Veneza aplaude 'frankenstein' de guillermo del toro 30/08/2025

Veneza aplaude ‘Frankenstein’ de Guillermo del Toro – 30/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Consta que já foram produzidos mais de 400 filmes adaptando o livro “Frankenstein” —ou, ao menos, utilizando elementos da obra de Mary Shelley para imaginar histórias nela inspiradas. Dos longas com Boris Karloff nos anos 1930 à reelaboração maluca de Yorgos Lanthimos, “Pobre Criaturas”, de 2023, a história do pesquisador que criou um monstro ao tentar conferir vida eterna aos humanos já é mais que conhecida.

Por que motivo, logo, levar ao cinema novamente uma história já tantas vezes contada e adaptada? Pois o mexicano Guillermo Del Toro sentiu premência de fazer sua versão pessoal da trama e agora a apresenta ao mundo em “Frankenstein”, recebido com aplausos na competição do Festival de Veneza.

O texto de Shelley é mantido em seus temas essenciais —a questão do preconceito diante do dissemelhante, ou mesmo do sujeito separado que decide se assumir uma vez que pária e passa a agir contra a sociedade que o rejeitou. Mas o grande tema da versão de Del Toro desvia um pouco do priorizado pela escritora, que falava sobretudo da relação entre instituidor e indivíduo. O mexicano preferiu se concentrar em outro tipo de relação, mais específica, a entre pai e fruto.

Logo no primórdio, o testemunha percebe as alterações estruturais: o pai do observador Victor Frankenstein, que no romance é bondoso e harmonioso, no longa é um varão hostil e violento. Tal mudança não há de ter sido em vão —e se o próprio Victor, na idade adulta, também se torna uma pessoa de caráter duvidoso, indiferente e ainda mais obcecado pelo sucesso que o do livro, certamente tem relação com a vexame paterna que sofreu na puerícia. E que estenderá ao fruto criado em laboratório.

Usando partes de corpos de diversos homens mortos, o doutor Frankenstein dá vida a um sujeito grandalhão, atrapalhado, meio tolo. O observador logo se culpabiliza, menos por perceber que gerou uma indivíduo que terá dificuldades para sempre de se socializar do que por descobrir aquele tipo um grande idiota, incapaz —ao menos nos primeiros instantes— de provar raciocínios sofisticados.

Depois que a indivíduo se revolta e deseja assestar as contas com o pai, mostra seu lado mais violento. Nas cenas em que o monstro ainda é um bobalhão, Jacob Elordi está até razoável, com seu físico desproporcional e um ar meio “gauche” que combina com o personagem. Mas quando ele se enfurece e segmento para a porradaria, é um naco ridículo ver sua figura esguia destruindo tudo pela frente —as cenas funcionam melhor quando ele finalmente veste um casaco e o foco não fica tanto sobre seu corpo ténue.

Na primeira metade, é o doutor Frankenstein, interpretado em chave expansiva por Oscar Isaac, quem mais aparece, e embora a performance dele não seja exatamente boa, ao menos ele empresta vitalidade ao personagem —e ao filme uma vez que um todo. O trecho funciona muito.

Mas, na segunda segmento, quando o foco é em Elordi, o filme afunda, nem tanto pelas limitações do ator, mas porque sua indivíduo é lamurienta em excesso. Além de ser mais do mesmo na curso de Del Toro, é mais um para a galeria de seres esquisitões de coração tenro, de quem todo mundo tem susto, mas que, no fundo, são puros e inocentes.

Mas o cineasta ao menos corrige o maior problema do livro: Elizabeth, em Shelley, era mana de geração de Victor, e, quando eles iniciavam um romance, um desnecessário traço incestuoso desviava o foco da trama. Desta vez, a personagem é cunhada de Victor, e Mia Goth tem ótimas cenas na primeira segmento, uma vez que uma mulher imperiosa e alguma coisa petulante.

É uma pena que, na segunda metade, sua Elizabeth se reaproxime da de Shelley e se banalize. Mas ao menos Del Toro dá à atriz uma boa chance para performar cenas fora do registro do filme de horror, filão que, até o momento, tem sido o único a aproveitar o talento de Goth —que, aliás, em alguns ângulos lembra muito a avó brasileira, Maria Gladys.

Ainda mais muito recebido em Veneza foi o longa “No Other Choice”, do sul-coreano Park Chan-wook. A comédia social se inspira no livro “O Incisão”, de Donald Westlake, sobre um varão que perde o tarefa e se desespera. Para voltar a trabalhar, não vê outra opção que não seja simplesmente massacrar os seus concorrentes à vaga, um por um.

É óbvio que se trata de uma reparo sobre o contra-senso do mundo moderno, e é triste pensar que o livro foi escrito em 1997, já rendeu uma boa adaptação por Costa-Gavras, em 2005, “O Incisão”, mas que a situação da precariedade do mercado de trabalho só tenha piorado, sobretudo em tempos de lucidez sintético.

Mas Park consegue fazer um filme jocoso e que instiga à reflexão, de maneira até similar a outro longa sul-coreano: “Sevandija”, de 2019, de Bong Joon-ho. Se vai ter fôlego e transpor premiado uma vez que o filme do compatriota, que ganhou a Palma de Ouro e o Oscar, aí é outra história.

Folha

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