Veríssimo fez graça da metafísica

Celebridades Cultura


Luis Fernando Verissimo, um dos maiores escritores do Brasil, morre aos 88 anos
Simples que Luiz Fernando Veríssimo vai ser para sempre lembrado por suas Comédias da Vida Privada, pelas Mentiras que os Homens Contam, pelas Comédias para se Ler na Escola. Mas tratá-lo porquê um historiador de humor sobre o cotidiano não faz justiça totalidade à sua colossal obra.
Veríssimo, em sua literatura refinada, fez perdão da metafísica — porquê nenhum grande plumitivo do Brasil nunca fez antes nem depois dele.
Porquê todo diligente investigador metafísico, partiu do comezinho da vida para conquistar o cósmico. Que tenha usado o humor para isso — logo ele, tímido e introspectivo ao longo de toda a vida — é um traço revelador de sua opção — não só estética, mas moral: o insondável pode ser engraçado, e o mistério pode ser uma piada.
Por que nos desolarmos se, finalmente, as respostas para as grandes questões permanecerão eternamente escondidas da humanidade?
Talvez a angústia valha um pilhéria, porquê ele sempre soube fazer ao colocar seus personagens em situações, ao mesmo tempo, profundamente existenciais e banais, no limite entre o cômico e o paradoxal.
Porquê quando, em um de seus contos, dois homens que haviam estudado juntos na puerícia se veem frente a frente depois de décadas, nas condições de — pelos sortilégios e desigualdades da vida — bandido e assaltado.
O orgasmo ocorre na livraria deste, onde estaria o cofre. O varão tenta salvar a vida diante do colega armado, valendo-se de um arrazoado filosófico que improvisa para tentar sensibilizar o bandido. Esse é o trunfo que, ingenuamente, o assaltado julga ter: o seu pensamento multíplice, que pôde desenvolver ao longo de uma existência privilegiada. Mas o outro, encarnando no raconto as necessidades da “vida real”, pouco se comove.
Veríssimo exercita ali uma de suas brincadeiras favoritas: no fundo, a metafísica salva ou não serve para zero?
Ele faz o mesmo gracejo com a trova, porquê fica evidenciado em seu bordão “trova numa hora dessas?”, que nomeava uma seção frequente em suas colunas nos jornais. Eram descrições curtíssimas de situações tensas ou, por qualquer motivo, limítrofes, em que alguém sempre decidia poetizar, para o desespero dos demais envolvidos.
A trova, finalmente, é, porquê a metafísica, uma tentativa apaixonada de tatear o todo.
Em sua ironia, Veríssimo deixa transparecer que, para ele, sim, toda hora era de trova — e de filosofia.
Jornalista brasílio Luis Fernando Verissimo
Mateus Bruxel/ Sucursal RBS
As pistas para os detetives
Dois de seus personagens mais queridos e afamados são investigadores.
Um é Ed Mort, pretensamente um detetive clássico dos filmes noir, mas com particularidades que o tornam meio charlatão.
É o recurso que o responsável usa — e que se tornou uma de suas marcas — para intervalar o tempo todo entre o teórico e o pastiche.
Ed Mort representa, na obra de Veríssimo, uma das faces de estupefação diante do mistério. Nesse caso, a face concreta, das coisas mundanas, dos segredos dos homens e de suas vaidades ocas.
O outro investigador é o Comentador de Bagé, um psicanalista freudiano, mas também tradicional só até a página 3. Esse douto profissional resolve temperar os achados do pai da psicanálise com seu famoso método do “joelhaço”, inspirado na sabedoria dos pampas (terreno natal do responsável), que resolve os dilemas mais profundos de seus pacientes com um golpe de joelho muito oferecido no meio da sessão. O Comentador ecoa o fascínio de Veríssimo pelo mistério da psique, pelas profundezas do ser. E também cá há a alternância entre o sério e o irresponsável.
Citações às teorias freudianas, aliás, são frequentes, assim porquê a trechos das obras de grandes pensadores da história mundial, de livros sagrados e de artistas.
Veríssimo, que era um leitor de tudo e um consumidor profundo de arte, retribuía o muito que outros autores lhe faziam buscando elaborar, ele mesmo, uma forma apetitosa de discuti-los com seu público.
Um de seus favoritos era o plumitivo prateado Jorge Luis Borges, que aparece em diversos trechos da obra de Veríssimo, ora jogando xadrez com o responsável, ora ajudando a solucionar um intrincado caso policial.
Pouco se diz sobre a semelhança da literatura de ambos, porque Borges é visto pelo grande público porquê “complicado”, enquanto o brasílio é tido porquê um plumitivo conseguível.
Em que pese essa elevação ser, em segmento, verdadeira, ambos têm muitas semelhanças, e não é excesso proferir que Veríssimo está muito mais perto de Borges do que se imagina.
Esses pontos de intersecção estão principalmente nos temas metafísicos (dos quais já falamos) disfarçados de banalidades, na prosa extremamente curta e na meticulosa escolha das palavras.
Prosa anedótica
Borges dizia que publicava essencialmente contos curtos e ensaios porque tudo o que tinha para proferir cabia nesse formato — e porque tinha preguiça para romances, ironizava.
Para isso, desenvolveu uma escrita tão condensada e poderosa que cada vocábulo exerce, muitas vezes, o papel de capítulos inteiros.
É exatamente dessa arte que Veríssimo é um dos mais exímios representantes do Brasil no século 20 e no 21 até cá.
Quantas vezes ele abre um raconto com um nome e, maquinalmente, o leitor já sabe tudo que precisa saber sobre aquele personagem?
São os Peçanhas das repartições públicas do Brasil, os Almeidas dos bares da boemia, as Soraias das memórias da juventude.
Todo um universo se descortina quando Veríssimo nos conta, por exemplo, de uma esposa que, na leito, relata ao marido que teve um primeiro namorado chamado “Mendoncinha”.
Ou quando, com unicamente a citação a um quase ridículo traço físico, ele escancara a potência de alguém: uma pinta perto da boca que leva quem a olha à perdição da lascívia; um lábio superior que treme infimamente quando a pessoa sorri; sobrancelhas que falam por si.
O sucinto se apresenta também na confecção de cenários que imediatamente nos transportam para a situação visualizada pelo responsável. Um de seus contos, “Bandeira Branca”, começa com um simples: “Ele, de tirolês. Ela, odalisca”. E, nós, que estamos lendo, sentimos todas as texturas dos bailes de Carnaval e nossos corações palpitam pelo desfecho do anunciado romance da toda-poderosa frase inicial.
Despedida
Com perdão e uma intelectualidade que aspirou ao Universo, mas queria ser lida nos bares, Luis Fernando Veríssimo nos falou de tudo que importa nesta curta, besta e esplêndida vida. Do paixão, do sexo, das pessoas, da ciência, da política, do tempo, do zero.
Em seus contos eternos, Drácula e Batman (dois morcegos, finalmente, porquê o primeiro faz questão de ressaltar) trocaram experiências existenciais, Einstein e Deus debateram a Teoria da Relatividade, casais improváveis se formaram e grandes charlatães tiveram seus dias de glória.
A vida é tão absurda que pode muito muito ser eterna, porquê talvez especularia em suas reflexões ordinárias o solicitador teutónico Friederich [Nietzsche?], que atua nos subúrbios do Rio de Janeiro em um dos contos de Veríssimo.
A vida é eterna, sim, enquanto houver um Veríssimo para ler, um Peçanha no almoxarifado, um Almeida no jurídico e uma Ritinha na contabilidade.

Fonte G1

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *