No capítulo anterior da caçamba enxurrada de histórias que estacionaram diante do meu portão, deixei solto o fio de uma trama muito peculiar. Urdida com a riqueza dos linhos, “xantungues”, “tweeds” —e babados de outrora.
Largado na rua, num “street style” equivalente ao do álbum de pêsames de sua aristocrática parenta Maria da Glória, lá estava o pesadíssimo caderno do já famoso, hoje completamente ignoto, Joãozinho Miranda.
Carioca, botafoguense e nascido em 1924, revelou-me tudo o que era preciso saber por meio das colunas sociais recortadas, coladas e amareladas pelo tempo.
Num desfile de termos e opiniões à voga antiga, por entre redingotes e “palazzos-pijama”, trapézios e deux-pièces em cores vedetes, lá estava o “pequeno Dior”, “nosso Yves Saint-Laurent”, “o Balenciaga informal” que brilhava nas ouvertures das temporadas de 1950, 1960 e 1970.
A primeira-dama Maria Thereza Goulart encomendou-lhe vestidos para a tarde, deixando para Dener as “robes du soir”. Contemporâneo também de Zuzu Angel, fez sarongues para Danuza Leão, vestiu Elza Soares e executou em tecido laise e brocado um look para Clementina de Jesus em Cannes.
Dos píncaros da glória ao fundo da caçamba, tudo está registrado com esmero e orgulho no tal caderno que sobreviveu ao costureiro. Portanto, me eximo agora do trabalho de historiógrafo e deixo Joãozinho falar por si só. A seguir, uma curadoria de aspas bombásticas alinhavada pelo próprio morto.
“Voga de verdade é para gente rica. Já imaginou mulher de máxi correndo detrás de meio? Com gente morrendo de míngua em Biafra e o povo comprando mais de seis metros de tecido para fazer vestido.”
“Não há premência de 50 vestidos ‘mais ou menos’ dentro do armário: dez bons são mais do que suficientes.”
“Mulher que não pode fazer muitos vestidos não deve ter sapatos de cor. No verão, acessórios areia duram mais que o branco. No inverno, pretos.”
“Um grande transe se aproxima: as botas. Desvelo, minhas senhoras. Perna curta com bota é inadmissível.”
“Para mim, a saia acaba onde começa o joelho. No entanto, para aquelas que querem aderir à novidade, aconselho que não tenham mais de 20 anos, que possuam pernas maravilhosas e que usem meias na tonalidade do vestido.”
“Já pensou? A brasileira, com sua média de 98 centímetros de quadris, com saia pelo meio da perna? Não quero nem imaginar!”
“Saia curta com joelho que mais parece uma rostro é o término.”
“Espero que as guardas das penitenciárias e presídios do Rio façam regime para ficarem muito com as minhas roupas”. “Mulher gorda é imperdoável. Exceto em casos especiais, de doença, você sabe”. “Só porquê mãe ou tia da gente. Voga é para mulher magra ou normal. Gorda não deve nem pensar no tema.”
“Homens do meu Brasil, depois dos 40 não se deve usar mangas curtas. Se o tamanho visível de camisa é o dois, compre o três para esconder a ventre (…) E quando forem ao fígaro, por obséquio, não deixem de passar a navalha na região em volta da ouvido.”
“Existe uma grande sociedade precisando fazer plástica com urgência. Se elas quiserem fazer modinha e serem bonitinhas, é bom passar correndo no Pitanguy.”
“Vestir ‘boneca’ pobre, para mim, é sucesso para meus olhos. E ‘bagulho’ rico, satisfação do artista que transforma o ‘bagulho’ em alguma coisa (…) Se o ‘bagulho’ teima em ser ‘bagulho’, eu desisto. Não tem solução. O que gostaria mesmo é não precisar cobrar os vestidos, assim só coseria para bonecas.”
“Quando a cliente é inteligente, é proporcionada etc, tudo é fácil. Pelo paixão de Deus, não me fale em gordas, que já deu um rolo desgraçado”
“Sou formidável, não tenho repouso nem inveja, dou-me muito com todos, sou excessivamente fatalista e me considero feliz.”
“E agora, meu muito, trata de me fazer a última pergunta que as minhas freguesas já estão me esperando indóceis (…) A ideal? É aquela caindo de numerário e se provável muda…”
“Costura não dá numerário. Se quiser enriquecer, mude de profissão.”
“Sempre gostei de me agastar pouco, de trabalhar o menos provável. Enfim, não me agastar em hipótese alguma. Por hoje estamos conversados.”
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