Paul Thomas Anderson é sempre gentil em entrevistas, tem uma obra amplamente celebrada pela sátira e é tapado de elogios pelos atores que dirige. Mesmo assim, nunca venceu o Oscar. Depois de 11 indicações, porém, essa verdade pode enfim mudar.
É o que sugerem as principais apostas –mesmo que prematuras– para a cerimônia do ano que vem. “Uma Guerra Em seguida a Outra”, seu décimo longa-metragem, que estreia nesta semana, está em rota para repetir o feito de “Sangue Preto” e “Licorice Pizza”, indicando-o a melhor filme, direção e roteiro.
Se nos anos anteriores a competição não privilegiou o americano, a atual temporada de prêmios vem gritando seu nome nas últimas semanas. Revistas especializadas, casas de apostas e uma aprovação de 98% no agregador de críticas Rotten Tomatoes, é seguro expressar, o firmaram uma vez que predilecto.
“Um camarada saiu da sessão recentemente e me disse que não queria falar sobre o filme naquele momento, que precisava senti-lo antes, o que é maravilhoso”, diz Anderson em conversa com jornalistas, demonstrando claro desapego com a temporada de prêmios e maior preocupação com a experiência que o público vai ter.
“É uma vez que o Leo vem dizendo. Nascente filme é uma vez que um pedido, de joelhos, para as pessoas irem ao cinema”, continua o diretor, citando o planeta de seu longa, Leonardo DiCaprio. “Nós fizemos um tanto para ser visto de forma gigante, em volume tá, com muitas pessoas. É a experiência que queríamos oferecer, a de uma sala enxurrada, em que se pode decolar, transpor do assento coletivamente.”
A resguardo apaixonada da ida ao cinema, aliada à exibição do longa nas telonas de Imax, pode dar um empurrãozinho extra diante dos votantes da Liceu de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood –uma vez que foi o caso de “Oppenheimer”–, principalmente se aliada aos rostos queridos e oscarizados de DiCaprio, Sean Penn e Benicio Del Toro, as estrelas do longa.
Mas há uma guerra até a coroação no Oscar e nas bilheterias. Falta, por exemplo, o lastro de um grande festival –um tanto que “Hamnet”, de Chloé Zhao, que venceu Toronto, tem. E a narrativa de “Uma Guerra Em seguida a Outra”, também, pode ser de difícil digestão nos Estados Unidos radicalmente polarizados de hoje.
Fundamentado no romance de Thomas Pynchon, responsável que Anderson já havia levado às telas em “Vício Inerente”, o novo filme abre com um poderoso prólogo sobre um grupo de guerrilheiros de esquerda chamado French 75. Dois de seus líderes, vividos por DiCaprio e Teyana Taylor, estão profundamente apaixonados. Enquanto explodem usinas de eletricidade e assaltam bancos, eles trocam beijos intensos e palmadas nas nádegas, uma vez que se a fadiga ao sistema lhes enchesse de libido.
Até que ela engravida. O bebê se torna o núcleo gravitacional dele, mas não dela. Perfidia, na verdade, se sente preterida e amarrada a uma vida familiar que não lhe interessa e, uma vez que que para rejeitar essa entrega ao status quo, aumenta os riscos que corre.
Ela é pega pela polícia, delata vários colegas e entra para um programa de proteção a testemunhas com a ajuda do temível coronel Lockjaw. Vivido por Penn, o militar a despreza e a deseja em medidas iguais.
“São personagens imprevisíveis em sua natureza. Eles são falhos e vivem num mundo de extremos, coisas com as quais muita gente vai se relacionar. É uma vez que se o Paul [Thomas Anderson] segurasse um espelho para a sociedade e o mundo em que vivemos”, diz DiCaprio.
Nascente é somente o prólogo, e os ânimos se acirram conforme o filme avança. Duas décadas se passam e o protagonista agora passa os dias fumando maconha no sofá, enquanto sua filha brilha na escola da cidadezinha onde precisaram se esconder. A aposentadoria precoce acaba, porém, quando Lockjaw decide caçá-los.
“Uma Guerra Em seguida a Outra” faz secção de uma safra recente de filmes que capturam, com enorme força política, o mal-estar que se propaga pelo mundo de extremos de hoje. Nascente foi o mote da seleção principal do Festival de Cannes –que teve filmes uma vez que “Eddington”, “Foi Exclusivamente um Acidente” e o pátrio “O Agente Secreto”– e se repete agora no giro mercantil.
É um tanto irônico que o longa abra justamente com o grupo de guerrilheiros de esquerda à sombra de um enorme muro na lema entre os Estados Unidos e o México. Eles estão lá para libertar imigrantes latinos que foram detidos pelo governo, mas não sem antes humilhar os militares que supervisionam as celas.
Em paralelo, no noticiário, Donald Trump reforça na tribuna da ONU seus ataques a imigrantes, Charlie Kirk é assassinado e há tentativas da Moradia Branca de intervir no julgamento dos arroubos autoritários de Jair Bolsonaro, um militar reformado.
As cenas de “Uma Guerra Em seguida a Outra” ficam ainda mais fortes em contraste com a verdade, e também quando vemos que o poder emana, principalmente, de mulheres negras. Elas comandam a French 75, enquanto DiCaprio somente aperta botões –de bombas, no caso.
De metralhadora na mão e bojo de pejada, Perfidia ressalta o ruína que a separa da direita radical simbolizada por Lockjaw –varão branco que, apesar de declaradamente racista, é seduzido por ela. Seu sonho é entrar para um clubinho de supremacistas que planejam assassinatos enquanto comem panquecas no moca da manhã, num tipo de contraste que dá força e humor a toda a obra de Anderson.
Não é na atitude de enfrentarem um Estado falido e truculento que reside o heroísmo dos protagonistas de “Uma Guerra Em seguida a Outra”, porém. É o que diz DiCaprio, ator que está entre os mais engajados da Hollywood atual e que vê seu personagem uma vez que herói mais por justificação de seu lado paternal do que pelo de guerrilheiro.
Anderson denuncia a violência política e a polarização, simples, mas reforça que seu filme é, supra de tudo, um história sobre a relação de um pai e uma filha, tema muito próximo do cineasta, que tem três meninas e um menino.
“Eu não fico fumando maconha o dia inteiro, uma vez que o protagonista, mas assim uma vez que ele eu também me sinto um fracasso às vezes. No início tudo é lindo, e logo seus filhos começam a ter ideias próprias”, diz o cineasta. “Mas é nesse conflito geracional, na emergência de uma geração que chega para nos substituir, que está o otimismo deste filme. Espero que as pessoas percebam e que falem sobre isso.”
