'(Um) Ensaio Sobre a Cegueira' apresenta rigor e poesia

‘(Um) Ensaio Sobre a Cegueira’ apresenta rigor e poesia – 07/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Uma tábua faz o papel de mesa. E, ali, cada ator vai colocando moedas. Há uma luz posicionada sobre eles, que reflete as moedas conforme elas começam a rodopiar. Quando uma delas cai, alguém movimenta a próxima. O som do tilintar do metal na madeira vai crescendo até explodir em uma coreografia de mãos, batendo poderoso sobre a mesa. A cena do espetáculo “(Um) Experiência sobre a Fanatismo” é de uma simplicidade absoluta. Mas também uma súmula de toda a depuração técnica e estética que se poderia esperar do teatro de quem está na estrada há mais de 40 anos.

Em um país onde não existem companhias teatrais oficiais subvencionadas pelo governo, o Grupo Galpão chega o mais perto provável do que se poderia invocar de segurança. Porém, na peça que cumpre temporada em São Paulo, posteriormente passar por Belo Horizonte e Rio de Janeiro, a companhia celebra muito mais do que sua longevidade. Nesses veteranos da cena brasileira, labareda atenção não unicamente o que carregam porquê bagagem. Estão ali um frescor criativo e uma imensa disponibilidade para investigar e depurar novos caminhos de tradução.

O encontro com a parábola criada por José Saramago não poderia ser mais oportuno. No romance publicado em 1995, o repórter português conta a história de uma fanatismo contagiosa. Em uma cidade qualquer, homens e mulheres param de enxergar. As pessoas passam a ver unicamente uma misteriosa luz branca e o governo, para sustar a epidemia, aprisiona os doentes em um manicômio. Existem reverberações interessantes desse enredo posteriormente a epidemia da Covid-19 –explorada com ironia pela trupe. E há, sobretudo, férteis pontos de contato com a trajetória do Galpão.

Enquanto a sociedade desmorona, fica cada vez mais evidente que a fanatismo de que fala Saramago não é unicamente um oferecido físico, mas também moral. Um dos protagonistas da história, o médico interpretado por Eduardo Moreira percebe que a incapacidade de ver o outro já era roupa muito antes da epidemia. Quem está disposto a realmente enxergar o que se passa no mundo? Na fábula de ares distópicos, os interesses de cada um estão sempre a ultrapassar o coletivo, ao mesmo tempo em que a desumanização –representada pela violência, crueldade e arbitrariedade dos poderosos– encontra um reconfortante contraponto nos gestos de solidariedade, dor e resistência moral.

Esse movimento pendular, entre individualidade e siso comunitário, organiza também a maneira de estar em cena e o próprio sentido do trabalho. O zelo com interpretações individuais não é maior do que com o que se passa ao lado, um conjunto em que cada membro precisa cuidar de si, sempre circunspecto e ajustado ao outro, seja na movimentação dos elementos cenográficos, seja na forma de conduzir os participantes da plateia que a partir de determinado momento tomam segmento na encenação.

O Galpão tem a uno particularidade de ser, essencialmente, um grupo de atores. Para eles, os diretores são transitórios, convidados que se revezam trazendo propostas e linguagens. O encontro com Gabriel Villela, por exemplo, consolidou a presença da música e da cultura popular, o contato com Yara de Novaes trouxe um humor mais melancólico e uma abordagem mais intimista. Mais recentemente, o diretor Márcio Abreu colocou-os diante de uma perspectiva mais fragmentária e contemporânea, um estilo mais próximo do performático– menos dramatizado e mais presente.

Vindo de uma série de direções bem-sucedidas e premiadas –porquê as recentes “Tom na Rancho” (2018) e “Ficções” (ainda em edital no Teatro Faap)– Rodrigo Portella chega com uma proposta certeira para a companhia. Valendo-se da maturidade artística do Galpão, corda uma informação afinadíssima com a plateia. Compõe cenografia e iluminação precisas, onde zero parece supérfluo. Cria espaço para um potente trabalho de gravura de som e trilha sonora.

De olho nas características intrínsecas à ficção de Saramago, Portella desenha uma dramaturgia de filiação brechtiana –inspiração que alimenta também sua encenação. O teatro heróico de Bertolt Brecht buscava o glosa crítico sobre a sociedade, desvelando os caminhos para a construção da cena. Os atores, em muitos casos, assumem mais de um personagem e, antes de simbolizar, narram o que irão fazer. Mesmo nesse caminho de pretenso distanciamento, a direção constrói situações que exigem privativo tarimba do elenco, valorizando seus desenhos dramáticos e suas sutilezas. Pautado pelo rigor e pela verso, “(Um) Experiência sobre a Fanatismo” resulta num magníloquo gesto coletivo de lucidez.

Folha

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