Tom zé encontrou em são paulo o palco ideal

Tom Zé encontrou em São Paulo o palco ideal – 16/10/2025 – Djamila Ribeiro

Celebridades Cultura

No último mês, a partir de um projeto de lei de autoria do vereador Nabil Bonduki, a Câmara Municipal de São Paulo conferiu a Tom Zé o título de cidadão paulistano. A homenagem chega uma vez que reconhecimento de uma das trajetórias mais originais e insubmissas da música brasileira.

Antônio José Santana Martins nasceu em 1936, em Irará, no sertão da Bahia —terreno que seria a primeira semente de seu olhar uno. Jovem, migrou para Salvador, onde estudou música no conservatório e mergulhou na efervescência cultural das décadas de 1950 e 1960. Ao lado de Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes e outros nomes da música brasileira, tornou-se um dos rostos do tropicalismo.

O movimento, no término dos anos 1960, sacudiu a cena ao incorporar guitarras elétricas, colagens sonoras e uma atitude de enfrentamento à cultura de tamanho e às convenções da quadra. Sua tributo, em canções uma vez que “Parque Industrial” —do álbum “Tropicália ou Panis et Circencis”—, já anunciava um olhar crítico sobre o “patriotismo” e o oração de modernização em voga à quadra no país.

Enquanto seus companheiros encontraram maior consonância com o grande público, Tom Zé traçou uma rota uno e marginal. Foi o mais experimental dos tropicalistas, um inventor de sons que desafiou fórmulas. Um verdadeiro alquimista músico.

Foi em São Paulo, para onde se mudou no início dos anos 1970, que consolidou vida e curso, criando algumas de suas canções mais afiadas. A metrópole, com sua selva de pedra, tornou-se seu grande laboratório. Transformou o cotidiano corriqueiro —um objeto no lixo, o sonido de uma britadeira, a sintaxe de uma frase— em investigação sonora.

No oração de outorga do título, o sociólogo José de Souza Martins, nosso confrade na Ateneu Paulista de Letras, destacou essa simbiose. Para ele, Tom Zé realiza uma “etnografia cantada” das contradições paulistanas. Um músico que atravessou ruas com nomes angelicais que escondem durezas concretas, contrastes sociais e a anfibologia entre fascínio e repulsa que marca os migrantes.

Na dez de 1970, em canções uma vez que “Augusta, Angélica, Consolação” —do disco “Todos os Olhos”, de 1973— e “Rapariga Jesus” —do álbum “Correio da Estação do Brás”, de 1978—, tece uma sátira ferina à segregação social. A genialidade dessas músicas está em uma vez que retratam a tensão por meio da justaposição das vias emblemáticas e da inversão lógica de imagens religiosas, ao mesmo tempo lúdicas e profundamente críticas.

Porquê muito definiu José de Souza Martins: “Tom Zé, em suas composições relativas à cidade de São Paulo, faz uma verdadeira etnografia de suas anomalias, de ruas cujos nomes idílicos e afetivos desdizem o que são, uma vez que em ‘Angélica, Augusta e Consolação’. Mas não faz só isso. Em sua obra, ele desenvolve e expõe uma percepção negadora do romantismo de quase um século de concepções de forasteiros que não se reconheceram nela e que nela viveram e vivem uma vez que exilados e degredados. Não vasqueiro, os que vieram para voltar, que, porém, se perderam no meio do sonho”.

Nós, brasileiros, sabemos uma vez que precisamos valorizar mais nosso próprio país e nossos talentos. Ouso manifestar que, tão longe foi, que no álbum “Com Defeito de Fabricação” (1998) anteviu debates internacionais propostos em “Matrix”, “Show de Truman” e outras obras, ao listar “defeitos” das pessoas do terceiro mundo que —mesmo alienadas e robotizadas— ainda assim teriam a mania de pensar, dançar e sonhar, coisas “muito perigosas para os patrões do primeiro mundo”.

Nosso querido Tom Zé é vanguarda no Brasil e em qualquer lugar. E fabricar uma gramática músico própria, linguística de sua revolução, foi um de seus maiores feitos.

Em seu título de cidadão paulistano, vejo a rendição de homenagens por uma cidade que se explica pela voz dissonante, por seus artistas insubmissos. Tom Zé canta São Paulo porque nela encontrou o palco ideal, multíplice e infinito, para uma de suas missões: transcrever, em tempo real, as grandiosas e trágicas contradições da vida moderna em música, sátira e trova pura. Desenvolveu um método de inventividade radical.

Aos 89 anos, completados nesta semana, o imortal da cadeira número 33 da Ateneu Paulista de Letras recebe a merecida láurea. E, ao prestar oriente tributo nesta Folha, penso na sorte que temos de compartilhar tempo e país com um cidadão paulistano dessa envergadura.

Festejar Tom Zé é, para mim, comemorar a própria São Paulo.


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Folha

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