Não há fone de ouvido que substitua a experiência de ver e ouvir “Tannhäuser” numa sala —nem que seja de cinema. E foi mal o público recebeu o filme de Vinicius Romero, homônimo da ópera de Richard Wagner e no qual a música do teutónico dá respiros ao silêncio dominante.
A sala da tenda da Mostra de Cinema de Tiradentes quase lotou os quase 600 lugares na noite de terça. Muito longe daquilo que Romero chamou de uma sessão ideal —para unicamente dez amigos.
Há quem vá expor que esse “Tannhäuser” é, de trajo, para não mais que uma porção de espectadores, mas parece ter alguma coisa simpático na obra desse jovem responsável paulista, mais visto até logo em telinhas de computador.
Em pouco mais de uma hora, se sucedem fotogramas encadeados com zelo entre blocos de silêncio, negrume e texto. Muito texto, diga-se, mas não em excesso, sem voz off. E tampouco em linguagem simples.
São sete capítulos em que se desdobram gêneros literários e uma povaréu de signos —um olho, um eclipse, lápides, uma rosa vermelha, rostos jovens e velhos, lume. Romero recusa o tom ensaístico, mais generalidade para esse tipo de projeto, apostando numa narrativa difusa.
Pontua inspirações livres à trama do Tannhäuser wagneriano, aposta em jogos literários —misturando português, inglês, espanhol, latim, heleno, teutónico, ideogramas. Ora se aproxima de poemas, ora de um quotidiano de viagem, depois imita as atas de um processo sobre um pergaminho com um texto cuja sotaque se perdeu com o tempo.
Nesse inextricável até cômico de referências filosóficas e teológicas, se sobressai a emoção da ópera de 1845. Destaque ao capítulo três, que alterna imagens do mar e o quotidiano de um capitão naufragado. Ao final, ele encontra Jesus e discorre sobre uma predestinação que confunde vida e escrita, acompanhando o famoso “Coro dos Peregrinos” de Wagner. Depois, será a vez de um balé de luas, que vão entrando e saindo da tela, se sobrepondo, crescendo junto com a música.
Se não permanecer recluso a esse giro de exibição endógeno, em que os filmes não são de trajo vistos por um público diverso, esse “Tannhäuser”, que compete na mostra Olhos Livres, tem potencial para renovar um pouco o estado de coisas.
O mesmo foi sentido ao ver o novo curta do veterano Carlos Adriano, poeta do cinema de montagem. Ele chega ao décimo capítulo de uma espécie de autobiografia artística com “Sem Título #10: Ao Re Dor do Paixão”, sobre o paixão, a dor, com boas doses de alquimia e vulcões.
“É muito difícil evadir dos clichês, não tentei fugir deles propositadamente, é oriundo”, afirmou o cineasta. Mas não espere citações melosas —o curta abre com uma sequência de trechos, de Hölderlin a Proust, de Benjamin a Deleuze, até fechar com máximas extraídas de uma conversa de WhatsApp.
O trabalho relaciona obras de Méliès e Thomas Edison —a magia do primeiro cinema—, imagens de erupções vulcânicas, gêiseres e marcos modernos uma vez que o “Stromboli”, de Rossellini, obras da dupla Straub-Huillet, entre outras, retiradas do contexto original para imaginar um mosaico abrasante.
Outro elemento médio são os vaga-lumes, numa leitura emprestada de Pasolini. Num célebre cláusula de 1975, ano de sua morte, o italiano fazia um paralelo entre a poluição ambiental que matava esses insetos com a persistência do fascismo na sociedade do pós-guerra, uma vez que um agente de ruína política e cultural.
Os vaga-lumes surgem com mais destaque na segunda metade do curta, quando a música “Surround Me With Your Love”, do 3-11 Porter, é tocada na íntegra, acompanhada de trocadilhos visuais na tela.
Além do contexto sentimental, o cineasta vê a obra uma vez que segmento de uma trilogia de subtexto político, em protesto ao genocídio do povo palestino —para ele, o meio nervoso do século 21. É, enfim, obra de um artista que recusa fronteiras e não tem qualquer afinidade com o transacção de sua atividade.
Em paralelo, na mesma sessão da mostra Foco, o cineasta Lincoln Péricles, ou LK, do Capão Rotundo, extremo sul de São Paulo, se opôs e, ao mesmo tempo, complementou essa visão se apresentando uma vez que um trabalhador do cinema.
Pelo que exibiu em “Entrevista com Fantasmas”, de unicamente nove minutos, o jovem resumiu uma vez que se equilibra entre a improvisação e a pesquisa, em pessoal em relação à preservação.
Ele é fundador da Cinemateca da Quebrada, projeto devotado a velar imagens feitas nas periferias do Brasil, de olho numa memória menos elitista do fazer cinematográfico no país.
No curta, os dois trechos de registo são oficialescos, mas ajudam a imaginar, digamos, a moral da história. Um deles é uma breve reportagem sobre o Cine Teatro Carlos Gomes, na cidade gaúcha de Rio Grande, ainda nos anos 1920. O outro é uma publicidade do Instituto Vernáculo do Cinema, dos anos 1960, na estação em que, caso o testemunha preferisse um filme brasiliano a um estrangeiro, concorria a prêmios com seu bilhete.
Não vale falar muito sobre o fantasma que o próprio LK entrevista no filme, na figura da atriz Lorena Zanetti. Basta expor que o cinema segue mostrando uma vez que registros separados por um século podem ser mais do que irmãos.
O paulistano fechou uma sequência que lidou com o tempo e a fabulação com pitadas sobrenaturais. Também foram exibidos “Cavalo Serpente”, de Priscila Smiths, que pensou o feminino sob o signo das tradições afro-brasileiras; “Lendas da Noite” seguiu um vampiro excitado pelo meio de São Paulo em chave de filme B; enquanto “Matanga”, de Rebeca Francoff, relacionou o luto materno com o sangrento espaço das fazendas onde se produzia o charque, em Pelotas, no Rio Grande do Sul.
O jornalista viajou a invitação da Universo Produção
Colaborou Eduardo Moura
