo Novidade e Legião Urbana participaram do programa, mas os discos não foram lançados na estação. Alguns só muito mais tarde. Os primeiros artistas nacionais que tiveram discos lançados sob a marca do Acústico MTV foram João Bosco (1992), Gilberto Gil (1994) e Moraes Moreira (1995). Depois roqueiros da dezena de 80, uma vez que Titãs, Paralamas, Ira, Lulu Santos e Marina também conseguiram gravar sob a marca.
No Brasil, o Acústico MTV elevou o rock à categoria de respeitabilidade da MPB. Apagava-se assim da memória coletiva as intensas disputas que aconteceram entre os cânones da MPB e roqueiros nos anos 80. E até artistas do samba, uma vez que Zeca Pagodinho e Paulinho da Viola foram aceitos no formato.
A fronteira do Acústico MTV era a música “popularzona” brasileira. Sertanejos, funkeiros e cantores de axé nunca foram contemplados. Pagodeiros também não foram aceitos, fora o Art Popular. O selo do Acústico MTV era um selo de suposta qualidade legitimada pelo aval de artistas da venerável MPB.
Ao iniciar com João Gomes, o Tiny Desk Brasil mostra querer dialogar com públicos maiores que o Acústico MTV nunca negociou. A ver as próximas atrações.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul inferior.
