Há poucas coisas mais humilhantes do que ser mãe. Parece ser essa uma das conclusões a que o remake “Vale Tudo” chegou no incidente que foi ao ar nesta segunda-feira (7). Aos poucos, entre os desgostos de uma mulher digna e as artimanhas de uma ricaça sem escrúpulos, Manuela Dias tem se saído melhor no seu tela trágico da maternidade moderna que na atualização do retrato inescrupuloso do Brasil de 1988, feito por Gilberto Braga.
Em seu quarto mês no ar, o remake não quer se livrar do apelo nostálgico —e as últimas catarses de Raquel (Taís Araujo) sobre Maria de Fátima (Bella Campos) são prova disso. “Um monstro uma vez que você não tem mãe”, disse Raquel, posteriormente esbofetear e lagar a moça com o vestido de prometida rasgado, encolhida num sofá da mansão dos Roitman.
Junto da peleja no apartamento das duas, em Vila Isabel, nascente era um dos momentos mais aguardados da trama. E foi entregue com o devido dinamismo e impacto emocional, graças ao controle de Araújo, seus olhos arregalados e a capacidade de intervalar rapidamente entre estados de espírito e tonalidades vocais.
Campos, por sua vez, brilhou nos detalhes, com seu riso de vitória, malicioso e infantil, quando Odete Roitman defendeu a futura nora. Vivida com brilhantismo por Debora Bloch, numa chave dissemelhante daquela de Beatriz Segall, a bilionária conhecia as maracutaias da moça —mas, uma vez que o público sabe, não todas elas, o que deve afetar a cumplicidade entre as duas em breve.
Na versão de 1988, toda essa situação se estende do final do capítulo 78 ao início do 80, representados no embate entre a neurose de Regina Duarte e o impudência indolente de Gloria Pires, embalado por um texto mais sincopado e lento, até mesmo repetitivo, em planos mais longos, que isolavam as atrizes em pequenos monólogos.
Dias espelha boa secção das falas, no universal com pequenas alterações, o que enfraquece um pouco suas virtudes autorais. Por outro lado, soube empregar emoção no breve reencontro-despedida com Ivan no aeroporto, já a caminho de uma ilusória felicidade em Roma ao lado de Heleninha. Na original, o Ivan de Antonio Fagundes, mais bruto, retornava de Roma, já casado, e não fraquejava ao reencontrar Raquel —pontos para o olhar de Renato Góes.
Pretérito esse pico de adrenalina, porém, nascente incidente ganha outro significado na perspectiva que o melodrama de Dias costurou até agora. Basta lembrar a temática da melhor cena original do remake até agora, quando, num capítulo de maio, Odete teve um piripaque e disse a Afonso, no hospital, uma vez que “ser mãe exige muita submissão, muita desapego. É até um pouco vexativo.”
Agora com traços mais leves e humorísticos, entre o nojo e a sinceridade, eis a dificuldade da novidade Odete —uma mãe que se revolta contra essa natureza imposta. Que move as peças do tabuleiro social para ver-se livre dos filhos e usufruir sua liberdade sexual sem amarras.
Sem olvidar da presença fantasmagórica de Leonardo, o rebento predilecto e rejeitado posteriormente um acidente, enfurnado no mato aos cuidados de Nice. E o veste de ele ainda estar vivo demonstra os limites morais da personagem.
Mas para Odete, vale tudo para deixar de ser mãe. Assim uma vez que para Celina —mãe involuntária, espécie de duplo menos pior da mana, acorrentada aos desígnios demoníacos da riqueza que sustentou seus luxos até agora. Um moeda, uma vez que Raquel ressaltou, que nasce, para ela, de um ato de prostituição —e que a própria Celina prefere relativizar.
Já para a personagem de Taís Araújo, a distinção e o esforço próprio estão supra do muito e do mal. Agora, duplamente traída pela filha, vê que vale tudo para olvidar a vergonha de ter parido um ser de natureza impiedosa, aparentemente inalterável. Ou terá Fátima a sua resgate?
A temática se estende a outros núcleos que Dias tem levado muito —uma vez que o da família de Consuelo e o feminismo entranhado nas suas ações cotidianas, com a hilária visitante da sogra— ou que até ficaram perdidos —caso da maternidade de Heleninha, que era o drama principal no início da romance, foi deixado de lado, até ser retomado recentemente com a visitante de Tiago numa sessão de terapia.
Dias também deu um jeito de introjetar isso na relação entre Lucimar e Vasco, no debate sobre o recta à pensão de Jorginho, que deixou de ser interessante logo, até evolar da trama.
Por outro lado, a autora deu uma faceta complexa a Marco Aurélio, que Alexandre Nero vive com leveza notável. Além de magnata inescrupuloso, é também um pai muito ao estilo mafioso, que quer a mesa enxurro de crianças, desde que tenha seus desejos prontamente atendidos —dentre eles, roubar Sarita, a filha adotiva da mana.
Se o drama do par lésbico vivido por Maeve Jinkings e Lorena Lima também não engata por si só —por fim, fica distante dos acontecimentos, em Paraty, com debates ambientais meio frouxos—, a questão parental é levada ao limite. Para Marco Aurélio, vale tudo para ter posse sobre uma família tradicional dos sonhos, nem que seja de frontispício.
A ver, porém, até onde vai o paixão de mãe de Manuela Dias sobre o seu novo filhote. Se atingir as pontas soltas, se render menos ao proselitismo e dar novo vigor a figuras uma vez que Solange, a autora poderá encontrar no íntimo de suas personagens um retrato pungente do Brasil de 2025 —um país de mães e seus monstros.
