Uma jovem solitária se muda para uma cidadezinha e fica dividida entre as demonstrações de afeto de uma entusiasta de lobisomens e as investidas de um misterioso vampiro. A sinopse poderia ser a de “Ocaso”, mas funciona também para “Vermelho Sangue”.
Novidade série original do Globoplay, a trama criada por Claudia Sardinha e Rosane Svartman estreia nesta semana adaptando a mitologia por trás desses seres para a veras brasileira e os tempos atuais. O melhor exemplo disso é o lobo que conceberam em conjunto –uma “lobimoça-guará”, na verdade, que se envolve com outra pequena.
Interpretada por Leticia Vieira, Luna tem uma requisito rara, que a transforma em lobo-guará quando é Lua enxurrada. Ela a herdou de seu pai, de quem sabemos pouco, já que ele não está mais presente em sua vida. A mãe, superprotetora, faz seu mundo rodopiar em torno da filha e da procura de uma trato.
Por isso, as duas se mudam para um instituto de pesquisa no encerrado mineiro, que funciona uma vez que uma espécie de universidade. Enquanto Luna estuda, Carol passa horas e mais horas no laboratório, sob orientação de um diretor com interesses, logo desconfiamos, escusos.
Ao longo da puerícia e da juventude, a protagonista aprendeu a evitar a transformação completa em lobimoça. Esse autocontrole, porém, é ameaçado com a profusão de hormônios que a arrebatam quando conhece Flora, uma colega de turma que não tem muitos amigos justamente por razão de seu lado esotérico, branco de motejo –vivida por Alanis Guillen.
Quando elas se beijam calorosamente no vestiário, os olhos de Luna ficam dourados e em seus dedos crescem longas garras negras. Amar e desejar Flora, ela percebe, é um transe; sentir raiva dos alunos estrangeiros Michel e Celina, vampiros que têm uma vez que missão cortejá-la, também.
“Os personagens são jovens adultos, mas ainda assim falamos de uma trajetória de sazão, de invenção de quem são. O gênero [do horror] ajuda a falar de primeiras vezes e de rupturas de maneira mais alegórica, fantasiosa”, diz Sardinha.
Ela conta que ter desenvolvido enquanto lia “Harry Potter” a influenciou profundamente, enquanto Svartman cita as séries “True Blood” e “Teen Wolf” uma vez que referências.
“Existe um leque imenso de obras dentro desse universo. O projeto surgiu porque o Erick Brêtas [criador do Globoplay] viu um grande fluxo de espectadores para esse tipo de teor, que fazia secção do catálogo da plataforma. Ele sugeriu que era hora de pensar num teor brasílico, respeitando o código, mas trabalhando com o nosso busto folclórico”, diz Svartman.
Assim, os lobos cinzentos das tramas de lobisomem viraram lobos-guará, enquanto os vampiros, anêmicos na produção sítio, viraram alunos intercambistas, vindos de França e Portugal, em “Vermelho Sangue”. Já o cenário escolhido foi o Santuário do Caraça, construção colonial imponente em Minas Gerais, que faz as vezes da Hogwarts –a escola de magia de “Harry Potter”– brasileira.
Corredores escolares e universitários já apareceram antes na obra de Sardinha e Svartman, que trabalharam juntas em “Malhação”, além de nos folhetins “Totalmente Demais” e “Bom Sucesso”. A segunda autora assina ainda a geração de “Vai na Fé” e “Dona de Mim”, que recentemente deram motivos para a Orbe sorrir em meio à crise de audiência do formato.
Uma vez que elas, “Vermelho Sangue” quer morder uma fatia generosa do público. Por mais que a sinopse possa parecer a de uma trama jovem, há temas adultos com os quais as autoras esperam que todos se identifiquem. Elas acreditam que o tema principal da série é justamente o embate entre natureza e ciência, num momento em que o mundo se alarma com discussões ambientais e tecnológicas.
“O poder está com o testemunha. Ele pega a história e a lê a partir de suas próprias narrativas e trajetórias. Eu, uma vez que consumidora desse tipo de teor, sei que a função das histórias de monstro é perguntar quem é o monstro”, diz Svartman.
“É a Luna? É quem quer transformar a Luna? A mãe dela procura uma trato por paixão? Mas isso não é uma forma de violência? Nós vamos propor as discussões, mas o poder está com o testemunha, que, eu sempre digo, nunca é passivo ao testemunhar a uma história.”
