Em 2026, o rock brasiliano comemora 40 anos de um disco que costuma desabrochar no topo de todas as listas de melhores álbuns do gênero já lançados no país. “Cabeça Dinossauro”, terceiro álbum dos Titãs, permanece uma vez que atestado de maturidade da orquestra. Por isso, a partir do próximo dia 28 de março, o grupo sai em turnê de tributo ao disco. Quatro shows foram anunciados, e outros virão.
Hoje os Titãs são Branco Mello, Sergio Britto e Tony Bellotto. Na gravação do “Cabeça Dinossauro”, o grupo era um octeto. Além do trio, estavam no estúdio Paulo Miklos, Nando Reis, Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Charles Gavin. Depois de dois discos de rock com pop, reggae e até flertes com o brega, a orquestra surpreendeu com um disco de atitude agressiva.
No repertório, canções com vocais gritados e letras diretas. Algumas eram críticas agudas a instituições, em títulos explícitos: “Polícia”, “Família”, “Igreja”… Era um momento conturbado na política pátrio, no início da redemocratização, e agora a comemoração de 40 anos encontra outro cenário zero tranquilo. Será um tanto ruim para o país, mas bom para o disco?
“Acho que os temas no disco transcendem isso, não são circunstanciais”, opina Britto. “Se você falar do insulto do poder público, por exemplo, isso é uma coisa que atravessa a história. O que está na música ‘Varão Primata’, que é o capitalismo visando uma vez que única finalidade o lucro, é um tipo de visão do mundo que está muito arraigada e ainda gera tensão, infelizmente. Mas para o disco é uma coisa boa, ele fica sempre vivo.”
Para Bellotto, o mundo avançou em muitas coisas, mas em algumas áreas retrocedeu bastante. “Mas acho que o disco não é unicamente uma obra de sátira. A música ‘Família’, por exemplo, eu acho que é muito divertida, comenta com alguma ironia uma instituição perene. Ela é uma espécie de crônica.”
O guitarrista acredita que o disco tem um outro lado que às vezes recebe pouca atenção. Para ele, a maior qualidade do disco, mais do que essa agressividade, é a força estética da música, o que não resultou em um disco datado. Mello concorda: “As letras continuam muito atuais, mas os arranjos também. Eles não têm os sons característicos dos anos 1980. É um disco cru, e musicalmente não envelheceu”.
Muita gente discute se “Cabeça Dinossauro” foi um disco conceitual, que teria sido planejado com uma proposta clara antes de a orquestra entrar no estúdio. “Quando chegava a hora de gravar um disco, cada um começava a mostrar as ideias aos outros”, recorda Bellotto. “A gente nunca pensou em fazer um disco do zero, começando por um noção. No ‘Cabeça’, a gente logo percebeu que essa atitude agressiva estava aparecendo em várias músicas. Teve um momento que a gente sentiu que o núcleo era esse.”
Depois do disco “Televisão” (1984), a orquestra foi sacudida pela prisão de Bellotto e Arnaldo Antunes, detidos pela polícia com drogas. “Não dá para negar que a prisão do Tony e do Arnaldo, do ponto de vista extramusical, marcou a gente. Foi um período extravagante, tivemos shows cancelados. Acho que isso contribuiu para a postura mais agressiva”, afirma Britto.
Mas o trio ressalta que existia uma questão estética uma vez que poderoso motivação para mudanças. Britto lembra que em “Televisão” já existiam algumas faixas que apontavam para isso. “Massacre” é a mais óbvia, mas tem também “Autonomia”. Reconhecem a vontade de todos em mostrar um lado mais invasivo, que os Titãs tinham no palco, mas não aparecia tanto nos dois primeiros discos.
Para Bellotto, houve também um maduração junto ao mercado fonográfico. “No primeiro disco, a gente era uma orquestra meio psicodélica. Éramos fascinados pelos programas de auditório, uma curtição que a gente tinha. Mas ali talvez a gente não passasse a teoria certa para as pessoas sobre o que a orquestra estava propondo. A gente percebeu que o mercado pedia uma identidade.”
“A gente era uma coisa estranha, fora dos padrões. Nós começamos moleques e tocávamos com bandas de punk, uma vez que Ira!, Inocentes. E a gente era mais pop”, diz Mello. Bellotto fala sobre uma certa inadequação: “Quando a gente tocava nos programas populares da TV, para as pessoas ali a gente era uma orquestra punk. E quando tocávamos nos redutos punks, a gente virava uma orquestra brega”.
Segundo eles, o simples trajo de ter oito integrantes já causava estranheza. “Até porque tínhamos cinco cantores! Era dissemelhante. E a gente arriscou muito nesse disco. O primeiro single foi ‘AAUU’, era uma música sem precedentes. Na envoltório do álbum, a gente não aparece, é um esboço do Leonardo da Vinci. Até o título do disco era reptador. Conseguimos convencer a gravadora de que aquilo era um tanto que faltava no rock pátrio.”
Posteriormente o lançamento de “AAUU”, o grupo foi ao programa do Chacrinha. A Legião Urbana tinha logo um sucesso enorme nas rádios com “Tempo Perdido”, uma cantiga melódica. Logo Renato Russo perguntou a Britto por que a escolhida tinha sido “AAUU”, já que ele enxergava no álbum canções muito mais acessíveis. “Eu falei para ele aquilo que a gente comentava entre nós: era para não deixar incerteza que dali para a frente seria dissemelhante.”
Os três concordam que havia a vontade de gerar um vocabulário próprio. “Com oito caras, era muita inconstância. A gente estava tomando consciência de que isso poderia ser prejudicial. Eram necessárias algumas balizas para que o trabalho rendesse mais”, analisa Britto. Segundo Bellotto, o sucesso de “Sonífera Ilhéu” deixou o grupo ligado a um rótulo de pop brega, mas ao mesmo tempo o show tinha músicas que eles definem uma vez que viscerais, citando “Massacre”.
“A gente foi percebendo que precisava ter uma unidade maior, falando de estilo músico mesmo”, conta Bellotto. “O ‘Cabeça’ foi a nossa viradela. Até logo, a gente estava tateando”, comenta Mello. Segundo Britto, foi no terceiro álbum que o grupo desenvolveu um vocabulário músico próprio, e usa uma vez que exemplo os vocais uníssonos e gritados.
“Éramos cinco cantores na orquestra, né? Quando você ouve essa tamanho vocal gritada, você passa a reconhecer os Titãs. No mainstream brasiliano não tinha outra orquestra assim. A coisa das letras enxutas, quase uma vez que um slogan, tudo isso marcou o nosso estilo.”
Na turnê de comemoração, o grupo deve encetar o show com a íntegra de “Cabeça Dinossauro”, apresentando todas as músicas na ordem das faixas no disco. Depois, eles vão completar o setlist sem se importar em privilegiar unicamente hits. A teoria é garimpar canções de outros discos que conversem com o repertório do álbum.
Além dos três, sobem ao palco o baterista Mario Fabre e o guitarrista Beto Lee, presenças habituais nas turnês, e o guitarrista Alexandre de Orio, que substituiu Bellotto em alguns shows neste ano, enquanto o titular se recuperava da cirurgia que fez segmento de um tratamento contra um cancro. “Tem muitas guitarras no ‘Cabeça’, alguns solos brilhantes do Tony. Achamos que é bom ter mais uma guitarra no palco”, conta Britto.
A turnê estreia em São Paulo, no dia 28 de março, no Espaço Unimed. Depois, mais apresentações em Belo Horizonte (25/4), Rio de Janeiro (9/5) e Curitiba (18/7).
