O título da peça já é uma síntese poética de seu tema. A “mala” é um objeto concreto, associado a viagens, partidas e chegadas. No contexto da peça, ela se torna o recipiente simbólico do “vazio” deixado pela perda de um ente querido. O que se carrega posteriormente uma tragédia tão avassaladora? Não são mais lembranças felizes e concretas, mas sim o peso insuportável da privação. “O Vazio na Mala” se propõe a furar esse dispositivo metaforicamente, expondo sentimentos: a dor, a raiva, a incompreensão, os “e se…?” persistentes.
A obra, assim, argumenta que o traumatismo da guerra “não passou, continua lá dentro das pessoas”, infiltrando-se nas relações familiares. A procura por desvendar o teor, ou a privação dele, é o motor que conduz ao confronto entre Esther (Noemi Oceânico) e Samuel (Marcelo Várzea), revelando também sombras sobre a vida do pai, Franz (Fábio Herford), cuja presença espectral intensifica o drama.
A dramaturgia de Nanna de Castro, reconhecida com prêmios importantes, é eficiente ao lastrar a saga histórica da sobrevivência com o drama contemporâneo do reencontro. A direção de Kiko Marques, auxiliada pela trilha sonora de Gregory Slivar e o uso do videomapping, potencializa a fardo emocional, externalizando a turbulência interno dos personagens e intensificando a empatia com o público.
Neste cenário de angústia e revelação, a figura da cuidadora, Ruth (Dinah Feldman, também idealizadora do espetáculo), emerge porquê um gavinha de afeto. Ela impulsiona o encontro e a transformação entre avó e neto, sugerindo que o paixão e a conexão são as ferramentas de tratamento para os traumas herdados. Com um elenco talentoso, a peça faz uma reflexão sobre a legado emocional e o ciclo do traumatismo familiar, convidando o testemunha a refletir sobre a força da memória, do tempo e da resiliência humana diante do inimaginável. O sucesso de sátira e público atesta a relevância e a força artística da obra.
Três perguntas para…
…Dinah Feldman
Porquê foi transformar a história real da sua família, um artefato de museu (a mala) e os depoimentos do seu primo em matéria-prima para uma geração artística? Foi um processo quebrável?
Foi um processo dissemelhante de tudo que eu já tinha feito antes. Histórias me encantam — geralmente são meu primeiro impulso para chegar à cena. “O Vazio na Mala” começa com um objeto repleto de histórias.
Meu primo doou a mala com documentos que pertenciam ao pai e à avó dele para o montão do Museu Judaico de São Paulo, e gravou uma entrevista contando a história dos artefatos. Ele me enviou o vídeo e eu tive uma sensação imediata: “essa história dá uma peça!”. (E ele respondeu: “vamos fazer!”).
Depois, por outros caminhos, acabei trabalhando na coordenação do educativo do museu, no ano de fenda ao público. Quando vi a mala, ao vivo, pela primeira vez, o libido voltou. Contei a história para a equipe, e ela passou a fazer secção das visitas. Quando eu levava um grupo, parava diante da mala, contava a história — e todos se encantavam. Porquê um pequeno objeto podia moderar tanta coisa!
O museu já traz em si essa teoria de reunir objetos que carregam um valor narrativo. Isso é muito teatral. A partir dessa pulsão, decidimos procurar uma dramaturga para grafar a peça. Escolhemos Nanna de Castro, que mergulhou na pesquisa e trouxe um ponto de vista que não tínhamos imaginado: o olhar da terceira geração — aquela que não viveu o conflito, mas carrega suas marcas e traumas.
Montamos a equipe e tivemos a sorte de sermos contemplados pelo edital de produções inéditas de artes cênicas do Sesi-SP, que nos deu condições incríveis para a geração e estreia. Meu primo, que não é do teatro, acompanhou todo o processo. A primeira leitura da peça foi na mansão dele. Ele assistiu aos ensaios e uma inquietação apareceu: a avó e o pai dele nunca quiseram compartilhar o que viveram. A mala seguia trancada, o ponto, silenciado. E agora, depois da morte deles, aquilo se transformava em teatro.
Mas logo na estreia, essa nuvem se desfez. Vieram tantos retornos do público — pessoas dizendo que se identificaram, se emocionaram, levaram alguma coisa da história para si — que entendemos que não estávamos abrindo alguma coisa pessoal em cena, e sim partindo de uma história real para falar de alguma coisa universal e profundamente humano.
A peça eleva o silêncio à quesito de personagem principal. Porquê vocês, no processo de geração e ensaios, trabalharam para dar corpo e voz a esse “silêncio” em cena?
A peça é baseada numa história real — mas essa história, quando vivida, não foi contada. Foi vivida no silêncio, nessa mala trancada com documentos que atestam fatos, dores e sofrimentos.
A trama escrita por Nanna de Castro trouxe esse ponto à tona, e nos ensaios nos debruçamos muito sobre ele. A pesquisa foi extensa: leituras, conversas com estudiosos e especialistas, e também observações das formas vividas desses silêncios. Toda família tem segredos — assuntos que todos conhecem, mas não comentam, ou só falam em pares. Reconhecemos facilmente essa estrutura.
A perda de memória da personagem Esther é uma maneira de mourejar — e ao mesmo tempo de não mourejar — com isso. A procura do personagem Samuel por uma peça que dê sentido à sua vida também está atravessada por esse traumatismo familiar. São esforços diários que reconhecemos em situações análogas.
Nos perguntamos muito sobre isso: o copo está meio referto ou meio vazio? O diretor Kiko Marques usou uma sentença linda para descrever uma das cenas: “uma conversa enxurro de cotovelos”, onde as palavras não se encontram. Um fala alguma coisa que cai num buraco, o outro responde com outra vocábulo que não encaixa. Parece uma conversa — mas o que corre por reles, o que não se diz, é o que realmente está sendo dito. Navegamos por aí.
A narrativa explora o poder do afeto na regeneração de feridas. Na sua opinião, de que maneira a arte, e o teatro em pessoal, podem ser ferramentas para esse processo de tratamento e compreensão?
Será que podem? É uma pergunta que me acompanha. Com “O Vazio na Mala”, temos vivido encontros muito especiais — relatos profundos de porquê a obra toca as pessoas. Eu acredito na arte porquê uma forma de furar diálogos pela sensibilidade.
Na temporada de estreia, promovemos debates com convidados, e a possibilidade de conversa — de escuta e fala — que se abriu foi preciosa. Depois da peça, tendo vivido essa experiência que nos lembra da nossa humanidade, conseguimos olhar no olho e ser gente, de novo. Falando de temas difíceis, que mexem com nossos afetos, sem necessariamente concordar, mas juntos.
Acho que é por aí que a arte atua. Eu comecei a ver (e fazer) teatro muito jovem. Lembro da sensação das primeiras peças que assisti — era porquê estar em outro tempo e espaço, transpor do cotidiano e ser transportada para outra dimensão. Quando terminava, era porquê voltar de uma viagem. Persigo essa sensação, porque ela me formou. E acredito que, nesse tempo e espaço diferenciados que o teatro cria, a gente tem a chance de viver uma experiência extra-cotidiana — e voltar transformado.
Teatro Moise Safra – rua Professor Walter Lerner, 315, Barra Fundíbulo, região oeste. Sex. e sáb., 20h (sessão extra dia 18, às 17h). Dom., 19h. Até 18/10. Duração: 80 minutos. A partir de R$ 60 (meia-entrada) em sympla.com.br
