Operação em paraisópolis acaba com dois mortos e dois policiais

União de Moradores de Paraisópolis critica ação da PM na comunidade

Brasil

A população da comunidade de Paraisópolis, na zona sul paulistana, já se acostumou com a violência policial. “Ao longo de dois anos isso é normal. Isso nem assusta mais a gente”, disse Janilton Jesus Brandão de Oliveira, mais divulgado uma vez que China.

O vice-presidente da União dos Moradores e do Negócio de Paraisópolis, em entrevista nesta sexta-feira (11) à reportagem da Escritório Brasil, criticou mais uma operação da Polícia Militar na comunidade que terminou com duas mortes e um policial ferido.

“A verdade é que não podemos falar mais em operação [policial] porque isso já é rotineiro”, afirmou o vice-presidente da associação. “Eles estão executando e estão matando aleatoriamente, só que é aquela história: é a termo do Estado contra a termo da população ou de quem perdeu o seu ente. Não é de hoje que o 16 Batalhão [responsável pela região] mata e executa”, afirmou.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, a polícia realizou uma operação em Paraisópolis nessa quinta-feira (10) motivada por uma denúncia sobre a presença de homens armados em um ponto de venda de drogas em Paraisópolis. Ao chegarem ao lugar, os policiais teriam visto quatro homens com mochilas, que fugiram correndo e entraram em uma vivenda. Nessa residência, três deles foram presos e um deles foi morto pelos policiais.

Na manhã de hoje, em entrevista à prensa, a Polícia Militar confirmou que as câmeras corporais dos policiais demonstraram ilegalidade na ação e que o jovem Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, estava rendido quando foi morto pelos agentes policiais. A polícia também negou que a residência onde o jovem foi morto se tratasse de uma vivenda petardo, uma vez que havia sido informado inicialmente pela corporação.


São Paulo (SP), 11/07/2025 - O coronel da Polícia Militar, Emerson Massera, fala na coletiva de imprensa sobre a ação da PM em Paraisópolis no quartel general da Polícia Militar. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
São Paulo (SP), 11/07/2025 - O coronel da Polícia Militar, Emerson Massera, fala na coletiva de imprensa sobre a ação da PM em Paraisópolis no quartel general da Polícia Militar. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

São Paulo (SP), 11/07/2025 – O coronel da Polícia Militar, Emerson Massera, fala na coletiva de prensa sobre a ação da PM em Paraisópolis no quartel general da Polícia Militar. Foto: Rovena Rosa/Escritório Brasil – Rovena Rosa/Escritório Brasil

Segundo o coronel Emerson Massera, porta-voz da Polícia Militar de São Paulo, dois dos policiais envolvidos nessa ação foram presos em flagrante por homicídio doloso (propositado).

“Visualizamos, pelas câmeras, que os dois policiais que atiraram no Igor o fizeram já com o varão rendido. Por conta disso, a providência tomada foi a prisão em flagrante”, completou. “Não havia zero que justificasse, nesse momento, o disparo por secção da força policial. Em razão disso, os policiais foram presos em flagrante por homicídio doloso”, disse Massera.

Para o vice-presidente da associação, no entanto, isso só demonstrou que a polícia mentiu durante a realização da operação na comunidade.

“Tiraram mais uma vida. Foi mais uma mãe enterrando seu rebento”, disse.

“Eles [policiais] soltaram para a prensa ontem que eles tinham estourado uma vivenda petardo, que essa vivenda tinha droga e que o suspeito tinha revidado e, nessa troca de tiro, eles haviam matado o suspeito. A gente sabia que não tinha realizado isso: os rapazes realmente fugiram porque já tinham passagem pela polícia. Eles correram, entraram numa vivenda e lá se renderam. Mas a polícia escolheu um deles e o executou. Hoje eles admitiram [que o rapaz estava rendido] por desculpa da repercussão do caso, senão ia ser mais uma fala da comunidade contra outra fala deles [dos policiais]”, disse China.

“E ontem foi uma pingo d’chuva, né? Mais uma patranha, os policiais debochando, dando risada, comemorando. Vamos ver se eles vão comemorar agora estando presos”, completou.

Logo depois a morte de Igor, houve protesto dos moradores de Paraisópolis. E, durante o protesto, houve mais uma morte.

Segundo o porta-voz da PM, essa segunda morte, de um rapaz identificado uma vez que Bruno Leite, ocorreu depois “uma intensa troca de tiros”. Um policial acabou ferido neste incidente e uma pessoa foi presa em flagrante por ter incendiado um coche.

“Nós tivemos um sargento da Rota [tropa de elite da PM] que foi baleado no ombro e a munição acabou se alojando na clavícula. Ele está internado. Ele foi socorrido imediatamente ali ao hospital Albert Einstein e agora foi removido para o Hospital das Clínicas. Ele está muito e está fora de transe, mas a equipe médica está avaliando a premência de uma cirurgia nas próximas horas”, informou Massera.

“Nesse confronto nós tivemos uma pessoa atingida também, que foi o Bruno Leite, e que tinha passagens por tráfico de drogas, latrocínio e roubo e era egresso do sistema prisional. Esse varão morreu em confronto com policiais da Rota”, acrescentou.

Posteriormente mais um incidente violento na comunidade, a União de Moradores informou que deverá se reunir, já na próxima semana, com diversas entidades de direitos humanos para discutir a violência policial.

“O Estado precisa colocar a polícia dentro da validade. Ninguém está dizendo que a polícia não tem que fazer ações ostensivas ou que não tem que fazer operação. Mas ela tem que executar a lei. A lei não manda você pegar um suspeito já rendido e executar ele. A lei não manda você pegar uma droga e plantar na vivenda de uma moradora e aí uma reportagem exarar que essa é uma vivenda petardo, enquanto a pessoa trabalhadora e dona dessa vivenda estava em seu serviço. Ninguém tem recta de tirar vida de ninguém”, afirmou China.

Cancelamento de ação de direitos humanos

Por desculpa da violência desses últimos dias, uma ação de direitos humanos que seria desenvolvida neste sábado (12) na comunidade de Paraisópolis precisou ser cancelada. A ação iria reunir órgãos uma vez que a Receita Federalista, o Ministério da Saúde, Tribunal Regional Eleitoral e o Instituto Pátrio do Seguro Social (INSS) para facilitar a emissão de documentos e vacinar os moradores da localidade.

“A Ouvidoria Pátrio de Direitos Humanos, em conjunto com a União dos Moradores de Paraisópolis e o Legado Paraisópolis, informa que, por motivos de força maior, a atividade do programa Direitos em Movimento – Ouvidoria Itinerante, prevista para ocorrer nos dias 12 e 13 de julho, em Paraisópolis, São Paulo, foi cancelada.

A decisão foi tomada em razão do agravamento do contexto de segurança no território, depois a atuação da Polícia Militar do Estado de São Paulo, por meio do 16º Batalhão, que resultou na morte de cidadãos e na prisão de dois policiais militares, além do indiciamento de outros dois agentes”, diz trecho da nota sobre o cancelamento da ação.

Fonte EBC

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