'Uma Batalha Após a Outra' e 'Nashville' têm algo em

‘Uma Batalha Após a Outra’ e ‘Nashville’ têm algo em comum – 12/03/2026 – Ilustrada

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O filme “Uma Guerra Em seguida a Outra”, um dos favoritos da premiação do Oscar, toca no nervura das convulsões de um país às vésperas de comemorar seus 250 anos, em julho. Leonardo DiCaprio vive um ex-revolucionário que sai do esconderijo para resgatar sua filha, sequestrada por um militar de extrema direita vivido por Sean Penn. A história, filmada há dois anos, incorpora temas urgentes do momento, porquê repressão a imigrantes e nacionalismo cristão branco.

Quando os Estados Unidos estavam para comemorar os 200 anos da república, Robert Altman lançou “Nashville” (1975), seu quadro do cenário político e cultural americano, fundeado na capital da música country, no Tennessee. O filme foi um sucesso de sátira e público.

O crítico Vincent Canby, do New York Times, portanto um dos mais influentes do país, escreveu naquele ano que “Nashville” era “o filme sensação que servirá de referência para todos os outros filmes americanos deste ano. É um filme que muitos outros diretores vão querer ter tido a genialidade de fazer e do qual dezenas de outros atores vão querer ter tido a grande sorte de participar.”

As duas produções, separadas por meio século, têm mais em generalidade. O último filme de Altman, “A Última Noite”, lançado em 2006, foi supervisionado por outro diretor, que concluiria a filmagem caso Altman, já doente, ficasse incapacitado. Ele morreu seis meses depois da estreia.

O diretor em compasso de espera chamava-se Paul Thomas Anderson, o já profusamente premiado diretor e roteirista de “Uma Guerra Em seguida a Outra”. “Anderson é o herdeiro mais próximo que temos de Altman,” diz Michael Schulman, biógrafo de Meryl Streep e responsável de “Oscar Wars: A History of Hollywood in Gold, Sweat, and Tears”, em que narra a história do prêmio.

Em 1975, “Nashville” mostrava um país dividido, exausto da guerra do Vietnã, ainda traumatizado pelos assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy, e pelo escândalo Watergate. Em 2025 não deve ser preciso detalhar o que hoje motivo separação e exaure os americanos. Ambos os filmes são comédias de teor violento e oferecem cenários absurdos em tom que beirada a farsa. Seria provável produzir hoje um “Nashville”, com seus 24 personagens principais, com diálogos simultâneos sobrepostos que exigiram uma técnica pioneira inventada pelo engenheiro de som Jim Webb?

“De jeito nenhum”, responde a autora do roteiro original de “Nashville”, Joan Tewkesbury. Próxima dos 90 anos, que completa no prelúdios de abril, ela conversou com a reportagem de sua mansão em Santa Fe, no Novo México, onde continua ocupada dando cursos de escrita criativa por Zoom. “Um estúdio não ia contratar o mesmo número de atores para relatar uma história controversa,” ela diz. “Vivemos num tempo de remakes e franquias. E, porquê as pessoas não querem ir ao cinema, cada vez mais o streaming acomoda gostos sem malparar.”

Tewkesbury lembra que “Nashville” provocou reações viscerais —”as pessoas adoravam ou detestavam”— e irritou bastante o establishment da música country, que, na estação, emergia porquê uma força poderosa da cultura popular mainstream. Vários membros do elenco compuseram canções para seus personagens, com algumas letras que faziam paródia dos temas country.

Altman e Tewkesville não gostavam do gênero músico nem da cidade, mas ela revela que a decisão de filmar em Nashville foi baseada no interesse de atingir uma audiência ainda pouco cultivada por Hollywood.

“Nashville” recebeu cinco indicações para o Oscar de 1976, mas só levou a estatueta de melhor música — “I’m Easy”, composta pelo ator Keith Carradine para seu personagem, Tom, um músico narcisista e vazio. Ao encontrar um policial, Tom pergunta, “Você matou alguém esta semana?”

“Nashville” ilustra um período da contracultura americana definido por descrédito da esquerda em domínio e governo. O país hoje é governado por um presidente cada vez mais imperial, que foi eleito com a mensagem de descrédito em domínio constitucional ou governo pelos três poderes. “Realmente, a direita parece ter roubado a irreverência da esquerda”, diz Michael Schulman. “São eles que desafiam as instituições e a respeitabilidade.”

“Nashville” e “Uma Guerra Em seguida a Outra” são histórias profundamente americanas, contadas por criadores que não usam suas influências na manga. Se era fácil perceber que Woody Allen queria encolher o espírito de Ingmar Bergman ou Quentin Tarantino queria canibalizar faroeste espaguete, Altman e Anderson são indissociáveis da geografia que os produziu. No caso de Anderson, a Califórnia e, no caso de Altman, nascido em Kansas City, o Meio-Oeste americano. “A originalidade deles emerge, em segmento, da regionalidade,” diz Schulman.

Os dois filmes refletem também a sensibilidade dos diretores por personagens desajustados. Anderson encontraria mais ternura nos seus fora-da-lei? “Bob Altman era incrivelmente cínico, perverso, engraçado e fantástico,” recorda Joan Tewkesbury, “mas, durante o tempo em que trabalhamos juntos, ele sempre nos lembrava que existe indulgência no mundo. E que ela pode vir até das piores pessoas.” Ela acha que “há muito de Altman em Anderson, mas, às vezes, não havia bastante Anderson em Altman.”

Michael Schulman argumenta que Paul Thomas Anderson é o diretor que mais se assemelha ao comando de Robert Altman na orquestração de múltiplas histórias. “Quando você pensa em ‘Magnolia’, deve ser o filme que mais se aproximou de “Nashville”. Tem um grande elenco, cujas histórias se cruzam e o que une o filme é o tom, não um só personagem ou uma trama.”

O roteiro que Joan Tewkesbury entregou a Altman não continha o homicídio da cantora de música country vivida por Ronee Blakley no final. “Eu fiquei arrasada,” ela lembra. “Mas ele insistiu. Estávamos passando por um período de assassinatos sucessivos e ele disse, ‘ainda não mataram uma mulher.’ E, hoje, penso na epidemia de violência que temos enfrentado.”

Folha

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